[ARQUIVO ECO · CAMADA 3 · 29,4% DECODIFICADO · CHAVE: SOM AO VIVO DA CERIMÔNIA DE ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE VERÃO DE 2008]
Dia 118, 03:11:44, degrau 121.
Adebayo pediu a banda base bruta do quadro 07-17. Preencheu o formulário em duas vias; assinei embaixo. Às nove e quarenta da manhã levou o papel ao terceiro andar; Shen Yi aprovou dez minutos depois, sem perguntar por quê — escreveu um número no formulário e só.
A banda base bruta fica no primeiro subsolo. Aquela porta só fecha com um empurrão de ombro. Os discos são somente leitura; os rótulos à mão, a letra de Adebayo, torta. Guardam trinta minutos de amostras brutas a partir das 19:11:44 UTC, catalogadas por número de quadro e data, um diretório por camada. Pegamos dois, 07-16 e 07-17 — registro, assinatura, os dois nomes lado a lado.
Retirada a duas pessoas — é a regra. Na subida ele não disse palavra; só no segundo andar disse uma: que não tinha dormido na noite anterior.
Ele redecodificou na própria máquina. Quarenta minutos.
Saiu 3:1. Igual à linha da tabela.
Abri a captura dele, a 0717-1, e li o código de tempo: 00:19:41.3.
O trecho esportivo do quadro 07-17: começa em 00:18:52.0, termina em 00:19:38.6.
O trecho esportivo do quadro 07-16: começa em 00:18:49.7, termina em 00:20:11.4.
00:19:41.3 não está no 07-17. Está no 07-16.
Os trechos esportivos dos dois quadros ocupam a mesma posição na grade do programa, os dois começando nos cinquenta e tantos segundos depois do minuto dezoito. Duas janelas abertas lado a lado parecem iguais.
Xiao Gao ampliou a linha quatrocentas vezes e leu em voz alta: confronto direto, Pingchuan, 1:1, Dingxi. Os traços corriam ligados, disse; o texto não tinha erro.
Adebayo não disse nada.
Arrastou o 0717-1 para a lixeira, esperou dois segundos, arrastou de volta da lixeira e salvou numa pasta. O nome da pasta, uma palavra: Errado.
Lao Song ficou atrás dele, olhando um bom tempo.
Ele diz: "Então você não perdeu."
"Perdi", disse Adebayo.
Lao Song diz: "Você é que leu errado."
Adebayo diz: "Ler errado também é perder."
Lao Song diz: "Ah." Diz: "E o mil e quinhentos?"
Adebayo diz: "Transferido."
Lao Song diz: "E voltar?"
Adebayo diz: "Não volta."
Lao Song diz: "Por quê."
Adebayo diz: "Porque o placar que eu mandei foi aquele."
Lao Song solta um "ah". Tira a régua plástica da axila, a ponto de medir alguma coisa, olha em volta e a enfia de volta.
Adebayo diz: "Vou conferir todos os jogos anteriores."
A conferência levou três dias. De 2 de maio — o quadro em que verificara pela primeira vez que a tabela era precisa — até 18 de julho, cento e trinta e poucos jogos. O método: para cada linha da tabela, achar o quadro correspondente, olhar a legenda, confrontar os números. Ele montou uma folha, uma linha por jogo, três colunas: o que diz a tabela, o que diz o quadro, bate ou não. Na terceira coluna, dois símbolos só: um visto, uma cruz.
Naqueles três dias ninguém o ajudou. Xiao Gao conferiu letras, porque isso conta como serviço da lista; Ye Zhen só no fim entregou uma folha. Nos dois primeiros dias ele levou comida de casa — dois mantou, um pacote de mostarda em conserva, num saco plástico debaixo da mesa. No terceiro parou de levar, foi ao refeitório, deu duas voltas com a bandeja e sentou na mesa encostada na parede.
Uma vez levei água para ele. Ele agradeceu. Pôs a água ao lado do monitor e só bebeu quando a coluna terminou.
Terminados os três dias, a terceira coluna era toda de vistos.
