Oitavo dia.
05:47, água para ferver. 3 gramas de antes da chuva, 80 graus, despejo, 3 vezes a cheirar, fora.
No poço da pedra de tinta há tinta, sem secar. Moio 20 voltas e escrevo a data de hoje: 11 de novembro de 2125. Os traços saem apertados.
A jiboia, regada. Nos talos restam 2 folhas, deixadas pelo ano passado; secas, não caem.
06:12:00, o trem de pessoal entra na estação, vazio. 06:12:08, as portas se fecham. O aviso de manutenção segue colado no elevador, um canto de papel levantado 1 centímetro. Do B2 ao 1.º andar, 19 segundos.
07:00:00, a mesa acende. Cabeça da fila, primeira peça: o 77413.
> Estado: Vencido > Vencido por: 86 h 09 min > Relógio: em curso
Pela manhã, a carimbar. O ajuste das escalas de acompanhantes do hospital do distrito, impacto humano Grau 3, 22 nomes no anexo. Conto 22.
A peça da cabeça da fila não a toco. 7.9.3: O revisor não processará um documento em luz vermelha de nenhuma outra maneira. O reencaminhamento é a única ação permitida, e o prazo do reencaminhamento já chegou a zero. Todos os dias ela aflora às 07:00; todos os dias eu a olho uma vez, a deixo na cabeça da fila e vou carimbar a seguinte. Sexto dia.
08:20, abro a biblioteca de leis na mesa. Os terminais do nível de revisão têm só permissão de leitura: não baixam, não imprimem. Levo 40 minutos.
> Pesquisa na biblioteca de leis (terminal do nível de revisão · somente leitura) > Pesquisa 1 texto integral = «Artigo Zero» escopo: leis em vigor resultados: 0 > Pesquisa 2 texto integral = «autoverificação» escopo: leis em vigor resultados: 0 > Pesquisa 3 texto integral = «submeter-se à prova» escopo: leis em vigor resultados: 0 > Pesquisa 4 texto integral = «pessoa natural» escopo: leis em vigor resultados: 3 leis, 27 ocorrências > Pesquisa 5 título = Lei de Revisão de Pessoa Natural resultados: 1 lei (a revisão de 2099) > Nota: este terminal não oferece pesquisa de textos revogados.
As 27 ocorrências da Pesquisa 4 as abro uma por uma. 26 estão na Lei de Revisão de Pessoa Natural e em 2 regulamentos que a acompanham; a 27.ª está no capítulo 3 do Anuário Estatístico Municipal, no cabeçalho de uma tabela.
Lao Zhou costumava dizer: artigos de lei não se decoram; consultam-se na hora do uso. Quem os decora, dizia ele, acaba pensando que os entende. Em 20 anos nunca decorei o texto vigente. Hoje o li 3 vezes.
Puxo o texto vigente e o leio inteiro, uma vez.
> Lei de Revisão de Pessoa Natural (revisão de 2099) > Artigo 1 — Uma decisão que afete direitos e interesses de pessoas naturais em Grau 3 ou superior não produz efeito sem o selo de um revisor pessoa natural. > Artigo 2 — Os revisores revisam com independência conforme o manual e não recebem instruções do nível de proposta nem do nível de execução. > Disposição suplementar — «Pessoa natural» nesta Lei conserva o seu significado ordinário. > (Dois artigos, uma disposição suplementar. Vigente: 1 de julho de 2099. Antecedente: a Lei de mesmo nome de 2025. A numeração de artigos começa no Artigo 1.)
A numeração de artigos começa no Artigo 1.
Essa linha miúda a leio 2 vezes. A numeração foi 1 desde o princípio; não mudou de 0 para 1. Quando aqueles 30 e poucos votaram há 100 anos, o Artigo 1 já era o Artigo 1. O Artigo Zero jamais fez fila no corpo da lei.
No Artigo 1 só há 3 coisas mensuráveis: Grau 3 ou superior, sem o selo, não produz efeito. Das 2 primeiras, o manual tem números; da terceira, não. O que seja não produzir efeito, a lei não o diz. Em 80 anos de vigência não vi uma única decisão sem efeito, nem ouvi quem a tenha visto.
09:15:02.
Minha mão treme. 0.4 segundo. O carimbo para no meio do ar, desce, a face reta. Na mão, a 103.ª peça. Hoje também não tirei o cronômetro.
