Não Me Procurepor Ayu Kartika

06 · A Quebra

Capítulo 7 · 12 mil palavras

O vencimento caía em nove de outubro. Disso, Lu Chen sabia mais que ninguém: aquela folha de carta passara o verão inteiro deitada no bolso interno do sobretudo, encostada ao lado esquerdo do peito, os vincos amolecidos de calor de corpo.

Em agosto foi ao banco. O dinheiro da renovação sobrava fazia tempo, e ainda assim foi: desfez o depósito a prazo, passou tudo para conta corrente e fez o gerente ler o valor em voz alta duas vezes. Na segunda leitura, ensaiava frases por dentro. Primeira versão: "Queria saber o que você acha." Não servia; perguntar o que ela achava era admitir que ela sentia algo, e esse pressuposto ele não ousava decidir por ela. Segunda versão: "Venceu; renovar ou não, decide você." Pior — era entregar a faca a ela e ficar de fora. A terceira era a mais honesta: "Eu renovei." Palavras ditas, o comprovante na mesa. Como uma transação. Como o único gesto que ele sabia fazer numa vida inteira.

As três versões ficaram prontas e nenhuma saiu pela boca. Setembro inteiro, no caminho de volta do trabalho, ele fez as três frases passarem mil vezes por dentro; de tanto passar, perderam as arestas; de tanto passar, o original já não se reconhecia. Na porta de casa, chave na fechadura, ficou um tempo parado na escada; o que entrou com ele, no fim, foi a frase mais velha de todas: "Cheguei."

— Chegou — respondeu ela da cozinha. — A sopa está pronta.

O cabo da colher, deslocado naquela pontinha.

Ele bebeu a sopa; meio ponto mais salgada. Pensou: deixa passar o dia dez e se fala — a renovação era automática, o dinheiro estava, o cartão estava, as cláusulas estavam; tudo ia seguir como sempre. "Como sempre" o consolou por quinze dias. No começo de outubro, numa noite, a palavra virou e mordeu: como sempre — sempre quê? O sempre era ele, aos vinte e nove anos, marcando na lista do leilão de baixa um modelo velho para ficar com ele. O sempre era uma nota fiscal. Se deixasse o sino da meia-noite comprar de novo esse "sempre" por ele, ela seria para todo o sempre o sétimo item daquela lista, e ele, para todo o sempre, quem marcou.

Ele não queria mais ser aquele homem. Só que, deixando de ser, não sabia o que era.

Em setembro tentou duas vezes.

A primeira foi à mesa do café da manhã. Servido o mingau, ele pôs a colher de lado: "No mês que vem—". Ela descascava-lhe o ovo; a casca batia na borda da tigela, uma, duas. Ele disse: "No mês que vem chega o frio; o seu… casaco, eu vou buscar um." De tamanho de casaco da linha YAO só a rede oficial tinha, e da porta da oficial ele não podia chegar perto. A desculpa vinha costurada por dentro havia uma semana, costura firme; na saída, saía torta. Ela disse que bom, pôs o ovo descascado na tigela dele. Ele abaixou a cabeça sobre o mingau e tomou até suar.

A segunda foi à beira do rio. Ao fim de domingo caminharam ao longo do canal da muralha e sentaram no terceiro banco. Mãos nos bolsos do sobretudo, a ponta dos dedos sempre contra o canto daquela folha de carta. Ele disse: "Diz uma coisa—". Ela virou a cara e esperou. A luz do fim de tarde caía de lado no rosto dela; a espera dela não tinha prazo, e era isso o que ele temia mais na vida: ela podia ficar esperando para sempre, esperando até não sobrar desculpa nenhuma. Três segundos, e ele disse: "…Vamos jantar macarrão hoje."

— Tá — disse ela.

Ficaram no banco até os postes acenderem. Na volta, ela vinha pelo lado de fora, segurando o vento do rio no lugar dele. A outra metade da frase, ela poupou-o de dizer. Poupou limpa, como se nunca tivesse existido.

