Quando o navegador acabou de dizer a última frase, eram 10:46. O carro entrou numa rua de polígono; dos dois lados, armazéns cinza, numerados de K1 a K9; nos tetos, a neve derretida pela metade escorria nas calhas e pingava numa canaleta, num ruído miúdo e denso.
— Armazém de arquivo 3 — He Yu parou diante do portão de ferro forjado. — É aqui.
Na garita da entrada, um velho de casacão acolchoado, por cima um colete fluorescente. He Yu baixou o vidro e estendeu a folha de reserva. O velho leu um bom tempo, prendendo a folha com uma presilha, estirou o pescoço pra ver a placa, e ergueu a cancela.
— Registro: à esquerda, mal entrar — disse o velho. — Quem vocês procuram é de sobrenome Guo.
— Não é ninguém que a gente busca — disse He Yu. — É uma coisa.
— Pois é ela que busca também — o velho levou a cancela ao topo. — Pra tudo, é ela.
O posto de registro era um barracão de chapas; na porta, uma folha A4 impressa: registro de visita → conferência do documento → assinatura → retirada do cartucho → regresso; cinco etapas, cinco setas embaixo, desenhadas tortas. Dentro, uma mesa, um computador velho, uma fragmentadora. A cuba da fragmentadora, cheia; as pontas de papel espreitavam um dedo acima da borda. Atrás da mesa, uma mulher de quarenta e poucos, sobremangas azul-marinho, as unhas cortadas bem curtas, dois dedos enrolados em esparadrapo branco. Ergueu a vista um instante, e baixou.
— Buscar o disco?
— Buscar o disco. — Liang Cheng pôs na mesa o documento de identidade e a cópia da folha de reserva.
Ela pegou o documento, passou no leitor, ergueu de novo e confrontou com a cara. — Tira a máscara. — Liang Cheng tirou. Ela olhou dois segundos, fez gesto pra ele pôr de volta.
O computador apitou três vezes. Ela girou a tela pra ele ver:
> Verificação de identidade do executor: aprovada. > Conta: AC-0417. > Permissão: consulta ao arquivo offline (reserva n.º OA-2023-0001). > Observação: restituição em vigor desde 2023-12-26 10:31; permissões restauradas.
— Restituído? — perguntou.
— Restituído.
— Aí flui. — Devolveu o documento, tirou da gaveta um caderno de capa dura, um número maior que um livro de contas. Abriu na primeira página: uma linha só, pré-escrita no dia 25 de dezembro: AC-0417 / Liang Cheng / quinta, 09:00. Com a caneta, acrescentou uma palavra no fim da linha e leu em voz alta: — Pousou.
Pousou queria dizer: a gente tinha chegado; o fluxo tinha aberto.
Virou o caderno pra ele. — Assina.
Liang Cheng assinou. Embaixo, outra casa: acompanhante. He Yu assinou e, terminado, mostrou-lhe de relance o cartão de visitante do lado de produto. Ela registrou o número, sem perguntar mais.
— A primeira linha em dois anos — fechou o caderno. Disse sem erguer a vista. — O caderno chegou aqui há dois anos; escrevi o cabeçalho uma vez. De vocês é o primeiro negócio.
— Lá em cima não vistoria? — perguntou He Yu.
— Vistoriar o quê. Inventário é de disco, não conta gente. Disco não some.
Na parede, pregada, uma folha de inventário: uma linha por ano, todas as linhas em zero. Embaixo, colada, uma nota com uma frase só: sem novidade, não mexer. Ela seguiu o olhar de Liang Cheng e apertou a nota contra a parede. — Mandaram de cima. O ponto foi eu que acrescentei.
— Normalmente vem gente aqui? — perguntou Liang Cheng.
— O ano inteiro, dá pra contar nos dedos das duas mãos — disse. — Metade vinha perguntar: se dava pra dar baixa. Eu dizia que baixa não, que não era comigo. E iam embora. Uma vez foi uma senhora idosa que quis de todo jeito entrar no armazém, disse que era pra ver o nicho do marido dela. Eu disse que nicho era tudo igual, preto; ver um era ver todos. Ela não saiu; ficou na porta a manhã inteira. No fim, o filho veio buscá-la.
Enquanto falava, as mãos não paravam.