09:32, registro de saída do vestíbulo. Motivo: consulta. Hora prevista de retorno: anoto 11:00.
09:41, a porta de ferro. No corredor está um desumidificador, sem desembalar, com uma guia de entrega a prensar a caixa de papelão. A He está sentada atrás da mesa de leitura consertando uma pena de mergulho, a ponta presa entre 2 lâminas de cobre.
Ela diz: Está aqui há 3 dias, e não há quem instale.
Digo: Procure a Seção de Serviços Gerais.
Ela diz: Procurei. Dizem que é para esperar o agendamento da Seção de Equipamentos.
Digo: O agendamento, para quando.
Ela diz: Não disseram.
Ela recoloca a ponta, a testa 3 vezes na mão e deixa um risco.
Ela diz: Outra vez você.
Digo: Venho retirar um tomo.
Ela diz: O volume continua sendo o mesmo volume.
Digo: Não é o volume. É o de capa azul, as Notas Legislativas de 2025.
Ela diz: O volume suplementar está na terceira fileira; no tomo que você viu da outra vez, o clipe do anexo 1 continua enferrujado.
Digo: Hoje eu não o vejo.
Ela diz: Como quiser.
Ela se levanta, caminha até as três fileiras externas, B-07, e tira um tomo. Sobrecapa de papel kraft, cosido com fio, a capa azul. Na lombada, letras em tinta branca, comidas pela metade.
Ela diz: Este tomo eu quis consertar há 3 anos e não me atrevi. Basta desfazer o fio e ele se desmancha.
Na folha de rosto, 2 linhas impressas:
> Notas Legislativas da Lei de Revisão de Pessoa Natural > 2025 · Apenas referência interna · Tiragem: 300
Viro ao índice: 4 capítulos no corpo, 6 apêndices. A página 41 cai no Apêndice 6; o Apêndice 6 se intitula «Artigos não adotados, com notas». O Apêndice 6 ocupa uma página: esta página.
Viro à última. Página 41.
A metade de cima da página 41 traz 3 linhas; a terceira é aquela frase. A metade de baixo está em branco, com um 41 no pé. O papel está amarelo; na borda, um halo de água que não chega a tocar as palavras.
Conto: vinte e seis caracteres.
Como disse Cheng Xu. Vinte e seis caracteres, terceira linha, nenhuma outra palavra antes ou depois.
Ela anota uma linha num livro de registro de papel, no canto da mesa: saída em consulta, Notas Legislativas, 1 tomo, B-07. Ao terminar diz: Eu anoto a minha linha aqui; o do sistema você aperta você mesmo.
Digo: Quem mais já consultou este tomo.
Ela folheia o livro de registro para trás. 3 páginas atrás, o dedo para numa linha.
Ela diz: A consulta anterior foi há 6 anos. No campo do usuário há um número de funcionário, não um nome.
Digo: De quem é o número.
Ela diz: Não sei. Essa linha não é letra minha; é da minha antecessora. Quando se aposentou, ela me deu as chaves; isto não me deu.
Digo: Há 6 anos.
Ela diz: Há 6 anos eu ainda não estava aqui.
Deixo o exemplar em papel sob a tela do registro e peço a A He que procure no sistema o texto digitalizado deste tomo.
> Texto digitalizado: páginas 1—40 > Página 41: não digitalizada > Motivo: obstrução da encadernação > Catalogação: março de 2096
Digo: O que significa obstrução da encadernação.
Ela diz: A lombada apertava o pé da página e o digitalizador não passava por ali. Quem catalogou escreveu obstrução, e pulou.
Digo: Pulada assim, ninguém confere.
Ela diz: Digitalizar não é uma decisão; não leva carimbo.
Digo: Então, no sistema, esta página é como se não existisse.
Ela diz: Como se não existisse.
Copio a página. Enquanto copio, noto a minha letra mais lenta que de costume; ao terminar a terceira linha, a ponta para um instante a mais no ponto final.
A He ergue a vista do jornal e dá uma olhada na folha que copiei.
Ela diz: Para que copiar essa frase.
Digo: Quero saber se ela já foi usada.
Ela diz: As coisas usadas trazem selo.
Digo: Essa frase não traz.
