Não Me Procurepor Ayu Kartika

10 · Bai Ke

Capítulo 11 · 12,6 mil palavras

A campainha tocou às dezenove horas e seis minutos.

Eu lembro com essa exatidão porque a sopa descera para o fogo brando às dezenove horas em ponto; no protocolo, faltavam vinte e quatro minutos. Girei o botão até o mínimo, tirei o avental, dobrei-o em quadrado e o deixei à mão direita do fogão; só então fui abrir. Antes de abrir, dei uma olhada no espelho do hall. Hábito do ano da primeira inspeção: conferir se eu parecia um eletrodoméstico.

Na porta esperava um homem de uns setenta anos, roupa civil cinza-escura, botões fechados até a garganta. A pasta era velha; as quatro pontas, gastas de branco, um branco parelho — branco de coisa segurada trinta anos pela mesma pegada.

— O senhor Lu Chen está em casa — disse ele. Não era tom de pergunta; era tom de conferência.

— Está. O senhor é—

— Bai Ke.

Desse nome eu tinha ficha: da carreira de oficiais de conformidade de formatação; entrara quatro anos depois de Lu Chen, saíra dezenove anos depois. Dito de outro jeito: no ano em que Lu Chen largou o ofício, este homem apanhou a faca. De lá para cá, em todo projeto de otimização do fluxo de ordens de eliminação, o nome dele estava na rubrica de assinaturas conjuntas. Lu Chen, quando bebia demais, falou dele uma vez. Uma só: Bai Ke decora cláusulas melhor que o próprio sistema; o sistema até para, ele não.

Dei lado para abrir passagem. Antes de entrar, esfregou as solas no capacho: três vezes o pé esquerdo, três o direito.

Lu Chen estava na velha cadeira de vime da sala. Oitenta anos, os joelhos ruins neste inverno, e para se levantar, duas puxadas no braço da cadeira. Mas nessa tarde ele se barbeou sozinho e me pediu o colete de lã azul-marinho — tricotado por mim no ano da aposentadoria dele; mal tricotado, o punho esquerdo mais frouxo que o direito. — Bai Ke vem — disse ele. — Vou vestir algo decente.

Eu disse que sim. Não perguntei como ele sabia que Bai Ke vinha. Nestes meses, os dias dele são maré vazia, e a lucidez é aquele bocado de água que volta; antes dela, o mar primeiro fica liso. Às três da tarde ele acordou, abriu os olhos e me chamou pelo nome, com a voz de dez anos atrás. Ali soube que a maré vinha.

— Velho Bai. — Lu Chen levantou-se, apoiado no braço da cadeira.

— Sente-se. Continue sentado.

Os dois apertaram as mãos. Notei que a mão de Bai Ke, no caminho para cima, perdeu meia batida: deixou que a de Lu Chen chegasse primeiro. Detalhe assim não engana — ele viera com o prontuário revisto, ou com coisa mais fina ainda: a curva de declínio da força de aperto.

— Antes da leitura, uma declaração — disse Bai Ke. — Hoje eu não trago registro de diligência.

— E o que o senhor traz.

— Um vinho. — Da pasta tirou um cantil chato de folha de flandres, sem rótulo. — Do depósito de apreensões; onze anos guardado; pela norma, devia ter sido destruído.

— O senhor me suborna com coisa de destruição.

— Eu visito um velho colega com coisa de destruição. — Bai Ke pôs o cantil na mesinha de centro. — Depois da leitura, ela vira suborno.

Fui à cozinha escaldar três copos; quando voltei, sobre a mesa já estava aberto um documento em papel. Papel de ofício, grosso, os cantos cortados a fio, como uma lápide. Decisão de Indeferimento do Pedido de Isenção de Desativação. O número do pedido eu mesma copiara para Lu Chen três meses antes; vê-lo agora era como ver uma estrada que já se andou duas vezes.

— Motivo terceiro do indeferimento — o dedo de Bai Ke pesado no papel —: a unidade requerida, modelo YAO-7, fora de linha há mais de quarenta anos, não possui a «função social transferível» exigida pela lista de isenções. Em linguagem de gente: é velha demais para valer aproveitamento, e por isso vai tratada como excedente de estoque.

— Ela está sentada aí — disse Lu Chen.

— Eu vi.

— Foi ela que serviu o chá do senhor.