Passada a conferência do documento, a assinatura. Da caixa de lata sobre a mesa tirou de novo a guia de três vias, o papel-carbono azul no meio, um traço atravessando as três folhas. Escreveu, e empurrou pra ele.
> Termo de confirmação de retirada de cartucho do arquivo offline > Retirante: Liang Cheng (executor) > Conta: AC-0417|Cartucho n.º: K-11 > Instantâneo: 2019-03-14 09:52:11|Volume de dados: 1.42 GB|Nível: Básico > Custo: taxa de consulta ao arquivo offline, 2,400.00 yuans, já inclusa no orçamento de restauração de 8,600.00 yuans; o saldo, 6,200.00 yuans, é liquidado na inicialização da reconstrução.
— O item 7, leia — apontou a casa com a tampinha da caneta.
> Item 7: desde o momento da retirada, o executor deve concluir a colocação em máquina da reconstrução em até sete dias úteis. Vencido o prazo sem colocação em máquina, o cartucho volta ao arquivo por conta própria, e os valores já cobrados não são devolvidos; nova retirada exige nova reserva e nova cobrança.
Com a caneta, traçou uma linha embaixo de «sete dias úteis». — Hoje é quinta. Hoje já conta como um dia; no meio ficam o domingo e o dia 1, Ano Novo. Conta você: 28, 29, 2, 3, 4, 5, 8. — Guardou a caneta. — Se até as cinco da tarde do dia 8 a máquina não tiver esse cartucho ao lado, ele volta sozinho, e os 2,400.00 se vão sozinhos também.
— O sistema sabe calcular — disse Liang Cheng.
— O sistema calcula o que é do sistema. Eu leio o meu. Leio há quatro anos, nunca perdi uma ordem.
A guia pedia três assinaturas: retirante, confirmação da cobrança, item 7 conhecido. Liang Cheng leu as três. O item 5: qualquer dano físico do cartucho sob custódia do executor corre por conta do executor, inclusive a despesa de novo selamento. O item 6: o cartucho não pode ser deslacrado, nem passar por raio X, nem por detector magnético; em inspeção de segurança, apresentar este termo. Embaixo do item 7, a linha miúda: cláusula de devolução por vencimento de prazo, conhecida. Assinou uma a uma; na terceira, a caneta parou um instante, terminou o nome, o último traço um pouco carregado: no verso do papel levantou-se um sulco.
Ela rasgou a primeira via e lhe deu; a segunda voltou pro caderno. Passando as páginas adiante, atrás era tudo em branco: só a linha da primeira, no fim, o «pousou» de hoje. A terceira via ela jogou na fragmentadora. A fragmentadora soou uma vez e travou. Ela meteu a mão, apertou duas vezes, e as pontas de papel desceram um pouco.
— Essa fragmentadora de vocês pede limpeza — disse He Yu.
— Se limpar, não sobra o que triturar. Deixo assim: enche, limpa; fica fácil na conta.
Pra retirar o cartucho, era preciso entrar no armazém. Debaixo da mesa, tirou dois pares de propés e duas batas antiestáticas, azuis, com uma linha de tinta descascada nas costas: os dados não fazem som. Ela mesma não entrava; o acesso do armazém só reconhecia a digital do executor.
— Quarta fileira. — Apertou umas teclas no controle de acesso; a porta de ferro fez um clique. — Sétimo nicho da esquerda. O nicho de vocês eu limpei no inventário; é o único limpo.
— Por que limpou ele — perguntou Liang Cheng.
— Em dois anos, foi só ele que eu toquei. Os outros empoam; esse, encostou o pano, brilhou. Pensei: esse nicho está esperando alguém.
Lá dentro, mais frio que fora. As luzes acendiam por trechos: a gente andava, acendia o da frente, apagava o de trás. As estantes, cinza-escuro, do chão ao teto, nicho por nicho, e nos nichos, deitados, cartuchos todos iguais: do tamanho de uma mão, carcaça preta, um lacre em cada ponta. A cada trecho, He Yu atrasava um pouco; chegando à terceira fileira, deu meia parada e olhou pra dentro.
No fundo da terceira fileira, um nicho vazio. A plaquinha com o número continuava; o número, alguém tinha coberto com canetão, coberto firme.
Liang Cheng não perguntou. He Yu também não disse nada. Os dois seguiram andando.
