Vigésimo dia.
05:47, água para ferver. 3 gramas de antes da chuva, 80 graus, despejo, 3 vezes a cheirar, fora.
No poço da pedra de tinta há tinta. 20 voltas de moenda. Escrevo a data de hoje: 23 de novembro de 2125. Os traços saem apertados. Ao terminar, amasso o papel e o deixo prensado sob o pisa-papel.
A jiboia, regada. A terra está úmida. As 2 folhas continuam.
Desprendo o curativo. Na polpa, nada. Aplico outro. Restam 5.
06:12:00, o trem de pessoal entra na estação, vazio.
O armário, o 4471. O terceiro compartimento, vazio. A capa de pano também não está. Os curativos do segundo compartimento, conto: 5. O de ontem foi o sexto.
O crachá novo está preso à esquerda do peito. Do vestiário à Zona C, aperto-o 3 vezes.
A capa contra poeira segue na mesa; o canto que ontem levantei fica pousado na borda da tela. A tela está acesa.
> Estado: Vencido > Vencido por: 374 h 09 min > Relógio: em curso
A peça da cabeça da fila não a toco. Décimo oitavo dia. Hoje é a reemissão número 14,836.
Sento-me. A altura da cadeira não mudou. Na mesa não há peças. Aliso a capa contra poeira e deixo só o canto da tela levantado.
09:15:02.
A mão treme. 0.4 segundo. Na mão, nada. Quando o tremor passa, ponho a mão direita de volta no joelho.
3,000 mesas no vestíbulo. O som do carimbo chega de todos os lados, uniforme, denso. Meu lugar não tem som. Ontem aqui ainda havia um buraco. Hoje o buraco é um pouco maior, avança até a beirada da Zona B — não; o problema é do meu ouvido.
09:40, escrevo numa folha de petição em branco. À mão. No vestíbulo não há peças em branco; esta folha é papel que trouxe de casa, cortado no tamanho de uma peça, sem furos de encadernação na borda.
> Petição de autoverificação > Requerente: Shen Yan Posto: HZ-4471 > Assunto: submeter-se à verificação de si mesmo; só depois a revisão será válida > Fundamento: Notas Legislativas da Lei de Revisão de Pessoa Natural (2025), página 41, linha 3 > Sujeito da prova: o titular do carimbo deste posto > Data da petição: 23 de novembro de 2125
Os 26 caracteres me levam 3 cópias até sair certo. A segunda sai com 1 caractere a menos; a terceira, com um sinal de pausa a mais. Sinal de pausa não conta como caractere.
10:05, registro de saída do vestíbulo. Motivo: entrega de petição. Hora prevista de retorno: anoto 12:00.
A Seção de Assuntos Jurídicos fica no 2.º andar do edifício principal. No fim do corredor, um guichê; sob o vidro, prensada, uma folha de agendamento, o papel amarelado, o canto superior direito levantado. A folha é impressa, as linhas bem juntas; um ano de casas comprimido numa folha A4, a maioria das casas vazia. A última linha escrita traz uma data de 6 anos atrás.
Dentro do guichê está sentado um homem de uns 50; nos cotovelos das mangas cinzentas, 2 reforços, mais escuros que o resto da tela. No vidro há uma fenda horizontal, com a borda polida até o brilho; todo papel entra por ali.
Passo a petição para dentro.
Ele lê uma vez. Do começo ao fim, depois do fim ao começo.
Ele diz: Este artigo.
Digo: Este artigo.
Ele diz: 19 anos neste guichê e nunca vi esta folha.
Ele prende a petição sob a placa de vidro, tira da gaveta um volume, muito grosso, abre, passa página por página. A meio caminho tira da estante outro volume, mais grosso. Os dois empilhados, ele segura o canto inferior do de cima e empurra as páginas com a polpa do dedo.
Ele diz: A lei vigente: 2 artigos, 1 disposição suplementar. Este artigo não está.
Digo: Sei.
Ele diz: O que não existe, não posso dizer que é válido.
Ele abre o volume grosso pelo meio. O dedo para.
Ele diz: E também ninguém disse que ele não é válido.
Ele fecha os dois volumes.