Ela diz: Então nunca foi usada.
Não respondo. Ela recoloca a ponta no corpo da pena e lhe dá 2 voltas.
Terminada a cópia, pergunto: Há um cotejo dos artigos da minuta.
Ela diz: Apêndices, no fim do tomo azul.
Apêndice 3. Uma página. Uma tabela.
> Apêndice 3 cotejo dos artigos da minuta com o texto aprovado (extrato) > Artigo 0 (minuta) Quando a condição do revisor como pessoa natural estiver em dúvida, o revisor deverá submeter-se à verificação de si mesmo; só depois a revisão será válida. > Não adotado. Destinação: transferido para as notas. Motivo: condições de aplicação ainda não cumpridas. > Artigo 1 (minuta) → Artigo 1 do texto aprovado (revisão da redação) > Artigo 2 (minuta) → Artigo 2 do texto aprovado (sem revisão) > Artigo 3 (minuta) → disposição suplementar (comprimida em uma)
O campo do motivo tem só 6 caracteres: condições de aplicação ainda não cumpridas.
Que condições, o apêndice não o diz. Copio esses 6 caracteres por baixo da terceira linha.
A He estende um jornal sobre a mesa, desarma a pena e a dispõe em cima por peças, limpando uma a uma.
Ela diz: A gente de há 100 anos escrevia devagar de verdade.
Digo: Como.
Ela diz: Olhe esta página: 3 linhas. Pode ser que levasse uma tarde inteira.
Digo: Pode ser.
Ela diz: Hoje tudo é rápido; só este carimbo é lento.
Não respondo.
11:02, saio pela porta de ferro. Lao Ge disse: Uma frase basta. A frase que ele dizia é a das Notas Legislativas. Hoje copiei 3 linhas; continua sendo uma frase.
11:11, de volta à Zona C. Fora do vestíbulo, 1 hora e 39 minutos.
Ao meio-dia, no refeitório, Lao Ge hoje não vem. A mesa dele, vazia; sobre ela ficou um pisa-papel que ontem ele não levou. Só quando termino de comer descubro que não sei por que ele não veio. Em 20 anos ele nunca faltou.
Xiao Zheng senta-se ao meu lado com a bandeja. Ele diz: Shen, esses dias, ao meio-dia, para onde você vai. Digo: A uma consulta. Ele diz: Consultar o quê. Digo: A lei velha. Ele diz: O que há para consultar numa lei velha. Digo: Um artigo. Ele solta um «ah», empurra as folhas verdes da bandeja para o lado e dá 2 garfadas. Ele diz: No mês passado eu também fiz uma consulta. Digo: Consultar o quê. Ele diz: O tempo de serviço. Deu 20 anos e 4 meses, nem um dia a mais. Digo: Para que consultar isso. Ele diz: Por nada. Ele pega a bandeja e vai.
À tarde, a carimbar. Ao passar pela tela de classificação: a primeira linha não sou eu. Terceiro dia.
15:37, levanto-me por água, 40 passos de ida e volta, o copo à minha direita, sem beber um gole sequer.
16:44, fechamento do dia.
> Revisor: HZ-4471 > Carimbos hoje: 7,904 > Tempo líquido: 4 h 46 min > Média: 2.17 s/peça > Erros: 0 > Erros acumulados (vinte anos no registro): 0
16:51, devolução do carimbo. 17:06, saio do edifício principal. 17:20, o 307.
Cheng Xu está. Ele baixou 3 dos tomos grossos da segunda prateleira e os tem empilhados sobre a mesa; ocupam meia mesa.
Ele diz: Não saem. Você lê aqui; eu também estou aqui.
Digo: O que você faz hoje.
Ele diz: Cartas. 30.
Ele se senta e puxa uma pilha de papéis para junto de si.
Digo: 30 cartas; você dá conta de responder.
Ele diz: Nunca dou. Respondo 10 por dia, e no dia seguinte chegam 30 mais.
Digo: E o que responde.
Ele diz: Copio artigos. Oito em cada dez perguntas trazem um artigo por trás; eu copio o artigo para elas.
Digo: E depois de copiar.
Ele diz: Depois de copiar, seguem sem ficar tranquilos.
Digo: Por quê.
Ele diz: Porque o que eles querem não são artigos.
Digo: Li o texto vigente.