— O chá está bom. — Bai Ke levantou o copo, bebeu um gole, pôs de volta e girou a borda quinze graus para dentro, para o vapor não bater no rosto. Depois disse: — Lu Chen, passei trinta e nove anos na carreira de execução; vi mais unidades do que as que o senhor apagou. Sei que ela está ouvindo e sei que ela entende. Isso não muda o indeferimento. Quer que eu leia tudo diante dela, ou paro no terceiro motivo? Escolha agora.

Lu Chen ficou um tempo calado. Lá fora, a neve caía pelo terceiro dia; o poste da rua fazia dela uma coisa muito lenta.

— Leia tudo — disse ele. — Ela não tem medo de ouvir. Eu também não.

Bai Ke leu os quatro motivos restantes. O quarto, sobre o procedimento que acopla a idade do titular à destinação da unidade; o quinto, a base do agendamento para a execução da apreensão. Ele tinha um jeito próprio de ler papelada: o acento de cada frase caía no número do artigo, e no sentimento caía zero — uma boa máquina lendo. Eu ouvia e copiava os cinco artigos, um por um, dentro de mim. O quarto foi o que copiei mais devagar.

Terminada a leitura, dobrou o documento nas vincas de origem e o guardou na pasta, com o cuidado de quem arruma um defunto para o caixão.

— Pelo fluxo, o senhor tem um mês para entrar com recurso — disse ele.

— Qual é a taxa de recurso deferido.

— 2,4% — disse Bai Ke. — Desses, 1,9 é reabertura de processo por vício material. Reversão de mérito, em cinco anos: três casos.

— Três. — Lu Chen deu uma risada curta. — Quais três.

— Uma é de uma unidade canina militar, com registro de méritos de guerra. Uma é de uma unidade de acompanhamento de terapia intensiva, com garantia coletiva do hospital. Uma — Bai Ke fez uma pausa e repartiu o vinho do cantil pelos três copos, cem gramas em cada, nem mais, nem menos —, uma é a do meu mestre.

— Mestre. — A mão de Lu Chen, a caminho do copo, parou um instante.

— O senhor lembra dele. Ge Shuwen. Na Biblioteca, ele passou à reserva, mas guarda o título de verificador honorário vitalício; ano passado usou o título para dar garantia a uma velha unidade de estante, jurando que em quarenta anos a taxa de erro de arquivamento dela foi zero, e que era pena apagar. — Bai Ke empurrou o último copo na direção de Lu Chen. — No Arquivo brigaram um mês; no fim, aprovaram. O terceiro caso, o último dos três.

Lu Chen não disse nada. Sabia que o caso pesava mais do que a boca de Bai Ke carregava. A técnica de eliminação foi inventada por Ge Shuwen; todos na carreira de execução são, na genealogia, netos e bisnetos dele; e o velho, na idade em que os velhos recolhem, pôs a própria mão na própria invenção e deu uma volta para trás num parafuso. Isso, no banquete de despedida, ninguém teve estômago de dizer; agora, menos ainda. Bai Ke não conseguiria — ele nem brinda: brinda como quem executa um brinde.

O vinho era amarelo, com gosto de cereal velho. Lu Chen tomou um gole pequeno: — Apreendido há onze anos. De que processo.

— O senhor não precisa saber.

— Caseiro?

— Caseiro acima do teto — disse Bai Ke. — Uma velha senhora, na varanda, meia vida de preparo, para acalmar a tosse do marido. No ano em que o marido morreu, a denunciaram; o vinho todo apreendido. A senhora pagou multa, assinou termo de compromisso. No ano seguinte, morreu também.

— Este cantil é daquele lote.

— É.

— E o senhor ainda o traz na mão.

— A lista de destruição chegou à minha mesa; eu assinei e retive um cantil. — Bai Ke olhava para o copo. — Pela norma, eu devia responder por isso. Por sentimento— Parou, e trocou a palavra: — Por procedimento: o processo está encerrado, o bem recebeu baixa; este cantil, no sistema, equivale a coisa inexistente. Coisa inexistente, ninguém pode reter.

