Registro no cofre: 1 entrada. Detalhes, entrar para consultar.
Entro pela fresta do portão. A fresta é de uma pessoa de largura; dentro, o portão se fecha às minhas costas, fecha leve, sem ruído, a luz branca presa numa linha, e depois não está mais. No corredor, a luz branca desce do teto, bem parelha, sem tremor. A frequência de atualização da fila de luzes do teto eu leio; não é o número do vestíbulo; mais firme que a do vestíbulo. A luz daqui tem ainda menos pressa que a do vestíbulo.
O piso é de epóxi, cinza-claro, uma junta a cada 4 metros; nas juntas, embutida a borda de uma faixa amarela. A linha amarela começa por baixo do portão e vai até a parede do fim do corredor, da mesma largura daquela das janelas de envio do vestíbulo. Junto à parede, 4 placas de porta em fila vertical: impressão digital, amostra de sangue, respiração, ondas cerebrais. Os caracteres são estampados, o mesmo processo do 0 da verga. Ao lado de cada placa, uma telinha; todas apagadas, a face para fora, pretas bem parelhas.
Não as toco. Hoje não é dia de medir.
No fim da linha amarela, junto à parede, ergue-se um terminal. Do mesmo padrão do lote das janelas de envio do vestíbulo; a tela apagada; nos cantos, um anel de brilho esfregado, esfregado por mãos. No corredor não há mais ninguém, não há outro objeto; de quem são as mãos que esfregaram esse anel, não se sabe. Ponho a mão em cima; a tela acende. Os caracteres, brancos, saem linha por linha.
> Registro no cofre · Detalhes > Número de registro: HZ-4471 > Nome: Shen Yan > Categoria: pessoa natural > Data de registro: 11 de abril de 2085 > Estado: Falecido > Data de registro de óbito: (sem registro) > Carimbo vinculado: 4471 > Agendamento vinculado: ZR-4471 (gerado em 19 de janeiro de 2082) > Observações: (em branco)
De pé, leio uma primeira vez, depois uma segunda. A terceira, leio uma linha só, a do estado. Dois caracteres: Falecido.
Data de registro, 11 de abril de 2085. Esse dia eu vi em outro lugar: o dia da admissão da objeção, o dia da primeira reemissão da 77413. No dia em que ela venceu, dentro desta porta registrou-se um Shen Yan. O campo do estado está morto. Depois da data de registro de óbito, um parêntese; dentro do parêntese, sem registro. No dia 6 eu vi o uso desse campo no extrato do registro de óbito; naquela página, a data de registro de óbito de Lin Xiumei vinha cheia, 9 de fevereiro de 2083. No meu campo, um parêntese. Falecido, sem data de registro. 40 anos esse campo está vazio, e ninguém nunca achou que precisasse ser preenchido.
A linha do agendamento também fecha: ZR-4471, 19 de janeiro de 2082. Três anos antes do dia de registro. Primeiro se gera a tarefa, depois se registra a pessoa, e o carimbo espera mais 20 anos até chegar a uma mão. Ponho as duas datas lado a lado, como se põem lado a lado 2 laudos de exame médico. Os dias entre elas não calculei. O que se pode calcular, por ora não calculo; guardo primeiro.
Tiro a ficha de extrato e viro para o verso. O lápis continua lá. Copio 5 linhas: número de registro, data de registro, estado, data de registro de óbito sem registro, agendamento vinculado. Ao chegar aos 2 caracteres de estado, a ponta para um instante sobre o papel. Copio também os 2 caracteres de Falecido. A mão não treme. As 9:15 passaram faz tempo.
Embaixo do terminal há uma seção: carimbo vinculado · registro de entrega. Abro.