Ele diz: As Notas Legislativas não são lei. São notas. Um artigo das notas que não foi adotado—
Ele para. Ele mesmo não consegue continuar a frase.
Ele diz: E também não foi devolvido.
Debaixo do guichê ele tira uma folha de recibo e começa a preencher. Preenche devagar, traço por traço, como quem traça por cima.
> Seção de Assuntos Jurídicos · Parecer de revisão da petição > Peça: petição de autoverificação (HZ-4471, 23 de novembro de 2125) > Revisão: > 1 A Lei de Revisão de Pessoa Natural vigente (revisão de 2099) não contém o artigo que o requerente cita > 2 Não consta registro de revogação desse artigo > 3 Não consta fundamento para não admissão deste procedimento > Parecer: o assunto não se enquadra nos casos de não admissão. Recebido; encaminhado ao agendamento. > Responsável: (assinatura)
Ele diz: Não se enquadra nos casos de não admissão.
Ele diz: Essa frase eu escrevi 4 vezes em 19 anos. As 3 primeiras foram medidores de água.
Digo: Então, que se agende.
Ele diz: O agendamento não é comigo. É do sistema.
Ele agrafa o recibo à petição; o grampeador soa 1 vez. Mete o conjunto inteiro numa pasta de papel kraft com um código de barras impresso. Encosta o código de barras numa plaquinha preta no canto inferior direito do guichê. A plaquinha acende.
Ele olha a plaquinha. Por mais tempo do que uma plaquinha precisa.
Ele diz: Chegue um pouco mais perto.
Me aproximo. A plaquinha é inclinada, para dentro. Tem escritos em cima.
> Admissão ao agendamento > Número de admissão: ZP-2125-1123-001 > Assunto: procedimento de autoverificação de pessoa natural (vinculado ao posto) > Requerente: Shen Yan HZ-4471 > Estado atual: incorporada > Incorporada à tarefa: ZR-4471 (histórica) > Data de geração da tarefa: 19 de janeiro de 2082 > Data de execução devida: (gerada pelo sistema) > Vencida por: 16013 dias > Estado: pendente de execução > Próximo recurso de execução disponível: (em branco)
O homem do guichê gira a plaquinha para o lado dele e a gira de volta.
Ele diz: Foi incorporada.
Digo: O que é incorporação.
Ele diz: Você já tem uma peça no seu nome. O sistema juntou a de hoje dentro dela.
Digo: No meu nome.
Ele diz: No nome do posto.
Ele diz: Número de tarefa ZR-4471. O 4 é o seu 4.
Digo: A data de geração é 2082.
Ele diz: É o que está impresso no papel.
Digo: Meu ingresso foi em 2105.
Ele não diz nada. Puxa de novo os dois volumes grossos de lei, abre a página onde parou, lê uma vez, fecha. Enquanto faz isso, fica olhando as próprias mãos.
Ele diz: Há 6 anos alguém tirou essa fila.
Digo: Quem.
Ele diz: O registro de reservas está; a pessoa, não me cabe lhe mostrar.
Digo: E depois.
Ele diz: Retirou.
Digo: Por que retirou.
Ele diz: O campo do motivo de retirada—
Ele para.
Ele diz: Está em branco.
11:20, volto ao vestíbulo. O trecho da Zona C à porta, caminho-o há 20 anos. Hoje cada mesa está soando. Ao chegar à 14.ª fileira, a dos tubos recém-trocados, o branco é bem parelho.
No canto superior direito da mesa, uma nova.
> Seção de Documentos · Notificação > Peça: formulário de encerramento LJ-2125-1122-003 > Estado: segundo dia desde o envio, sem assinatura de devolução > Aviso: assinar e devolver em 3 dias úteis. Passado o prazo sem devolução assinada, a peça vai ao Escritório de Auditoria para tramitação como «recusa de assinatura sem causa justificada».
Tramitar como «recusa de assinatura sem causa justificada». Esses 9 caracteres leio 2 vezes. Na primeira leio os caracteres; na segunda, conto os caracteres. 9.
O formulário de encerramento está na bolsa. A bolsa pende do encosto da cadeira; pela boca fica fora um canto de papel. Meto o canto para dentro.