Ele diz: 2 artigos, uma disposição suplementar.
Digo: Como você sabe que era isso que eu ia dizer.
Ele diz: Se você veio hoje, é por isso.
Ele diz: Levo 11 anos fuçando. Registros de execução do Artigo Zero: nem um.
Digo: A cláusula diz 3 coisas. Primeira: a condição em dúvida. Segunda: submeter-se à prova sobre si mesmo. Terceira: só depois da autoverificação a revisão é válida.
Ele diz: Você a decorou.
Digo: Passei um dia lendo-a.
Ele diz: E o que a leitura lhe deu.
Digo: As 2 primeiras são procedimento; a terceira, eficácia. Ela ata a eficácia à autoverificação. Sem autoverificação, a revisão não vale.
Ele diz: E os carimbos estampados nesses 20 anos, o que.
Digo: Esses carimbos não trazem dúvida nenhuma em cima.
Ele diz: E quem decidiu que não traziam.
Digo: Não decidiu ninguém.
Ele diz: Isso. Ninguém perguntou, assim ninguém duvidou, assim todos os carimbos valem.
Ele diz: É por aí que ele assusta. Não pelo que diz: por nunca ter sido usado.
Digo: «Submeter-se à prova sobre si mesmo». Provar o quê.
Ele diz: Não sei. Há quem o leia assim: provar se a gente é pessoa.
Ao dizer isso ele solta um riso e vira a pena de ponta a ponta.
Ele diz: Essa frase a digo há 11 anos, e não houve ninguém capaz de segurá-la.
Não respondo.
Ele diz: Procuro 3 coisas. Primeira: um registro de execução do Artigo Zero. Segunda: quem o cortou para fora. Terceira: já que o cortaram, por que deixaram uma frase.
Digo: E qual encontrou.
Ele diz: A terceira acabei adivinhando. Quem deixou a frase sabia que aquele dia ia chegar, e sabia que não estaria lá.
Digo: Foi palpite seu.
Ele diz: Foi palpite.
Os 3 tomos da Coletânea de Casos Públicos de Revisão; nas lombadas, impresso: edição dos procuradores públicos, 2098, completa em 3 tomos. O tomo 3 vai por anos, de 2031 a 2097.
Folheio o índice de trás para a frente. Ao chegar a 2085, quarta linha do fim:
> Índice (tomo 3 · 2085) > A objeção da objeção: procedimento de admissão das objeções a revisões de pessoa natural .......... 207 > Primeiro caso de aplicação do procedimento de autoverificação (resultado: objeção em vigor permanente) .......... 208 > Três notas de revisão sobre decisões de suporte de vida .......... 213
Abro o tomo 3 na página 208.
Digo: O primeiro caso.
Ele diz: Como assim.
Digo: O índice diz primeiro caso. Quem escreveu primeiro caso, ou sabia que havia um segundo, ou estava à espera dele.
Ele diz: Você pensa mais fino que eu.
Digo: É o meu trabalho.
A página 207 está. A 209 está. Entre as 2, nenhuma 208. Por dentro da lombada resta uma tira de papel de 2 milímetros de largura, o lado fofo para fora.
Quem a rasgou, rasgou de dentro para fora.
A tira que restou mede a mesma largura de princípio a fim. Lado fofo para fora: isso é rasgado. Mas a borda de um rasgo não devia ficar tão parelha.
Deito o tomo na mesa, aplano a borda de papel com a unha e fico olhando um pouco.
Cheng Xu ergue a vista um instante.
Ele diz: Já estava assim quando o comprei.
Digo: Assim como.
Ele diz: Faltando. Perguntei uma vez a quem o imprimiu; disse que o original já chegava faltando.
Digo: O original faltando, e ele imprimiu a falta tal qual.
Ele diz: Imprimiu 3,000 exemplares. Todos com a falta.
Digo: E os outros 2 tomos.
Ele diz: Aos outros 2 não falta nada. Só esta página deste tomo.
Digo: E você acha que é coincidência.
Ele diz: Não acredito em coincidência. Mas não posso fazer nada com ela. Não posso provar quem rasgou, nem a partir de que exemplar se começou a rasgar.
Ele diz: Não posso nem provar que esta página existiu. Uma linha no índice; no corpo, nada.
Digo: A borda de um rasgo não devia ficar tão parelha.
