Vinte e nove de dezembro, sexta, primeiro dia de trabalho do Risco.
Grampeou num só pacote o certificado de restituição, o extrato salarial e a planilha de pagamento, e subiu pela entrada de complementação da Pontuação de Piedade Filial. O sistema respondeu no mesmo segundo: recebido; revisão prevista para concluir em 3 dias úteis. Três dias úteis, com o Ano Novo no meio. Fez a conta: revisão no dia 2, liberação no 3, chegada no 4 — dava tempo. Ou revisão no 3, liberação no 4, chegada no 5 — também dava. Escreveu as duas contas, uma vez cada, e riscou a segunda.
À tarde do dia 30, foi até o Mingcheng Yayuan. Dentro do apartamento, mais frio que fora; no parapeito, a poeira tinha ganhado mais uma camada. A corretora trouxe os compradores: um casal que ficou dez minutos sem falar, iluminando cada canto com uma lanterna. Na saída, o comprador parou na porta e fez uma pergunta só: por que vende.
— Precisa de dinheiro — disse Liang Cheng.
O comprador assentiu e não perguntou mais. A corretora desceu atrás e, no corredor, mandou pro celular dele o modelo de contrato: à vista, 650,000; assinatura eletrônica na semana que vem; o dinheiro da baixa da alienação, em custódia do comprador; o restante, no dia da transferência. — A reserva do senhor de quitação antecipada — disse a corretora —, o banco marcou pra dia 15; insisti, não andou. Comprador à vista não se acha todo dia: o senhor não muda de ideia de novo.
— Não mudo.
À noite do dia 30, embaixo alguém soltou petardos adiantados. Em cima, ele conferia as páginas do extrato, uma a uma; na terceira conferência, os petardos calaram.
No Ano Novo não saiu. No celular chegaram uns pushes de virada; deslizou todos pra fora. Às 23:50, o lado de trabalho abriu um item: não era push, era a atualização automática da escala: 8 de janeiro, B2, mesa de reconstrução R-04, 09:00—12:00, operador: Liang Cheng. Leu duas vezes, tirou uma captura e foi dormir.
Dois de janeiro, terça, 10:41 da manhã: a liberação chegou.
> Liberação da linha de crédito: 70,000.00 yuans (Pontuação de Piedade Filial · conta de custódia). > Entra no fluxo de compensação conforme o uso pactuado.
A compensação levou quatro segundos. Ficou olhando a tela; nesses quatro segundos a página não se mexeu; aí, de uma vez, se refrescou:
> Compensação do pendente de liquidação: 41,507.70 yuans. > Compensação concluída. Pendente de liquidação atual da conta AC-0417: 0.00 yuan. > Condição prévia da restauração cumprida: a conta não registra pendente de liquidação. > O orçamento do serviço de restauração, 8,600.00 yuans, foi debitado da conta de custódia (inclui a taxa de consulta ao arquivo offline já liquidada, 2,400.00 yuans). Saldo da conta de custódia: 19,892.30 yuans.
Às 10:47, veio a segunda.
> A conta AC-0417 saiu da fila de eliminação terminal (número de fila TL-0417 cancelado). > Fluxo de restauração: iniciado. Concluir a colocação em máquina do cartucho dentro do prazo de reconstrução.
TL-0417, cancelado. Sete anos de ofício; sair da fila, duas palavras que ele tinha dito aos outros centenas de vezes — no roteiro, soava «sua conta foi liberada do estado de disposição». Chegado à própria casa, o sistema usava «cancelado». O número de fila ficava livre; o lugar, pro seguinte. Não foi adiante com o pensamento.
Mandou pra He Yu: saiu da fila. Até o dia 8.
He Yu respondeu: a mesa fica guardada. Traga o disco, traga o documento. Não chegue antes das oito — às oito o B2 troca o ar; antes, não entra.
Respondeu um «tá bom», e mandou pra Liang Chuan: saiu da fila. Dia 8 vai pra máquina; reconstrução 48 horas, calibração de três a nove dias.