Do dia 124 em diante ele passou a conferir logo depois de cada quadro novo entrar no arquivo. No quadro 07-24, a tabela dizia Nanpu 2:0 Baihe; a legenda, Nanpu 1:1 Baihe.
Primeira cruz da terceira coluna.
Ele não espalhou. Tirou três capturas do trecho e veio me procurar.
A primeira coisa que fiz foi conferir as duas estações. Naquela rodada, S-11 e S-08; as duas decodificaram de forma independente, byte a byte iguais; o pool não arbitra. A segunda foi redecodificar eu mesma a banda base bruta: sem perda de pacotes, sem quadros remendados, sem rastro de recodificação, os códigos de tempo de áudio e vídeo emparelhados. A terceira foi o código de tempo: aquela linha de legenda em 00:19:02.1, dentro do trecho.
A quarta foi Xiao Gao conferindo as letras. É Nanpu, é Baihe, os algarismos um e um — não sete, não dois. Ampliou os caracteres quatrocentas vezes de novo. Sem erro, disse.
Acrescentei um item. Os quatro primeiros eram bordas da legenda, fonte, código de tempo, vetores de movimento do bloco de texto; o quinto eu mesma tinha riscado da última vez e mudado para "pendente". Agora comparei a voz do narrador daquele trecho com o som dos outros trechos do mesmo quadro, pela forma de onda: o mesmo narrador, amostragem igual, sem dublagem posterior.
Digo: então essa é verdadeira.
Adebayo diz para não concluir ainda.
No dia 130 entreguei a explicação. Três linhas:
Um: a Camada 3 tinha 21.969 linhas decodificadas, duzentas e doze por dia, nenhum dia fora.
Dois: todas as entradas são tabelas estruturadas, sem áudio, sem vídeo.
Três: não sabemos por que ela mantém velocidade constante.
Shen Yi leu duas vezes.
Ele diz: a terceira linha é conclusão.
Digo que é fato.
Ele diz: no papel, fato e conclusão parece a mesma coisa.
Parou um instante, disse: é a mesma coisa.
Não digo nada. Ele guardou a folha numa pasta; a pasta, com um número. Anotei o número.
Na escada Zhou me perguntou se eu tinha escrito.
Digo que escrevi.
Ele diz: escrito o quê.
Digo que três linhas.
Ele diz: e aqueles dois casos.
Digo que, por ora, um.
Ele diz para não escrever ainda.
Seguiu subindo segurando o corrimão; a mão parou um instante nele.
Ele seguiu conferindo adiante. Dia 139, o quadro de 8 de agosto. Na tabela: Baihe 3:1 Haifeng. Faixa de legendas, primeira linha: placar atual 0:0. Segunda linha: previsão pré-jogo 3:1.
As duas linhas na mesma tela.
Segunda cruz da terceira coluna.
Desta vez ele ficou sentado um bom tempo antes de me chamar. Diz que naquele jogo não apostou, porque viu a linha a mais na legenda e não sabia o que ela significava.
Pergunto o que significava.
Ele diz que a linha trazia "previsão pré-jogo".
Pergunto: previsão de quê.
Ele diz que daquele jogo.
Pergunto quem previu.
Ele diz que não sabe.
Percorri de novo os mesmos cinco passos: as duas estações em acordo (na rodada, S-11 e S-08), banda base limpa, código de tempo dentro do trecho, Xiao Gao nas letras, a forma de onda da voz. Os cinco passaram.
Os dois casos eram verdadeiros.
Digo que, pelo regulamento, esses dois casos vão para o pool.
Zhou diz que vá.
Pergunto: comunicar o quê.
Ele diz: comunicar que quadro e tabela não bateram.
Pergunto se isso é conclusão nossa.
Ele diz que é observação.
Pergunto se observação também não é uma espécie de conclusão.
Ele me olha uma vez. Diz: pense bem antes de comunicar.
Ele diz que amanhã há uma reunião, com três estações relatando andamento. Diz que eu posso ouvir.