Ele diz: Eu também pensei nisso.
Não sigo por aí.
Digo: Quem compilou isto.
Ele diz: Uma comissão editorial; os nomes, na folha de rosto do tomo 1. Nunca os busquei.
Digo: «Objeção em vigor permanente», o que significa.
Ele diz: Também não sei. O índice o escreveram os compiladores; no corpo, nada.
Digo: 2085.
Ele diz: Como assim.
Digo: A objeção admitida naquele ano: no campo do fundamento, escrito Artigo Zero.
Ele pousa a pena que tinha na mão.
Digo: O artigo 9.º na sua porta, por que não os deixa conectar a interfaces de pesquisa.
Ele diz: Dizem que é para garantir que os procuradores trabalhem só com textos públicos. Textos públicos, qualquer um compra.
Digo: E na prática.
Ele diz: Na prática, podemos consultar menos que vocês.
Digo: E você aceita.
Ele diz: Não aceito. Mas quando obtive o registro de exercício, levantei a mão e prestei juramento. Quando levantei a mão, já sabia que essa cláusula existia.
Digo: Então a que mais você se opõe.
Ele diz: Eu me oponho ao carimbo, não às regras.
Ele diz: O seu amigo, no nível de revisão, pode consultar o que for, e ainda assim vem me perguntar.
Digo: Há o que ele não consegue consultar.
Ele diz: O que não consegue.
Digo: Não consegue consultar a segunda.
Ele diz: Então procure por ele.
Digo: Estou procurando.
Ele diz: Se encontrar, me avise.
Digo: Avisar de quê.
Ele diz: Da única vez que o Artigo Zero correu.
Digo: Ainda não encontrei.
Ele diz: Levo 11 anos procurando.
Releio a página 207 e a 209. A 207 trata os requisitos de forma para admitir uma objeção: 6 parágrafos, sem um exemplo. A 209 abre as três notas de revisão: a primeira, o procedimento para ajustar o grau de cuidado; a segunda, os endereços de entrega; a terceira, a numeração dos anexos. Nas 3 não há nomes, só números.
Fecho o tomo 3 e digo: Em 11 anos, recebeu alguma carta que nomeasse esses 3 caracteres.
A pena dele para.
Ele diz: Uma.
Digo: Quem a escreveu.
Ele diz: Um velho, 89 anos; dizia que de moço tinha trabalhado na Casa de Repouso Municipal N.º 7, 4 anos.
Digo: E o que dizia.
Ele diz: Dizia que lá havia um quarto cuja placa não dava o nome, dava o número. Ele entrou uma vez.
Digo: E o que havia dentro.
Ele diz: Dizia que na cama não havia ninguém, e sobre a mesa havia um carimbo.
Digo: Que número.
Ele diz: Não o escreveu.
Ele pousa a pena, tira da gaveta um saco de papel kraft — dentro, uma pilha de papéis de bordas desiguais —, saca uma folha e mo empurra.
À mão, tinta azul; no canto inferior direito do papel, uma data: 2117. A última linha tem uma só frase:
Não sei se isso conta como alguém.
Digo: Posso copiá-la.
Ele diz: Copie.
Copio a frase e devolvo a folha.
Ele diz: Essa carta está comigo há 8 anos. Guardada sem saber para quê.
Ele diz: Agora já sei.
18:38, saio. Tempo empregado: 1 hora e 18 minutos. Na cota restam 6 minutos.
Na porta ele diz: Se um dia você deixar de vir, eu não pergunto.
Digo: Vou vir.
Ele diz: Não estou pedindo que você venha.
Na escada, a luz se apaga outra vez quando estou a meio caminho. Conto os degraus descendo: 42.
A caminho de casa, o trem de pessoal passa pela prefeitura. Hoje aqueles 3 números não os li.
Em casa, a pedra sem lavar. Hoje não escrevi nada. A jiboia, regada; as 2 folhas continuam.
Tiro o bilhete do bolso interno, aliso-o e acrescento uma linha sob a última.
Antes eram 3 linhas: 77413; 11 de abril de 2085; 9 de fevereiro de 2083. Agora são 4. A quarta vai sob a dobra, com letra menor para caber:
208.
No verso do bilhete há uma linha a mais, copiada da carta: Não sei se isso conta como alguém.