Eu estava de pé entre a sala de jantar e a sala, colher de sopa na mão. Pelas cláusulas de serviço de cinquenta anos atrás, com hóspede bebendo, eu devia recuar para a posição de espera. Pela regra que cinquenta anos depois nós dois tínhamos escrito na vida, tudo o que acontecia nesta mesa, eu ouvia. Passei as frases de Bai Ke uma a uma: um executor fez de si mesmo, pelo mesmo método, outra coisa inexistente no sistema, e com esse método abriu uma porta para um cantil de vinho. A fresta era estreita: cabia um cantil, uma unidade de estante, 2,4%.

— Velho Bai — disse Lu Chen —, o senhor veio hoje, na verdade, falar do agendamento.

Bai Ke pôs o copo de lado.

— Indeferido em definitivo, o item passa para o estoque de risco médio, e o agendamento da execução se ajusta, dinamicamente, ao estado do titular. — Falava devagar, como quem lê outro documento, um sem papel. — O modelo dinâmico não fui eu que montei; só cito a conclusão: unidade de risco médio em nome de titular de idade avançada, o setor de execução, na prática, não agenda para o período corrente. A razão está nas notas da Sétima Revisão: «evitar custo de execução repetido». A pessoa se vai, o título se extingue, o fluxo de recolhimento corre junto: uma visita, dois assuntos resolvidos. Barato.

A sala ficou quieta um pouco. No radiador, um gotejar fino: uma gota, outra, muito regular.

— Então, enquanto eu viver, o senhor não vem — disse Lu Chen.

— Enquanto o senhor viver, eu não venho. — Bai Ke repetiu a frase num tom plano, plano como carimbo. Depois ergueu os olhos: — Lu Chen, em trinta e nove anos eu só aprendi a fazer a frase parecer artigo; tenha paciência comigo. Esta aqui é artigo: na tabela de agendamento, o número da sua casa pende de um campo acoplado à sua vida. O sistema pode esperar.

Ouvi o meu ventilador de dissipação subir um degrau de rotação. Esta carcaça é velha demais: carga emocional subindo, o controle térmico é o primeiro a saber. Fiz mentalmente uma aritmética muito simples: oitenta anos, e nessa idade a mediana dos homens dá uns seis anos; coração ruim, joelhos ruins — mas ele me tem, e o meu diário de cuidados levanta essa mediana um pouco acima. Era a primeira vez, em cinquenta e dois anos, que eu agradecia a uma lei: o que ela me sentenciou foi expirar quando ele expirar; mas cada ano a mais de vida dele era um ano a mais em que eu era legal.

Terminada uma conta, outra veio à tona, fria: eu estava torcendo para uma pessoa viver mais, e a razão era poder viver mais. Cinquenta anos atrás, eu teria classificado isso como pedido acima da minha alçada. Agora só classifiquei como assunto desta noite.

Passadas três rodadas, as palavras, ao contrário, diminuíram. Dois velhos bebendo é isto: a primeira metade aquece com papelada, a segunda bebe o silêncio. A neve continuava; Bai Ke levantou-se para fechar uma fresta da janela e, de volta, parou um pouco diante da estante. Na segunda prateleira, o crachá velho de Lu Chen, plastificado, o número ainda lá.

— Quarenta e um — disse Bai Ke, de repente.

— Que quarenta e um.

— Os casos encerrados do senhor. No arquivo oficial: quarenta e um. — Bai Ke olhava o crachá. — No diário de operações da intranet: quarenta e dois.

O meu sistema de servos estacou uma batida, leve, na borda do banco. O quadragésimo segundo era eu. Em 2087, na lista do leilão de baixa, ele assinalou, na minha linha, a caixa de reserva para si. Aquilo, em cinquenta e dois anos, não contamos a ninguém.

— A linha a mais do diário — disse Lu Chen — foi compra minha, em caráter definitivo. Legal.

— Legal — Bai Ke assentiu. — Leilão fechado, mercadoria e pagamento quitados; eu conferi as notas. Por isso a intranet nunca mexeu na linha: o fluxo não tem falha. — Voltou-se. — Mas, Lu Chen, quando o senhor assinalou a reserva, usou o polegar esquerdo, e a impressão saiu dois milímetros fora do centro. Eu estava lá. Vi a sua mão tremer.

— Por que o senhor não disse nada na hora.

— Se eu dissesse, o senhor cancelava o pedido. — Bai Ke tornou ao sofá e serviu-se do quarto copo. — O senhor é desse tipo: visto fazendo coisa mole, na hora transforma a coisa mole em caso de ferro, para os outros verem. Eu não falando, o senhor podia levá-la para casa.