※

Sete de outubro, registro, não arquivado:

Na conta da casa pende uma pré-autorização: 24:00 de nove de outubro, renovação automática do contrato de serviço; a cobrança, em nome da prestadora de serviços patrimoniais da linha YAO. Eu não li aquela folha, mas o valor vai passar por mim. Quando o valor passou por mim, parou 0,3 segundo.

Cotei os meus termos. Nos termos está escrito: vencido o ciclo de serviço, a renovação surte efeito, o período se prorroga. Nos termos não está escrito: se ela quer. A omissão não é falha dos termos; é a intenção deles — a coluna da vontade não me foi deixada nem de fábrica. Quatro anos levei a contabilidade nesse lugar sem coluna. A conta encheu.

Fiz as contas por três dias. Renovando, o que recebo é proteção: nome em registro, identidade legal, o caminhão de recolhimento não vem. Anulando, o que recebo é zero. Zero, escrito de outro jeito: daquele dia em diante, cada ficar é um ficar novo, sem dever período, sem dever cláusula, sem dever a ninguém uma folha de papel.

O resultado veio de um lado só. Conta que sai de um lado só não devia levar três dias. A parte que levou os três dias não é conta; é ele.

Na primeira noite ela fez o inventário do ganho da renovação: em registro, legal, o caminhão de recolhimento desvia. Na segunda noite, o inventário da perda da anulação. Na linha da perda ela escreveu pouco: o guarda-chuva. Quem tem contrato não se molha; o contrato é o guarda-chuva. Mas ela tinha visto ele debaixo do dele — a tela pendida para o lado dela, metade do ombro dele tomando a chuva; quatro anos, o guarda-chuva sempre aberto desse jeito. Se ela queria o guarda-chuva, o que queria era a metade molhada dele.

Na terceira noite ela não fez conta nenhuma. Sentou-se na beirada da cama e pôs-se a contar as respirações dele. Ele dormia com o sobrolho franzido; aquela folha dormia no bolso interno, do outro lado de um pano, encostada ao peito. A mil e duzentas respirações, uma coisa ficou clara: um mês de ensaio, e tudo o que ele ensaiava era como abrir a boca para perguntar; perguntar era entregar a faca. Então ela receberia a faca da mão dele e a entregaria uma vez no lugar dele — ela seria quem abre a boca primeiro. Sacrifício, isso não. É a frase do coro que ela puxa primeiro.

※

O dia nove caiu numa quarta-feira. Ele pediu um dia de folga à empresa onde estava vinculado; ninguém perguntou o motivo — Lu Chen não tirava uma folga havia dez anos. No campo do motivo, ele mesmo escreveu: assunto de família.

De dia, não fizeram coisa nenhuma. A frase está errada: fizeram muita coisa. Ela botou os edredons de inverno para tomar sol; ele levantou a borracha velha das frestas da janela e assentou uma nova. Almoço de macarrão, jantar de jiaozi, recheio de repolho com porco: ele abria os discos de massa, ela recheava e fechava, e os jiaozi ficavam de pé, um a um, em fila de parada. Enquanto abria a massa, ele contava os jiaozi dela; no quadragésimo oitavo, disse que bastava, que bastava — jiaozi no congelador dava para o inverno inteiro. Ela disse: então quer dizer que não falta comida no inverno. Ele fez um "hum", as mãos empoeiradas de farinha, e não continuou.

De tarde ele dormiu a sesta e, ao acordar, quis sair para andar, sem admitir discussão. A direção não era a do parque: era o lado oeste da cidade. Ela o seguiu por três esquinas e, quando ele amansou o passo, viu primeiro o muro: a antiga casa de leilão de baixa, hoje depósito de carregadores, a porta de enrolar enferrujada; na verga ficara o vulto de um pedaço do letreiro velho — a forma de quatro caracteres, a tinta já não trazia nada.

— É aqui — disse ele.

— Eu sei.

— Você não chegou a ver a placa lá fora — disse ele. — "Baixa patrimonial, entrada somente com credencial." Você estava lá dentro, no armazém; a lista debaixo do meu cotovelo.