Liang Chuan demorou vinte minutos; respondeu com um áudio de seis segundos. Disse uma palavra só: entendi. Os outros três segundos eram respiração.
Aquela semana, a vida seguiu igual. Trabalho; as ordens das seis contas seguiam na leva. A do Zheng** atendeu o telefone.
A da Wang**, de manhã, como sempre, não podia ser chamada. O chefe de grupo parou uma vez na frente do posto dele, olhou a tela, olhou ele, disse que estava bem recuperado. Ele soltou um «hm».
Na primeira semana do ano, a vaga dos cinco minutos ficou vazia; de segunda a domingo, ninguém ligou. Pra conta que sai da fila, a regra do adiamento caducou junto com a fila; a vaga agora não servia pra ninguém. Na quarta à noite lembrou, puxou a regra dentro da ordem e leu de novo até o fundo, até a linha miúda: não se aplica a contas fora da fila. Fechou a página.
Na quarta, Liang Chuan mandou uma foto: a prova da Niuniu, cem em inglês, uma estrela no canto. A legenda: ela pergunta se a vó viu.
Respondeu: falta pouco.
Oito de janeiro, segunda.
O despertador marcado pra seis. Acordou às 5:20; ficou deitado até 5:40, levantou. O arroz, de molho desde a noite anterior; fervendo, fogo baixo, vinte minutos, desligar, deixar abafado. Comeu meia tigela, fechou o gás.
O uniforme, tirado da noite anterior de baixo do armário: a peça escura, o vinco ainda no punho. Alisou o colarinho da camisa, dobrou a gravata ao meio pra achar o centro — dessa gravata, não chegava a três vezes por ano. Amarrada, olhou pro espelho. O do espelho, gravata reta, o crachá preso no peito esquerdo; o da foto, vinte e sete anos, gravata também reta. Olhou dois segundos pra foto e vestiu o casaco.
Abriu a gaveta de baixo da mesinha de cabeceira. A escritura, o registro de residência, os recibos de condomínio. O K-11 no topo. Meteu no saco antiestático, dobrou a boca duas vezes, pôs na camada mais interna da pasta de documento, fechou o zíper. E deu uma palmada no bolso interno, uma a uma: a primeira via do termo de confirmação, a cópia da folha de reserva, o documento de identidade.
Quando saiu, faltava um quarto pras sete. Do metrô, mal o segundo trem depois do primeiro; vagão vazio. Chegou ao prédio B às 7:02.
A plaquinha da troca de ar do B2 ainda acesa: acesso restrito antes das 08:00. Ficou esperando na porta. Esperando, sacou o celular e conferiu: contagem regressiva da reconstrução, restam 0 dias úteis 9 horas 58 minutos. O disco, dentro da pasta de documento; através da lona, encostou o dorso da mão: um frio de plástico e metal passava um pouco, através do saco.
Cinco anos atrás, catorze de março, 10:31 o selamento; ele na rodovia, faltavam dezenove quilômetros. Hoje, mesa às nove; ele chegou às 7:02.
A quem chega cedo só sobra uma coisa: esperar. Esperou uma hora inteira no saguão. A árvore de Natal já não estava; no chão, um círculo pálido, mais largo que a base da árvore. A limpadora veio com o esfregão; ele deu um passo pro lado; ela disse um obrigada e passou. Oito em ponto, a plaquinha do B2 apagou.
8:10, Wu Yan veio abrir a porta. A bola rosa ainda pendurada na divisória do posto dele, murcha pela metade.
— A mesa de reconstrução não é comigo — ia dizendo Wu Yan enquanto verificava a digital —, mas o acesso é. O senhor He desceu às sete e meia; tá lá dentro. — Deu uma olhada na gravata dele. — Cliente hoje?
— Família.
Os dedos de Wu Yan pararam meio segundo sobre o leitor. — Pode entrar. Na saída, não olha aquela fila de luzes; quem olha, o corpo fica estranho.
A mesa de reconstrução R-04 no fundo da sala de servidores, a quatro fileiras de racks da cabine. Mesa de superfície antiestática: uma baía de leitura, uma tela, uma cadeira. He Yu atrás da mesa, o suéter cinza, sem crachá. Sobre a mesa, tudo pronto: um exemplar do Acordo de serviço de restauração, uma caneta, um tablet de assinatura.