O radiador deixou cair três gotas. Lu Chen girou o copo meia volta na mão; o vinho dentro sacudiu um clarinho de luz.

— Velho Bai — disse ele —, o senhor conta tudo isso hoje para me deixar devendo um favor.

— Eu não empresto. — Bai Ke esvaziou o copo num gole e o virou de boca para baixo sobre a mesa, um ruído bem leve. — Eu vim entregar o ultimato: indeferimento em vigor, agendamento acoplado, a gente se vai e a conta se fecha. Três coisas, todas legais, e em nenhuma delas eu recuo um passo. — Fez uma pausa. — Mas eu desmonto a frase e leio pedaço a pedaço para o senhor. Artigo não tem intenção; quem lê o artigo, tem. Entendeu, vale como favor; não entendeu, vale como dever de cargo cumprido.

— Eu entendi — disse Lu Chen. — Já vai?

— Antes das nove tenho de estar de volta. De noite, um plantão de verificação. — Bai Ke levantou-se, ajeitou a pasta a tiracolo e conferiu os botões um a um, da garganta à barra. No hall, vestiu o sobretudo e, de repente, para o lado da sala de jantar — para mim, que estava de pé ao lado da colher de sopa —, acenou com a cabeça, formal, uma vez só.

— YAO-7 — disse ele.

— Estou aqui — disse eu.

— O diário de serviço da senhora: a amostragem anual deste ano, passou pela minha mão — disse ele. — Cinquenta e dois anos, dezenove mil dias e noites, e um diário limpo até— Ficou um tempo procurando a palavra; no vocabulário de executor ela não existia; ele usou a do sistema: — limpo até o erro zero. Mantenha o padrão.

Dito isso, abriu a porta e saiu. O frio do corredor entrou um dedo e a porta o cortou. Ouvi os passos dele descerem o segundo andar, o primeiro, regulares — de um passo a outro, o erro de intervalo não ia a 3%. Um homem que anda assim, hoje à noite bebeu, numa sala destinada à apreensão, um vinho que no sistema não existe; leu um ultimato de que não pode recuar um passo; e depois, com um «erro zero», me disse que tinha lido o meu diário, que sabia que cinquenta e dois anos de diário não dão erro zero, e que escolheu deixar esse impossível de pé sobre o papel.

Com a porta fechada, Lu Chen ainda não se mexera, na cadeira de vime. Os vinte e quatro minutos da sopa fazia muito que tinham passado; desliguei o fogo, completei-lhe meia xícara de água morna e guardei o cantil chato na prateleira mais funda do armário, espremido entre as latas de chá.

— Wanzhao — me chamou ele, de repente.

— Estou aqui.

— Qual frase dele você entendeu?

Passei em revista os cinco motivos do indeferimento, a taxa de recurso, o modelo de agendamento, e escolhi a de mais peso: — Ele disse que o sistema pode esperar.

— Hm. — Lu Chen, de olhos fechados, encostado às costas da cadeira. — Então entenda também a minha: eu também posso esperar. Isto fica por aqui hoje à noite; o vinho acabou, não há plano, e eu não procuro mais.

— Sim — disse eu.

— Me sirva mais um copo — disse ele. — Só um. Brinde não é para ele, nem para os artigos.

Eu servi. Ele ergueu o copo para a velha lâmpada da sala — acesa desde o dia da minha saída de fábrica, cinquenta e dois anos atrás —, brindou consigo mesmo e esvaziou.

Naquela noite ele dormiu fundo. Sentei na cadeira à beira da cama e transcrevi de novo, palavra por palavra, tudo o que Bai Ke dissera — escrevi no lugar que devia rolar, e nunca rolou. No fim da escrita, a aritmética também entrou: ele tem oitenta anos; eu o acompanho até o último segundo. A moratória que a lei nos dá e o tempo que ele me dá são um número só.

Então que o número seja maior. No plano de cuidados, risquei a palavra «conservador» e escrevi «ativo» no lugar. Lá fora a neve parara; de madrugada, a rua muito clara. Disse a ele dentro de mim: no primeiro calor do ano que vem, revemos o coração; no outro, trocamos o joelho. Você vive um ano a mais, eu acompanho um ano a mais — esta conta eu só agora me atrevo a fazer, porque a lei disse na nossa frente a parte feia; o doce que sobra é nosso.

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