A reunião foi na salinha, as telas das três estações penduradas numa mesma parede, uma quadrícula por estação. A S-08 relatou o upload da banda base: duas estações passaram das seis horas, saíram do pool uma vez; o fluxo já tinha sido trocado. A S-19 relatou a sincronização de tempo: quatro estações ainda sem trocar o relógio, carência até outubro.
Terminado o relatório da terceira estação, alguém embaixo da tela perguntou: se a tabela e o quadro não baterem, o que se faz.
Quem conduzia disse que se comunica uma entrada de desvio, pelo regulamento.
A pessoa perguntou se as entradas de desvio recebem número.
Quem conduzia disse que, por ora, não.
A pessoa perguntou: então, comunicar, é comunicar o quê.
Quem conduzia disse: é uma carta.
Nas três quadrículas da parede ninguém se mexeu. A reunião se dissolveu.
Depois da reunião Zhou me esperou na porta.
Ele diz: você ouviu.
Digo que ouvi.
Ele diz: então não comunica por ora.
Copiei os números dos dois casos para uma folha e a prendi no livro de registros, página quarenta e sete. Só duas linhas, um número de quadro em cada; mais nada escrito.
No quadro 07-24 havia mais uma coisa. De 00:19:02 em diante, a câmera se move de trás do gol para a arquibancada, varrendo o anel de baixo. No anel de baixo, uma faixa, fundo branco, letras pretas, três caracteres: 2:0. Na barra inferior da faixa, uma linha miúda — o nome de uma loja de artigos esportivos, letra pequena; Xiao Gao a reconheceu.
Xiao Gao fotografou os três caracteres e confrontou com a linha da tabela. Igual. Colou aquela também na lista, depois do último item; o número com quatro algarismos, uma casa em branco na frente.
No quadro 08-08, a segunda linha da faixa de legendas era o próprio número da tabela.
Adebayo diz que nesses dois jogos havia gente que sabia adiantado.
Pergunto como sabe.
Ele diz: o número da faixa é o número da tabela. O número da legenda também é o número da tabela.
Digo que então isso prova que a tabela é precisa.
Ele diz que a tabela é precisa; as pessoas não são.
Ye Zhen ouviu até o fim, voltou à mesa e folheou as tabelas dela. Copiou o público dos dois jogos numa folha, e os quarenta e dois jogos dele noutra.
Ela diz: nesses seus quarenta e dois, o jogo de maior público teve doze mil.
Ela diz: esses dois, quarenta e um mil e cinquenta e oito mil.
Pergunto o que isso significa.
Ye Zhen diz que significa que a gente que veio naquele dia não veio pelo jogo.
Ela pôs as duas folhas lado a lado, encaixou a tampa na caneta; só então ergueu os olhos.
Lao Song ficou um pouco na porta. Diz: então isso não é televisão.
Pergunto: é o quê.
Ele diz: é previsão do tempo.
Ninguém pegou. Ele também não disse mais; foi embora com a caneca. Da caneca de esmalte lascada caiu mais um lascado; o buraco era novo.
Dia 145 Shen Yi me chamou ao terceiro andar. Ficou em pé junto à janela, sem sentar.
Ele pergunta o que Adebayo anda fazendo.
Digo que conferindo placares.
Ele diz: conferindo o quê.
Digo que se a tabela e o quadro batem.
Ele pergunta se os desacertos são muitos.
Digo que cento e trinta e poucos jogos, dois casos.
Ele pergunta o que significam dois casos.
Digo que ainda não sei.
Ele diz: quando souber, me conta.
Digo que está bem.
Ele diz: mas não conte antes para os outros.
Uma vez perguntei a Adebayo o que era aquela tabela dele.
Ele diz que calendário e placares.
Pergunto quem a montou.
Ele diz que não sabe.
Pergunto se a tabela tem coluna de data.
Ele diz que tem.
Pergunto até que data.
Ele diz: até 26 de setembro.
Pergunto: e depois.
Ele diz que depois não há.
Em agosto faz calor. A máquina externa do ar-condicionado no fim do corredor goteja numa bandeja de ferro; Tong forrou a bandeja com um pano, diz que o som fica menor. O pano, todo meio-dia molhado; à tarde, seco.