— O disco — disse He Yu.
Liang Cheng abriu a pasta de documento; o K-11 saiu com as duas marcas de dobra do saco antiestático. Pôs o cartucho na baía de leitura. A porta da baía era transparente; fechou com um clique, o mesmo som da porta do armazém.
A tela acendeu:
> Cartucho K-11 identificado. > Instantâneo: 2019-03-14 09:52:11|1.42 GB|Nível: Básico. > Verificação do lacre: intacto. Consultas: 0 → 1. > Aguardando instrução do executor.
— Na ordem — disse He Yu. — Primeiro a leitura da quitação; depois, os trinta segundos dela; depois o apagamento; depois a escrita. Lê o que a tela mandar e aperta confirmar no fim. Se algum passo parar no meio, espera, e não mexe em mais nada.
Liang Cheng assentiu. Sentou na cadeira e endireitou a gravata outra vez.
A tela saltou pra primeira página. «Leitura de quitação (dever do executor)»; na caixa de texto, as frases prontas, num corpo maior que o do cartão de roteiro:
> Lê-se: a conta AC-0417, antiga fila TL-0417, pendente de liquidação compensado por inteiro, atual em zero yuan inteiro. A conta do senhor está quitada. A partir deste momento, a conta passa ao fluxo de restauração. Leitura encerrada.
Embaixo, uma linha miúda: leia em voz alta o texto acima; a gravação serve somente para verificação de arquivo.
Liang Cheng olhou pra esse texto. Sete anos de ofício, uma dúzia de versões do cartão de roteiro decoradas, centenas de leituras dadas; a vivos, a gravadores. Essa era a mais curta: quatro linhas. Pigarreou e leu do começo.
— Lê-se. A conta AC-0417, antiga fila TL-0417, pendente de liquidação compensado por inteiro, atual em zero yuan inteiro. A conta do senhor está quitada. A partir deste momento, a conta passa ao fluxo de restauração. Leitura encerrada.
Quando chegou a «A conta do senhor está quitada», a voz saiu firme. Demasiadas vezes ele tinha lido essas palavras: nas contas dos outros, terminada a frase, fechava a ordem, vinha a seguinte. Dessa vez, terminada a leitura, a tela ficou preta um segundo e saltou pra página seguinte.
> Leitura arquivada. > Serviço ativado detectado: Últimas Palavras Plus. > Espaço de fala própria: 30 segundos. Abre automaticamente antes do início da execução do apagamento; não prorrogável, não regravável, sem transcrição. > A contagem começa com a primeira voz.
A tela ficou parada nessa página. Os ventiladores dos racks zumbiam, camada sobre camada. Liang Cheng tirou do bolso da calça o celular pessoal, pôs pra gravar, deixou ao lado da baía de leitura. O que o sistema não guardava, ele guardava. Apertou gravar; o ponto vermelho começou a pular.
No alto-falante, primeiro dois segundos de vazio. Como se do outro lado da linha alguém estivesse juntando ar. Aí ela começou.
— Xiao Cheng, a mamãe vai te falar uma coisa; pega papel e anota, que é só desta vez; se não gravar, a mamãe não pode falar segunda vez. O hongshaorou, aquilo que você perguntou da outra vez: a mamãe não te contou tudo naquele dia; a mamãe guardou uma parte, com medo de você aprender e parar de vir. A carne tem de ser costela, panceta de três camadas; perna, não; perna fica fibrosa. Manda o açougueiro tostar a pele no fogo; voltando pra casa, raspa a pele você mesmo com a faca, até amarelar; corta em pedaços grandes, uma volta maior que uma pedra de mahjong; pra panela vai já com água fria, duas fatias de gengibre; levantou a fervura, tira a espuma; espuma limpa até o fim, esse passo não pode pular; pulou, o caldo sai turvo, e caldo turvo não cria carne boa—
A contagem corria no canto da tela. 00:11. Ela não se apressava nem parava: cada palavra pisava no segundo.