Pelo corredor, Liang Cheng foi olhando as datas dos lacres. A maioria dos nichos ele varria de relance; um levava um lacre de nove anos atrás, o carimbo em relevo gasto de redondo, a etiqueta amarela até quebrar. Nove anos: esse número ele tinha visto no canto de baixo do quadro branco em frente ao seu posto — das sete contas da Su Man, a de maior idade levava nove anos. Atrasou meia passada, e voltou a andar. Os nichos desse armazém não eram como as ordens: numa ordem, um nome deve uma fila de números; aqui era um nicho cinza, e embaixo do cinza, deitada uma pessoa, ano após ano.
O termômetro do armazém pendurado no pilar da segunda fileira; a linha vermelha parava em quatro graus acima de zero. O desumidificador zumbia no canto, com o mesmo gênio dos ventiladores da sala de servidores da empresa: uma camada sobre a outra.
Quarta fileira, sétimo nicho da esquerda. Liang Cheng encostou o dedo; o nicho abriu de golpe com um paf.
O K-11 estava deitado dentro. Carcaça preta, menor do que ele imaginava. Etiqueta impressa, plastificada:
> K-11|AC-0417 > Instantâneo: 2019-03-14 09:52:11 > 1.42 GB|Nível: Básico > Selado em: 2019-03-14|Consultas: 0
Na casa das consultas, um zero oco. Liang Cheng passou a manga por cima do zero; não tirou nada: já estava limpo.
Tirou o cartucho. Mais leve do que imaginava. Os dois lacres, intactos; o carimbo em relevo do lacre trazia a data: 2019-03-14. Encostou o polegar no carimbo; a quina do relevo roeu a digital.
Na saída, o controle de acesso verificou a digital outra vez. A mulher do registro apontou o leitor pro cartucho; o computador soou.
> Cartucho K-11 retirado do arquivo. > Contagem regressiva da reconstrução iniciada: 7 dias úteis. > Prazo de conclusão da reconstrução: 2024-01-08 17:00 (dia incluso).
— A contagem anda — disse ela. — Desde este segundo.
Ao passar o portão, o velho ergueu a cancela e olhou o saco antiestático que Liang Cheng levava contra o peito.
— Só esse treco?
— Só isso — disse He Yu.
— Uma vinda, mais de cem quilômetros — o velho baixou a cancela. — Vale a pena?
Ninguém emendou. O carro deu ré; no retrovisor, o velho encolheu de volta pra garita.
Antes de voltar pra cidade, pararam num posto de descanso. He Yu comprou quatro baozi e dois copos de leite de soja, e estendeu o recibo pra Liang Cheng: — A gasolina a gente acerta depois; isso aqui entra na nota agora. Liang Cheng meteu os baozi no bolso externo do casaco, espetou os canudos dos leites de soja e deixou no suporte. O K-11 no banco de trás; o cinto deu uma volta por ele. He Yu olhou por cima do ombro a correia que apertava o saco antiestático, não disse nada e entrou o carro na via principal.
As Últimas Palavras Plus apareceram no Quinto Anel.
Liang Cheng estava lendo o push da contagem regressiva. Embaixo do push, pendurada, uma linha cinza: serviços de valor agregado disponíveis para essa conta (3). Entrou. Os dois primeiros eram conhecidos: a ligação de despedida (90 minutos, 238.00), o relatório de suavização cognitiva (40.00). O terceiro, em cinza, com uma etiqueta de «novo»:
> Últimas Palavras Plus > Antes da execução do apagamento, habilita para a personalidade da conta um espaço de fala própria de 30 segundos. > O conteúdo não é auditado, não é conservado, não é transcrito. > Preço: 100.00 yuans. > Estado: desativado por padrão.
Embaixo, uma linha miúda, mais miúda que a do preço:
> Abatível com a pontuação anual de conduta: somente a parte descontada como punição; 1 ponto abate 1.00 yuan; uso limitado a serviços de valor agregado da linha cuidado. Abatível no momento: 100.
Abatível no momento: 100.
Ficou olhando pra linha. Esse número ele tinha visto. Onze de dezembro, a notificação de advertência, VT-2023-1187, 100 pontos de conduta anual descontados. Sete anos em branco, e aquele foi o primeiro. Na época, leu aquela página três vezes: a casa da punição, o prazo de recurso, o fundamento do desconto. Não recorreu.