11:52, abre o refeitório. De carne, pato assado e peixe; de verdura, espinafre e brotos de soja. Pego espinafre e brotos de soja, uma concha de arroz.
Xiao Zheng não se aproxima. Está sentado à mesa da Zona B, de costas para mim. Come na velocidade de sempre; a colher toca o fundo do prato 2 vezes, e ele se levanta.
Lao Ge não está. O lugar dele, vazio; 4.ª fileira para dentro, a cadeira empurrada até a metade. Em 20 anos ele faltou 1 vez; naquele dia a resposta foi o exame médico anual. Hoje é a segunda.
A mestra Xu passa ao meu lado com a bandeja. Ela demora um passo.
Ela diz: Sentado, então.
Digo: Sentado.
Ela diz: Sentado é bom.
Ela vai. Na bandeja dela, 2 pratos de verdura, nada tocado. Volta a sentar na Zona B, bem ereta.
12:44, de volta à Zona C. Abro uma folha sobre a capa contra poeira e recito de memória os nomes contados pela manhã. Ontem: 24, 96, 7. Anteontem: 512, 73, 1,001. O dia antes: 291, 106. Recito um por um; pelos 300, em 2 nomes o lugar me vem trocado; paro, os troco de volta, sigo recitando.
Acabada a recitação, viro a folha; o verso é branco. Sobre o branco escrevo de memória uma página do volume de 96, 12 nomes por página, enchendo uma linha e deixando a seguinte em branco. No nono os traços afrouxam; do décimo em diante traço de novo. Os caracteres traçados saem mais escuros que os 9 anteriores.
Todos esses nomes já levaram carimbo. O carimbo está no saco de custódia; os nomes continuam aqui.
13:10, no meu lugar escuto o vestíbulo. O som do carimbo chega de todos os lados. Na cabeça marco o compasso para a fileira da Zona B: um carimbo, 2 carimbos, 3 carimbos. 2.17 segundos por carimbo. Conto até 100 carimbos; nenhum rápido, nenhum lento, nenhuma pontada costurada no meio. A Zona D vai um pouco mais devagar; não é gente devagar, são peças grossas; peça grossa cai com peso, e o peso também conta dentro do 2.17.
Esse número é o meu próprio número. 20 anos, a minha média. Hoje o vestíbulo inteiro está sobre ele.
13:40, registro de saída do vestíbulo. Motivo: consulta. Hora prevista de retorno: anoto 15:30.
A porta de ferro do Arquivo está aberta numa fresta. A He está lá dentro, debruçada sobre a mesa, segurando com a pinça uma folha finíssima, para intercalar numa página de um volume.
Ela diz: Nem um passo. Não traga vento.
Fico parado.
Ela acaba a página, guarda a pinça na caixa de flandres e só então levanta a vista.
Ela diz: Hoje não é para perguntar pelo catálogo, suponho.
Digo: Não.
Digo: Folha de agendamento, o Arquivo tem. Da classe autoverificação.
Ela diz: Autoverificação.
Ela passa a mão na bata.
Ela diz: Há quantos anos você espera essa frase minha.
Digo: Como assim.
Ela diz: Esperar alguém que venha perguntar por esta.
Ela vai à fileira do fundo, se agacha e tira da prateleira mais baixa uma caixa de madeira. Dentro, um feixe de fichas atado com linha de algodão. Ela solta a linha, folheia algumas, tira uma e me alcança.
> Ficha de registro de agendamento (histórica · autoverificação) > Número: ZR-4471 > Assunto: procedimento de autoverificação de pessoa natural > Posto vinculado: HZ-4471 > Data de geração: 19 de janeiro de 2082 > Registro de reservas: 1 > Última reserva: 2019...
Ela diz: A ficha é velha; os números do sistema são vivos. No ano da ficha foi teclado errado 1 caractere. No sistema é 2119. Não faça conta pela ficha.
Ela diz: Há 6 anos, em 2119, alguém fez 1 reserva por este número. Retirou. Na ficha é só isso; o motivo de retirada não tem casa, e mesmo querendo preencher, não há onde.
Devolvo a ficha.