> Carimbo 4471 · Registro de entrega > Fabricação e entrega: 3 de novembro de 2075 · primeiro titular > Mudança: 11 de abril de 2085 · entregue por herança > Mudança: 3 de novembro de 2105 · entregue por herança > Entregue a: (em branco) > Fonte de escrita: BK-4471 · carregada com o carimbo > Tinta: cinábrio · ciclo de reposição: 77 dias · Responsável: (em branco)
Entregue a. Em branco. O número vai com o carimbo; o rapaz da Seção de Pessoal disse isso há 3 anos, apontando então a mesma casa do formulário de renovação de crachás. Duas linhas de mudança: uma, 11 de abril de 2085, o mesmo dia do registro; outra, 3 de novembro de 2105, o dia do meu ingresso. Duas linhas de mudança, mais a linha de fabricação e entrega: 2 vezes o 3 de novembro. Na página de aprovação há outro, 3 de novembro de 2065. Três 3 de novembro, a 60 anos uns dos outros, empilhados sobre a mesma data.
A linha da fonte de escrita é a que leio mais devagar. BK-4471, carregada com o carimbo. As 3 linhas do verso do escrito de recusa, tracei-as, superpus sob a lâmpada: os traços coincidem. Meu nome na página de aprovação: traços apertados. A fonte pende do número do carimbo, não pende de um nome de pessoa. O carimbo muda de mão, e a escrita vai com o carimbo. Copio também esta linha. Ao terminar, viro a ficha para a frente, com a linha do Artigo Zero para cima.
No canto inferior direito da ficha há uma linha de rodapé em letra miúda, um corpo menor que o texto. Chego perto para ler.
> Ficha de registro · lote de impressão 2085-044 · arquivadas neste lote: 3,106 fichas
Uma ficha das 3,106. O lote de impressão é coisa morta; os caracteres, pretos, da mesma cor que o texto da ficha. 3,106 fichas, um lote de impressão.
As quatro portas não toco. Fico um pouco à cabeça da linha amarela olhando as 4 telas apagadas. Pretas bem parelhas, do mesmo jeito que os 3 vãos das três fileiras externas do Arquivo. Quando me basta, me viro de volta.
Na face interna da porta de aço está a tampa; sob a tampa, um botão giratório. Duas voltas e aquele ruído pequeno sai de dentro da porta de novo, o dos que recuem. Empurro a porta, subo os 3 degraus curtos, saio pelo portão de vidro. O portão se fecha às minhas costas. Os 64 degraus: no patamar ainda está aquele vento fino, que sobe de baixo, frio, seco, para cima. A porta corta-fogo tem por dentro uma barra de empurrar; um empurrão e abre. Nenhuma dessas portas precisa de chave por dentro. Este cofre só guarda contra gente de fora entrar; não guarda contra gente de dentro sair.
A luz amarela do depósito interno segue acesa. Os números de estante das três fileiras externas vão de B-01 a B-47; B-13, B-26 e B-31 seguem vazias. No vão B-07, onde o volume de capa azul das Notas Legislativas esteve deitado, a madeira guarda uma marca mais clara que a lombada. No Arquivo não há mais ninguém. Sobre a mesa da A He, meio copo de água fria, prendendo uma página com meia linha de rascunho de registro; ela não está. Levanto a ficha de extrato contra a lâmpada: as 5 linhas copiadas, tinta parelha, nenhum caractere traçado errado. Guardo no bolso interno, na mesma camada da senha. Ao sair do Arquivo, a tela do registro de consulta está apagada; não levei nada em consulta, e não há nada para levar.
De volta ao vestíbulo às 17:26. Na tela do registro de saída, a minha linha se fechou sozinha; na casa da hora de retorno, o sistema preencheu 15:30 por mim. Hora em ponto, minuto em ponto. Olho a minha linha 2 vezes e não vou atrás de ninguém para mudá-la. O sistema leva a conta dele; eu sigo o meu caminho; as duas contas, de hoje em diante, deixam de fechar, como aquelas 2 do depósito interno. No fim do corredor, o carro da Seção de Documentos está parado à boca da Zona B, com a caixa vazia. Hoje ninguém trouxe peças à minha fileira.