— Espuma limpa, tira a carne, joga fora a água da panela, enxuga; fogo baixo, açúcar branco, duas colheres, a de porcelana de casa, não a colher de mesa; a de mesa é grande, o açúcar vai de mais; o açúcar derrete até fazer bolhinhas, vermelho-juazeiro; mete a carne e vira, cada pedaço pintando; molho de soja escuro, meia colher de acréscimo bastando; anis-estrelado, um só; de mais, rouba o gosto; aí despeja água fervendo, fervendo é obrigatório; água fria, a carne aperta; a água tem de cobrir a carne; fogo alto até ferver, fogo baixo, tampa, vinte minutos abafado—
00:22. Liang Cheng na cadeira, as duas mãos presas na borda. Aquele compasso ele já tinha visto. Atrás do vidro, as últimas frases daqueles cinco minutos, palavra por palavra, como quem falava colado a alguma coisa. Agora ele sabia. Colada nos segundos. Ela, no momento de abrir a boca, já tinha os segundos no punho, apertados com força; cada palavra, antes de sair, passava primeiro pela balança.
— Nesses vinte minutos, você não sai de perto; defeito a mamãe só tem um, esse: olhar o fogo. O fogo olha a pessoa, a pessoa olha o fogo; o gosto entra na carne abafando, não fervendo. Aí abre a tampa, fogo alto, reduz.
00:29.
— Na redução, pega a colher e joga o caldo por cima da carne, uma vez e outra, até o caldo prender na colher—
00:30.
A voz acabou.
O alto-falante voltou ao vazio, dois segundos, silêncio de todo. A tela saltou de página:
> Espaço de fala própria: encerrado (30/30 segundos). > Conteúdo não conservado.
Liang Cheng olhava pro próprio celular. O ponto vermelho ainda pulava. Gravou. Trinta segundos, do «Xiao Cheng» ao «até o caldo prender na colher», cortados no meio da frase. Como se reduz, até como se joga: não disse. Os trinta segundos acabaram; da receita, não havia continuação.
Parou a gravação. O arquivo se salvou com nome automático: 20240108 0907. Duração 00:32 — dois segundos de vazio no começo, dois de silêncio no fim.
He Yu, de pé ao lado da mesa, sem olhar pra ele, olhando a tela.
— Ela não sabe pra quem tá falando dessa vez — disse Liang Cheng.
— A cláusula não diz pra quem falar — disse He Yu. — Também não diz pra quem não. Os trinta segundos são dela: se ela quer gastar com a receita, gasta com a receita.
A tela seguia saltando.
> Espaço de fala própria encerrado. Início da execução: apagamento dos dados acrescidos (tendo o instantâneo K-11 como linha de base).
A barra de progresso se levantou. No canto inferior esquerdo, as letras rolavam, sem pressa:
> Apagando: diários de introspecção (2,913 entradas). > Apagando: registros de suavização cognitiva (41 execuções). > Apagando: marcadores de degradação e índices associados. > Apagando: registros de sessão (últimos cinco anos, inclui o acesso do executor de 2023-11-13). > Apagando: índice de eventos — «reconhecimento» (2023-11-21). > Apagando: registro de sessão — 2023-11-23 (00:47). > Apagando: item eliminado na degradação — filho mais novo · Liang Chuan (PENDING-0417-01). > Apagando: registro de sessão — 2023-12-26 (06:31).
Linha por linha; as palavras rolavam mais rápido que a própria barra. Liang Cheng, sentado, viu tudo do começo ao fim. Viu passar a linha de 21 de novembro; o «reconhecimento» não ficou na tela nem um segundo. Viu a linha de 26 de dezembro, 06:31, aquela ligação do acerto de contas: rolou inteira, sem deixar nem a pontuação. O zumbido dos ventiladores mudou de tom nesse momento: no fundo da sala, um grupo de racks baixou a rotação; a posição dela ficava livre; o grupo seguinte seguia rodando.
A barra chegou ao fim.
> Apagamento concluído. Dados acrescidos: 0. > Início da escrita: K-11 (1.42 GB).