Em sete anos de ofício, tinha visto descontar pontos dos outros. Pra onde iam os pontos descontados, ninguém perguntava nunca. Pois aqui estavam guardados. Punição também era dinheiro; só que esse dinheiro só podia ser gasto num lugar.
Conferiu de novo o preço dos três. A ligação de despedida: 238 por noventa minutos, um pouco mais de 2.60 o minuto. Esses trinta segundos: 100, duzentos o minuto. Uma diferença de mais de setenta vezes, e o que se comprava eram as três linhas miúdas de baixo: sem auditoria, sem conservação, sem transcrição. A ligação de despedida grava do começo ao fim, gera ata, arquiva três anos, e o lado dos familiares pode reproduzir. Dessas trinta segundos, ninguém alcança o fundo; nem o sistema guarda. Em sete anos, foi a primeira vez que ele via uma coisa que, gasta, acabava de verdade.
Arrastou as cláusulas até o fundo. A ativação exigia aprovação. O fluxo trazia sozinho um nome: He Yu (GAC). Voltou a cabeça pro banco do motorista. He Yu, o óculos escuros posto, os olhos na pista, as duas mãos pousadas no volante; o carro firme como se estivesse parado.
Liang Cheng pôs o polegar no botão de enviar, esperou um instante, apertou.
A página ficou girando. Nos segundos de giro, o celular do banco do motorista vibrou uma vez no suporte. He Yu pegou, olhou, passou o polegar duas vezes e pôs de volta. De ponta a ponta, menos de dez segundos.
A página saltou:
> Pedido de ativação: aprovado. > Aprovador: He Yu (canal GAC). > Tempo de aprovação: 17 segundos. > Recado: Irmão, desculpa. > Valor: 100.00 yuans, abatidos integralmente com a pontuação anual de conduta. > Pago de fato: 0.00. > Estado do serviço: ativado (entra em vigor: abre automaticamente nos 30 segundos anteriores à execução do apagamento; não prorrogável, não regravável).
O carro mudava de faixa. Liang Cheng ergueu o celular na altura dos olhos de He Yu.
— Aprovação rápida assim.
— No fluxo, sou eu só — disse He Yu.
— Esse recado quer dizer o quê.
He Yu não respondeu logo. O carro passou a praça de pedágio; a cancela ficou atrás, descendo. Empurrou o óculos pra cima e esfregou o nariz.
— Daquela viagem de três anos atrás, fiquei no banco do carona até o trevo de Changping — disse. — Quando ele deu a volta, quis barrar, não barrei. Percebi que três palavras saem mais fáceis da boca dele que da minha — eu vendo isso; se eu digo «pensa de novo», fica com cara de venda.
— E isso o que tem a ver com a desculpa.
— Naquela época isso não existia — disse He Yu. — Últimas Palavras Plus virou projeto este ano. No dia da avaliação, o contexto da demanda fui eu que escrevi; pus três casos, e o número do primeiro era o dele. O parecer, quatro caracteres: demanda insuficiente. Nível 1 na empresa inteira: 31 contas; abrir pra todo mundo, o custo do ano não volta. Depois cortaram o tamanho, fizeram pago, penduraram aqui embaixo, sem ir pra página inicial.
Fez uma pausa.
— Se ele tivesse se tocado três anos mais tarde — disse He Yu —, ou se eu tivesse aberto a boca três anos mais cedo, esses trinta segundos eram dele. Do passo que faltou, segunda-feira andei metade por ele; essa metade que restava, hoje aprovei por ele. E aprovei pensando: esse recado precisava ser dado a ele. A quem dar? Dei a você.
Liang Cheng guardou o celular. A página continuava parada na mesma linha: pago de fato 0.00.
— E o dinheiro — perguntou. — Os pontos descontados como punição, como entram na contabilidade da empresa.
— Não entram — disse He Yu. — O ponto descontado é punição; o abatimento, um direito: dois tanques, uma comporta no meio, e a comporta foi eu que aprovei. Se quiser rigor, mando o fluxograma.
— Sem rigor.
— Então fica guardado — disse He Yu. — Guardado vale mais que dinheiro.
O carro chegou embaixo às 15:40. He Yu não desligou o motor.