À noite, em casa. O bilhete estendido sob a lâmpada: o anverso, 12 linhas, a décima segunda 16013. As 2 linhas do verso, sem tocar. Não acrescento a décima terceira. No fundo da gaveta esquerda da mesa, a página subtraída dobrada com a folha amarela; não abro a gaveta. O formulário de encerramento, 3 páginas na bolsa; a tampa da caneta para cima, continua para cima. O caderno de erros prensado sob a bolsa; não o tiro.
Vigésimo segundo dia.
05:47, água para ferver. 3 gramas de antes da chuva, 80 graus, despejo, 3 vezes a cheirar, fora.
20 voltas de moenda no poço, depois a data: 25 de novembro de 2125. Os traços saem apertados. Amasso, deixo prensado sob o pisa-papel.
A jiboia, regada. A terra está úmida.
Desprendo o curativo. Aplico outro. Conto: 4.
06:12:00, o trem de pessoal entra na estação. Vazio.
O armário, o 4471; o crachá novo preso à esquerda do peito; do vestiário à Zona C, aperto 3 vezes. A capa contra poeira continua; sob a borda, aquela mancha vermelha segue balançando. Levanto um canto.
> Estado: Vencido > Vencido por: 422 h 09 min > Relógio: em curso
A peça da cabeça da fila: vigésimo dia. Hoje é a reemissão número 14,838. Na coluna da tela de classificação não há HZ-4471; 3,000 números menos um, e a grade segue alinhada. A coluna da Zona B varro com a vista: o número de Lao Ge continua, terceira linha. A tela não conhece ausência; a tela só conhece números.
09:15:02, a mão treme, 0.4 segundo. Na mão, nada. Depois, a mão direita fica um tempo presa no canto da mesa.
09:31, no canto superior direito da mesa não salta nada. Ontem foi a notificação segunda; hoje se completam 3 dias desde o envio, e a tela, limpa. Os 2 caracteres de «findo o prazo» não vieram. Não vir pesa mais que vir. Aliso a capa e conto as diagonais da capa, a partir do canto inferior esquerdo. Ontem passei de 100; hoje chego a 107; no terceiro fio há uma emenda, menor que a de ontem. Acabada a conta, tiro a mão da capa.
De manhã recito o registro. O de há 3 dias: 24, 96, 7. No volume de 96, os 2 nomes que ontem se cruzaram hoje voltam ao lugar; não se cruzam. 96 pessoas; uma é uma. Acabada a recitação, escrevo de memória, uma vez cada, os nomes com que começam os 3 volumes, no canto da mesa acima da capa; ao terminar, apago com a manga.
Xiao Zheng vem da Zona B trazer o cartão de água e para um instante à beira da minha mesa. Ele olha a capa contra poeira e me olha.
Ele diz: Shen, esses dias você vai demais para o lado do Arquivo.
Digo: Trato de uma peça.
Ele diz: A sua peça não está parada.
Digo: A que está parada.
Ele não pergunta mais. Põe o cartão de água no canto da capa, dá 2 passos, se vira e diz: O carro da Auditoria esses dias não veio. E vai.
09:50, saio do vestíbulo. A casa do fechamento do dia não abro; quarto dia de suspensão do carimbo, o sistema registra o 0 por conta própria.
Chego ao Arquivo às 10:11. A He conserta uma pena de mergulho, um anel de tinta no punho da bata azul. Ela levanta a vista para mim sem largar a pena.
Digo: No canto inferior direito da ficha há uma linha de rodapé.
Ela larga a pena.
Digo: Lote de impressão 2085-044. Neste lote, 3,106 fichas arquivadas.
Ela tira da gaveta um toco de lápis e anota a linha num canto de papel à mão; anota devagar, os números traçados traço por traço. Ela pergunta: E a segunda ficha.
Digo: Não cheguei a uma segunda ficha.
Ela diz: Mesmo que tivesse chegado, não seria outro número.
Ela dobra o canto de papel e o mete à pressão na caixa de flandres, no mesmo compartimento dos 2 pedaços de clipe. Ela diz: Esse número eu guardo. Não me leia de novo em voz alta.
Digo: Está bem.