A luz da baía de leitura passou de vermelha a verde. A escrita, muito mais lenta que o apagamento; a barra trepava quadradinho por quadradinho. Um G e quarenta e dois; a dela de cinco anos atrás, sendo escrita do começo pra trás. No meio da escrita, He Yu abriu a boca.
— A escrita leva cinco horas; você não precisa montar guarda. A reconstrução roda 48 horas, a calibração de três a nove dias: o sistema programa. Terminado, tem uma coisa pra você guardar — a suavização. A personalidade reconstruída vai perceber que o tempo não bate: do lado dela é catorze de março; fora, é Ano Novo. Essa suavização não precisa da sua assinatura; o sistema programa, automático.
— Que dia.
— Conforme a calibração — disse He Yu. — Programou, avisam.
A barra chegou a cem por cento às 14:40. Nessas cinco horas ele saiu uma vez, só uma: comeu os baozi no fim do corredor, frios, e guardou o saco plástico de volta no bolso. De volta à mesa, a barra tinha andado 7 %. Ao meio-dia veio um recado de Liang Chuan: cuida do teu; à noite passo te buscar.
Respondeu: não precisa buscar. Coisa de fluxo não tem «buscar».
Do outro lado veio uma palavra: espera.
A tela refrescou a última página:
> Escrita concluída. Em reconstrução (previsão: 48 horas, por volta de 2024-01-10 14:40). > Calibração: inicia automaticamente após a reconstrução (3—9 dias). > Suavização cognitiva: programada (execução dentro de 24 horas após a calibração). > Valor do Acordo de serviço de restauração, 8,600.00 yuans: liquidado (saldo da conta de custódia: 19,892.30 yuans). > O executor deve assinar esta página.
No tablet de assinatura, a última página, o rodapé do Acordo de serviço de restauração. Liang Cheng pegou a caneta e assinou. Terminado, tampou a caneta; precisou de duas tentativas pra fechar direito.
— E o disco — perguntou.
— O disco vai com a baía; durante a reconstrução, travado — disse He Yu. — Terminado o fluxo, avisam pra buscar. Com o armazém de arquivo 3 eu já falei; o nicho da volta fica guardado com o K-11 de sempre — mas isso é depois da reconstrução completa e da verificação sem diferença. Agora não é arquivo: é ela.
Liang Cheng se levantou. As pernas meio dormentes; mais de cinco horas de cadeira. Guardou o celular no bolso; o arquivo de gravação apertava a coxa, através do tecido.
— O almoço tá na mesa — a voz de Wu Yan veio de lá dos racks. — O senhor He trouxe; baozi, frios.
Ele foi saindo. Na porta da sala de servidores, passou o acesso; a porta abriu uma fresta, frio vazando pela fresta.
O celular vibrou no bolso.
Tirou. Número desconhecido, 139 no começo, final 6621. Na casa da anotação, deitado, o rótulo que ele mesmo guardara: o filho do Lao Guan.
Ficou na porta e atendeu.
A voz do outro lado vinha brava, como de rua; o vento enchia o microfone.
— Foram vocês que pagaram pro meu pai? — perguntou o homem. — O sms desta manhã: pontos, doze pontos, quem foi que pagou? Essa coisa do meu pai, cinco anos, nem um centavo ninguém botou—
— O senhor primeiro: quem é—
— Sou o Xiao Jun — disse do outro lado. — Filho do Lao Guan. De manhã liguei três vezes pro atendimento de vocês; me deixaram esperando, até agora. Vocês pagaram pro meu pai?
Liang Cheng apertava o celular. Os ventiladores da sala zumbiam às suas costas, pela fresta da porta, uma camada sobre a outra.
— E ele me liga hoje à noite? — perguntou Xiao Jun do outro lado. — Depois do sms veio outro: que a conta ativou o serviço de ligação. Ativou, já pode ligar? Ele me liga hoje à noite?
O frio da fresta escorria pra fora. Liang Cheng encostou o celular na orelha. Na tela da ligação, o contador começou a andar.
00:03.