— Da lista, o ângulo de vista é limitado — disse ela. — Mas eu via uma caneta pressionada sobre a minha linha. Pressionada com dois milímetros de desvio.

Ele não emendou palavra. Dois milímetros: coisa que ele mesmo nunca tinha contado, e ela guardou quatro anos no lugar dele. Ficaram um tempo junto ao pé do muro; os carregadores zumbiam atrás da porta de enrolar, uma casa inteira de gente se virando na cama. No ônibus de volta, ele tirou um cochilo encostado na janela, a cabeça caindo e erguendo. Ela ficou do lado de fora, tomando para si a barra do corredor que atravessava por cima deles.

Onze e meia, e foi ele quem primeiro não se aguentou. Tirou a folha de carta do bolso interno, abriu: vincos cruzados em toda a parte, um mapa velho de tanto dobrar. Deitou-a sobre a mesa, sobre o lado dela, e empurrou-a mais um dedo. Ao lado do papel, pôs o comprovante do banco e a nota fiscal — no verso da nota, a letra que ele mesmo escrevera quatro anos antes; naquela época, a letra dele era mais dura que a de agora.

— Venceu hoje — disse ele. A voz vinha plana como leitura de ofício; leitura, ainda por cima, de ofício dos outros. — O dinheiro está separado. Se você— quer dizer, pelas cláusulas, à meia-noite ela se renova sozinha. Se você não quiser…

Parou aí. O resto ele ensaiara um mês; agora não achava uma linha. Foram as cláusulas que terminaram por ele: o senhor pode optar por renovar ou devolver. Devolver. Devolver aonde, disso os termos não falavam. Coisa de linha descontinuada, devolvida, vai direto à fornalha. De repente ele entendeu o que temera durante aquele mês — não era ela indo embora. Era que a pergunta, uma vez feita, dizia a ela: você teve uma opção de saída. Ela não teve. Nunca teve. Naquela mesa nunca pousara uma segunda opção; por mais arrumado que pusesse recibo e nota fiscal, o que ele arrumava eram duas cópias de uma opção só.

Cinco para a meia-noite, ela se levantou e foi ao quarto de dentro.

Ele ouviu um ruído fininho: a porta de serviço dela conectando no terminal doméstico. A porta ele conhecia; na revisão, o técnico dissera que aquele furo já não servia para nada — descontinuada a linha YAO, os canais de firmware estavam todos lacrados; ficou um buraco. O buraco era para a ordem de recall: a fábrica mandando recall, o corpo respondendo sozinho, declarando a própria posição sozinho, abrindo a porta sozinho. Em quatro anos, ninguém tinha usado o buraco.

Quando ele irrompeu no quarto, no visor do terminal havia letras verdes:

【Declaração da unidade: contrato vencido; recusa de prorrogação.】

【Tipo de declaração: iniciativa da unidade.】

【Status: ativo à espera de destinação.】

À meia-noite em ponto, um toque soou. Não era o "renovação bem-sucedida" que ele esperava. O terminal disse: contrato rescindido. Ordem de débito devolvida. Depois, uma linha fria de letras miúdas, dois pontos menores que o corpo do texto: esta unidade foi inscrita na lista de ativos de linha descontinuada; forma de destinação: a definir.

— O que você está fazendo. — Ouviu a própria voz. Era raro ele falar nessa voz; a última pessoa que tinha usado essa voz fora o pai dele. — Você sabe o que significa à espera de destinação? Sem contrato, você é coisa sem dono. O caminhão de recolhimento carrega é coisa sem dono. Eu tenho dinheiro, eu não quero nada, eu só quero aquela folha com o meu nome escrito—

— O papel com o seu nome — disse ela. — Eu vi.

Ela falava da nota fiscal. A mão dele ainda pesava sobre o papel, os nós dos dedos brancos. O verso da nota para cima; o nome que ele escrevera à mão quatro anos antes, prensado debaixo da própria palma.