— Até segunda — disse. — Dia 8 de manhã, no B2; eu deixo a mesa de reconstrução guardada pra você. Do empréstimo eu não entro; quem analisa a movimentação é o Risco, e o Risco só olha duas coisas: o certificado de restituição, o extrato salarial. De você não falta nada; falta é eles voltarem ao trabalho. Dia 1, dia 2, se voltarem, já roda.
— E se no dia 2 ainda não tiver rodado.
— Aí é o 3 — disse He Yu. — O 4. O 5. Estou contando, conto dois dias a mais que você. Se de fato no dia 8 o dinheiro não estiver inteiro, o disco volta pro arquivo, os 2,400.00 se perdem, nova reserva — e a nova reserva passa por mim. Você não me pula; eu não pulo o fluxo. Então não chegue ao dia 8.
Engatou a marcha e, como se se lembrasse de algo, tirou de dentro do casaco um envelope e estendeu pela janela. De papel kraft, sem selar; dentro, uma pilha de folhas.
— Do saco dele, tirei uma cópia — disse He Yu. — O original fica comigo; a fotocópia, com você. Você aproveita melhor que eu.
O carro foi embora. Liang Cheng ficou na boca da escada, apertando o envelope. O papel não era grosso, os cantos alinhados, como quem o tinha alisado muitas vezes.
À noite, tirou o K-11 do saco antiestático, despejou na mesa o sachê de sílica. Sob o abajur, o cartucho parecia ainda menor que no armazém; a etiqueta plastificada devolvia um brilho.
Abriu a gaveta de baixo da mesinha de cabeceira. A escritura de capa vermelha, o registro de residência, uma pilha de recibos de condomínio. Tirou a escritura, abriu na página interna, deu uma olhada, fechou, pôs de volta. O K-11 no topo da pilha, a carcaça preta pisando a capa vermelha. Empurrou a gaveta; um clique.
Mandou pra Liang Chuan: o disco chegou. Dia 8 vai pra máquina. Depois da reconstrução ainda tem calibração, de três a nove dias.
A resposta veio rápido: tá bom.
Um pouco depois, mais uma: a Niuniu pergunta se a vó volta no Ano Novo.
Liang Cheng ficou olhando pra frase. Digitou «volta», apagou. Digitou «falta pouco», apagou também. No fim respondeu: depois do dia 8 tem data certa.
Do outro lado veio um «ok», e embaixo mais uma frase: no Ano Novo eu levo a Niuniu lá; a comida eu compro.
Deixou o celular, voltou a pegar, abriu o lado de trabalho. A página da conta do Lao Guan continuava com os três números: Nível 4, mora de 3,802.40, cronograma 42. Na casa dos pontos, a linha nova: transferência recebida 12 (2023-12-25 19:02, recado omitido). Embaixo, «serviços de valor agregado disponíveis (1)» aceso; abriu, cinza: o nível não suporta.
Abriu o «recado omitido». Saltou o texto inteiro, duas linhas, ele já tinha lido: pro senhor Guan da casa de caldeiras de baixo. Pontos guardados comigo também ficam guardados. Leu e não fechou; olhou dois segundos, antes de voltar. A página regressou aos três números: Nível 4, mora de 3,802.40, cronograma 42.
Olhou um pouco, saiu, e no discador digitou até 139; a sequência de trás ele sabia de cor. O polegar suspenso sobre a tecla de ligar, uns segundos, e voltou.
Tirou a primeira via do termo de confirmação, pôs sobre a cópia da folha de reserva, dobrou os dois do tamanho da nota — esse gesto ele tinha treinado neste meio ano: três dobras, os cantos alinhados — e meteu na capa do crachá, apertado junto à nota. A capa abombou por um lado; o alfinete custava a segurar.
Antes de dormir, tirou da capa do crachá a nota. Dez linhas, de 1800×0 a Lao Guan, 42 dias. Pegou a caneta e acrescentou embaixo a décima primeira:
Dia 8, antes das cinco.
Escrito, devolveu a nota, pendurou o crachá no encosto da cadeira, de frente pra cama. Apagou o abajur.
No escuro, a tela do celular acendeu mais uma vez. Um push, uma linha:
> Contagem regressiva da reconstrução: restam 6 dias úteis 22 horas 41 minutos.