Digo: Me empresta a caixa.
Ela diz: Não empresto.
Ela diz: Mas você pode ficar de pé olhando. Até as 15:20.
Percorro uma por uma todas as fichas da caixa. Da classe autoverificação são 6 no total. 4 estão em branco: só número, sem assunto. Uma traz ZR-0001; o campo de assunto está riscado com linhas de tinta, riscado fundo: no verso do papel se sente a marca. Uma é a ZR-4471.
ZR-0001. Puxo-a meia polegada e a empurro de volta.
Ao sair, a ficha levanta um pouco de ar, e o verso das linhas de tinta gira para cima. Os riscos não são um: são 3, um sobre o outro; o mais fundo rompeu o papel, e a rotura levanta borda desfiada.
A He me olha do outro extremo da mesa. Não diz nada. Aperta a tampa do tinteiro.
Ela diz: Essa, toque o menos possível.
Ela diz: Quem riscou não queria que se lesse. Riscada assim, nem ele quer se lembrar de tê-la escrito.
Ela afasta a caixa de madeira meio palmo da minha mão e ata de novo as 6 fichas com a linha de algodão; o mesmo nó de sempre, 2 voltas.
Ela diz: Quando você pergunta pela autoverificação, já sei até onde vai chegar.
Ela diz: 20 anos aqui, dossiês que entram e saem; dos que perguntam por essa classe, você é o segundo.
Digo: Quem foi o primeiro.
Ela diz: O primeiro não entrou por esta porta.
Ela diz: Telefonou. Perguntou uma coisa e desligou.
Digo: O que perguntou.
Ela diz: Como se vai ao Cofre Zero.
Ela põe a caixa de volta na prateleira mais baixa e fica agachada; a mão tateia um pouco por baixo da prateleira e tira uma folha: a via inferior do registro de acervo. Ela dá 1 olhar e a mete de volta.
Ela diz: Na via inferior está o telefone que ele deixou. Um ramal. Não vou dizer.
Ela diz: Não é que eu não queira dizer; é que esse telefone foi desmontado há 3 anos.
15:24, saio pela porta de ferro. 15:29, de volta à Zona C. Uma hora e 49 minutos fora do vestíbulo.
15:37, levanto-me por água. 40 passos de ida e volta. A água fica à minha direita; sem beber um gole.
16:44, fechamento do dia. Levanto um canto da capa contra poeira.
> Revisor: HZ-4471 > Carimbos hoje: 0 > Tempo líquido: — > Média: — > Erros: 0 > Nota: segundo dia de posto desativado; peças admitidas hoje: 0
Ao passar pela tela de classificação: a primeira linha não sou eu. Décimo quinto dia. Percorro para baixo uma vez, da primeira linha à última: não há HZ-4471. No segundo dia da suspensão do carimbo, meu nome desceu da tela de classificação. Na tela, 3,000 números; um a menos, e a grade segue bem alinhada.
16:51, devolução do carimbo.
17:12, o trem de pessoal entra na estação, vazio.
Em casa, a pedra sem lavar. A jiboia, regada.
Copio numa folha o bloco da admissão ao agendamento: número de admissão ZP-2125-1123-001, incorporada à tarefa ZR-4471, data de geração 19 de janeiro de 2082, vencida por 16013 dias, próximo recurso de execução disponível (em branco).
Tiro o bilhete, o aliso. O anverso, 11 linhas. Sob a décima primeira escrevo mais uma: 16013.
São 12 agora.
O verso, sempre 2 linhas.
16013 dias. Faço a conta. 43 anos, mais 308 dias. Há 43 anos era 2082. 365 dias depois de 19 de janeiro de 2082 é 19 de janeiro de 2083.
Essa data eu vi num recibo de entrega. Em depósito, à cabeceira, recebido pelo pessoal de cuidado.
O dia em que a tarefa foi gerada é 1 ano exato antes do dia em que ela assinou o recebimento daquele papel.
Dobro o bilhete e o devolvo ao bolso interno. O formulário de encerramento segue na bolsa, 3 páginas, sem assinar. A notificação dá 3 dias úteis.
No aro de laca da tampa da caneta, passo o polegar; não sai.