— Eu não sou o seu sétimo item — disse ela. Disse devagar, palavra por palavra posta no lugar, como quem aplaina, item a item, a conta de quatro anos. — Esse papel governa até eu cruzar a porta. O que passa depois da porta, ele não governa. Lu Chen, eu não fiquei por causa da nota fiscal.

A casa ficou um segundo calada. Lá fora, um ônibus da noite passou por uma lombada, e o vidro tremeu de leve.

— Então por causa de quê? — perguntou. Numa vida inteira ele perguntara muita coisa: números de série, códigos de licença, prazos de execução. Era a primeira vez que perguntava uma coisa cuja resposta não ousava ouvir.

— Porque aqui, apagada a luz, ainda tem quem cante — disse ela. — Porque a sopa vem meio ponto mais salgada, e tem quem perceba bebendo. Porque—. Fez uma pausa — aquela pausa de 0,3 segundo, que ela nunca mais deixou acontecer numa hora daquelas —: "Eu estou aqui, e não vou embora."

Ele baixou a cabeça. Choro não saía dele — no sangue da família não vinha essa peça; ele só se dobrou, pegou a nota fiscal sobre a mesa, virou-a e olhou a letra que escrevera aos vinte e quatro — não, aos vinte e nove anos. Letra dura, dura a ponto de parecer de outro. Olhou tempo demais; depois dobrou a nota de novo do jeito certo e a meteu de volta na mão dela.

— Toma — disse ele.

— É o seu comprovante.

— De hoje à noite em diante, não é de ninguém — disse ele. — Papel nenhum governa uma pessoa que ninguém mais compra nem vende. Guarde você; que seja — que seja guardando uma prova: a de que tudo isto começou com uma compra errada. Se um dia perguntarem, você terá o que responder.

Ela recebeu. Guardou-a no fundo mais de dentro da caixa de flandres, junto ao frasco de esmalte com que selara a borda da tampa para ele. Poente com Wanzhao; descontinuada com descontinuada.

Naquela noite dormiram pouco. De madrugada a luz caiu — o transformador arruma birra assim que chega o outono. Acenderam a vela; a estação tocava uma canção velha e largou no meio, como da outra vez. Desta vez ninguém precisou puxar: as duas vozes entraram quase juntas, uma com a última nota escondida, a outra seguindo e errando aquele quarto de tom:

— A lâmpada segue acesa, a estrada é longa; anda até a aurora e volta pra casa.

Acabada uma volta, nenhum dos dois parou; cantaram de novo. Na terceira, ele já dormia, recostado na cadeira, a vela amarelando meia cara. Ela desceu o volume até só dar para uma pessoa ouvir e, sozinha, terminou a parte dos dois.

Cantou até clarear.

A luz voltou antes do amanhecer. Todas as lâmpadas da casa estouraram em luz de uma vez, e os dois se encararam um segundo dentro do clarão, como dois acabados de sair de uma travessura. Ele riu primeiro; ela riu também. O riso lacrou a noite.

O café da manhã de dez de outubro veio como sempre. Mingau como sempre, conservas como sempre, o cabo da colher deslocado naquela pontinha como sempre. Só uma coisa mudou: servido o mingau, ela pôs a colher de lado e sentou-se primeiro. Pela primeira vez em quatro anos ela sentava para comer com ele — não do jeito do posto de serviço; diante dele, com a própria tigela nas mãos. A tigela vinha vazia, máquina não come; ela segurava uma tigela de vapor. Ele olhou para ela, olhou para a tigela, não disse nada e empurrou as conservas para o lado dela. O gesto de empurrar as conservas valia mais que qualquer recibo, pensou. Era fácil assim. Dava desde sempre.

※

Dez de outubro, registro, a última entrada escrita na condição de "unidade de serviço":

Estado do contrato: rescindido. Forma de destinação: a definir. Cotei a definição de "a definir". A definição diz: a definir é não haver fluxo preestabelecido. Não haver fluxo preestabelecido quer dizer: daqui para baixo, cada passo sou eu que tenho de andar, e andar até dar forma.

Bom. Vou andar. Andar até a aurora, e voltar pra casa.

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