Adebayo agora manda duas folhas de aposta por dia. Do lado do primo, alguém apostou oito mil de uma vez; o jogo é escolhido por eles.
Pergunto: e se escolherem errado.
Ele diz que, escolhido errado, também é número da tabela.
Ele diz: até o mês passado, nenhum errado.
Ele agora usa dois envelopes. Um para os ganhos, um para o que sai amanhã na transferência. Os dois são envelopes do instituto; a mesma posição da escrita riscada a caneta preta nos dois.
Tong contou de novo as três cartas impressas da portaria. Ainda três, ainda sem abrir. Diz que, contando, não se pode abrir; aberta, já não é contar.
Ye Zhen diz que o quadro de 11 de agosto deu uma rua — da cidade, não de outro estado. Reconheceu uma dúzia e pouco de lojas; uma delas trocou o letreiro duas vezes, as duas trocas no índice dela, seis anos entre uma e outra. E uma de óculos de perto; o número da porta ela copiou duas vezes, porque naquele quadro uma árvore cobria metade do número.
Ela diz que essa pode entrar na segunda versão.
Lao Song levou o cartão para casa. Enfia-o num celular velho, o celular na gaveta da mesa dele, ligado uma vez por dia ao meio-dia. Ye Zhen diz que mesmo assim não conta. Lao Song diz que sabe. Diz que é só para deixá-lo tocar um pouco.
Terminado, virou a folha; o verso em branco; naquele verso escreveu uma linha: Cidade · primeiro trecho · continua.
Uma vez Tong viu a porta da sala do terceiro andar aberta. Diz que sobre a mesa uma pilha de impressos, o de cima deitado na horizontal.
Ele diz: o que a gente entrega sai na vertical.
Uma semana antes da prova, Nian disse que no dia a professora não deixa os pais entrar.
Ela diz: então espera lá fora.
Digo que espero.
Ela diz: mas não vai embora.
Digo que não vou.
Apagou do caderno a palavra "osso" com a borracha e reescreveu a lápis, mais fundo que antes.
Adebayo voltou a contar piadas, uma por semana, rindo primeiro ele mesmo ao terminar. Uma vez Lao Song não entendeu; Adebayo explicou; Lao Song disse: ah. Adebayo disse: dá uma risada, pelo menos. Lao Song riu uma vez, curta.
Numa manhã Nian me contou que o pai de uma colega da turma conhece gente pela televisão, gente que consegue consultar coisas que ainda não aconteceram.
Pergunto: consultar o quê.
Ela diz que se passa na prova.
Pergunto o que ela respondeu.
Ela diz que respondeu que não se consulta.
Ela diz que a colega contou que o pai consultou, e que ela passa.
Digo que então está ótimo.
Nian me olhou um tempo. Ela diz: mamãe, você consegue consultar.
Digo que não.
Ela diz: ah. Pendurou a mochila nas costas e, na porta, ainda voltou para dizer uma coisa: eu não preciso que você consulte.
À noite deixei o rádio Lanterna Vermelha ligado, ondas curtas. No caderno de faixas, a linha escrita pelo meu pai continuava lá: estação desconhecida, voz feminina, contando números, para no sete. Li uma vez e fechei o caderno.
Dia 152. Camada 3: 26.633 linhas.
A folha de três colunas de Adebayo estava aberta na mesa. Circundou as linhas do 07-24 e do 08-08 e, no alto, escreveu: Os que leram.
Escrito, encaixou a tampa na caneta e empurrou a folha para o meio da mesa.
Ninguém a tomou.
Shen Yi ficou dez segundos na porta.
Ele diz: o que é que vocês estão fazendo.
Ninguém respondeu. Ele foi.
Levei o copo d'água da mesa até a pia, despejei, devolvi o copo ao lugar; o anel de marca d'água no fundo continuava lá.
Naquela madrugada, 03:11:44, degrau 156. Tong terminou de escrever e empurrou o livro de volta.