Ela diz: Vai de novo.
Digo: Vou de novo. O cofre inteiro eu vou percorrer. A classe pessoa natural.
Ela não pergunta por quê. Tira do anel da cintura a chave comprida, depois a curta, e as fecha numa mão. Ela diz: Te acompanho até os degraus. Regra de sempre: o umbral eu não cruzo.
As três fileiras externas, o depósito interno, a porta corta-fogo, os 64 degraus. Ela abre a porta de aço, 2 voltas, recua para os degraus e joga a luz de baixo para cima. Entro pelo portão de vidro; a luz branca ilumina a linha amarela até o fim.
O terminal acende. Na tela não há teclado; os termos de busca se escrevem à mão, o dedo sobre a tela. Escrevo os 3 caracteres de «pessoa natural»; os traços saem apertados. A tela os reconhece. Primeiro grupo de condições: categoria, pessoa natural. Alcance, o cofre inteiro. Estado, Falecido.
> Resultado da busca · pessoa natural · cofre inteiro · estado: Falecido > Acertos: 3,105 > Registro mais antigo: 2045 > Registro mais recente: 11 de abril de 2085 > Data de registro de óbito: com registro 3,104 | sem registro 1
Apago a condição Falecido e ponho: estado, sem restrição.
> Resultado da busca · pessoa natural · cofre inteiro > Acertos: 3,106 > Estado «Falecido»: 3,105 > Estado «INTERNADO»: 1
3,106 entradas; mortas, 3,105. A minha está entre as mortas; a do primeiro titular está entre as mortas; os 3,104 números de funcionário de 40 anos atrás estão todos dentro. A de registro mais recente vem por último: número de registro HZ-4471, registrada em 11 de abril de 2085, data de registro de óbito, sem registro. A que está sem registro também sou eu.
A entrada «INTERNADO», abro os detalhes.
> Registro de internação · Detalhes > Número de registro: 0001 > Nome: Lin > Categoria: pessoa natural > Órgão de registro: Casa de Repouso Municipal N.º 7 > Data de registro: (anterior à data de digitalização deste cofre) > Estado: INTERNADO > Mudanças de estado: nenhuma > Documentos vinculados: Recusa de Administração de Saúde [2083] N.º 007 | recibo de entrega | decisão de objeção 77413
Número de registro 0001. No campo do nome, 1 caractere: Lin. Órgão de registro, a Casa de Repouso Municipal N.º 7. O endereço no recibo de entrega do escrito de recusa, a Casa de Repouso Municipal N.º 7. A enfermaria escrita naquela carta de 2117: o número na placa da porta, a cama sem ninguém, um carimbo sobre a mesa. Três documentos vinculados: uma recusa, uma entrega em depósito, uma 77413.
Mudanças de estado: nenhuma. 42 anos, esta entrada não se mexeu. O registro de lá, no sanatório, está escrito do mesmo jeito: INTERNADO, os equipamentos seguem em operação, proibido pedir a parada. Dois registros, um no subsolo da Sede Central, outro no subúrbio oeste, meia cidade de distância, escrevendo a mesma frase.
Das 3,105 mortas, a mais antiga foi registrada em 2045. Na cabeça estendo esses 80 anos: 2025, a lei; 2045, a primeira pessoa natural registrada; 2085, a última. Quarenta anos de ponta a ponta, 3,106 entradas, e desde então no cofre não entrou ficha nenhuma mais. O que entrou foi só mudança: o carimbo muda de mão, a ficha não.
A entrada «INTERNADO», leio pela terceira vez. Na terceira leitura estou de pé à cabeça da linha amarela, a 3 passos do terminal, e os caracteres se leem igual. No cofre não há relógio, não há janelas; conto a frequência da fila de luzes do teto, nem 1 segundo de desvio. Acabadas as 3 leituras, o tempo que levaram não anotei. Número de registro 0001, nome Lin, INTERNADO. O cofre, lido até o fundo. As pessoas naturais vivas do cofre inteiro, de sobrenome Lin.