Sábado, 10:06 da manhã, o registro de ligações da AC-0417 ganhou uma linha.
Chamador: Liang Chuan. Duração 05:12. Resposta válida da personalidade 05:04. Desligamento: chamador.
Embaixo, o sistema gerou sozinho um registro: 【Ligações familiares · adiamento do cronograma】acumulado da semana alcançado; desconto de 7 dias do cronograma de degradação.
O sábado dele estava vazio. De manhã lavou roupa; à tarde foi ao mercado e comprou um cacho de banana, um pacote de macarrão. No caminho de volta fez uma conta: se aquela ligação de Liang Chuan tinha acontecido de verdade; a conta não fechou, e ele parou de fazer. Onze da noite, olhou o celular: nada de Liang Chuan. Pôs o celular virado pra baixo na mesa de cabeceira e dormiu.
Segunda de manhã, abriu a página da conta: cronograma restante, 257. De dias corridos deviam ser 264. Os sete dias de diferença estavam ali. A movimentação de pontos ganhava uma terceira linha: ligação respondida 05:04, ótima, +3. Saldo: 6.
05:12. O irmão tinha cumprido os cinco minutos, com doze segundos de sobra. Ele parou nos dois números: os doze segundos a mais eram folga, não desperdício. Desligamento: chamador. Foi ela que esperou ele desligar primeiro.
Parou três segundos e saiu. O cache de introspecção, não consultou. Naquela semana não tocou em campo nenhum de ninguém.
9:40, trocaram o post fixado da intranet.
【Notificação de auditoria especial de conformidade】 Alcance: todos os registros de visita profunda e operações de disposição do Departamento de Disposição Terminal, exercício 2023 Modalidade: entrevista no local, por ordem de matrícula Exigência: colaboração de todos; proibido consultar, exportar ou apagar registros de próprio manuseio Especialista de auditoria: Qi Yue (Departamento de Conformidade)
Embaixo da notificação, uma linha miúda: durante as entrevistas os postos seguem funcionando; na vez de cada um, o sistema avisa com uma janela. A janela era cinza, sem som; acendia no canto inferior direito da tela, ficava dez minutos e, sem clique, se apagava sozinha. A manhã inteira, o canto inferior direito daquela fila de postos acendeu sete vezes.
Veio uma mulher de uns quarenta e tantos, sobretudo cinza-escuro, puxando um carrinho com caixas de arquivo empilhadas na bandeja. Uma das rodas do carrinho levava fita adesiva; ao chegar à fila de terminais, som a som.
Não gastava cumprimento. Chegando, parou embaixo do quadro branco, copiou o número do quadro e, de posse dele, perguntou quem era o responsável por atualizá-lo. Wu Yan não estava; ninguém respondeu. Ela anotou.
As entrevistas eram na salinha de reunião. Na porta, uma folha A4: entrevista em curso. Ficou da manhã ao meio-dia; ninguém tocou no papel, e na hora do almoço continuava colado.
Xiao Zhou saiu faladeiro. — Perguntou se a assinatura na presença do treinamento trimestral era minha mesmo. Era, eu estava lá no dia, na palestra da Jiang Li. — Baixou a voz. — E perguntou do registro do micro-ondas. Auditoria controla até micro-ondas.
Ninguém emendou. A ordem da tarde seguiu; a janela acendia, o chamado se levantava, empurrava a cadeira pra debaixo da mesa e ia. Esse gesto não existia nos outros dias; nesse dia, todo mundo tinha.
A vez dele, às 14:00.
A janela acendeu quando ele conferia a data de um recibo. Conferiu a linha, salvou, então se levantou. Do posto à salinha, onze passos; ao andá-los, ouviu os próprios passos entre o terceiro e o sétimo; o resto não entrou.
Na salinha, a mesa reduzida a três coisas: um notebook, uma pilha de folhas impressas, um porta-lápis. Qi Yue sentada atrás das folhas, lia uma linha, teclava uma tecla. A pilha, emparelhada com esmero, canto contra canto, bem mais reta que o papel de qualquer outra mesa.
— 21 de novembro, 8 de dezembro e 15 de dezembro de 2023: três visitas profundas iniciadas pelo senhor. Três em 30 dias — lia sem pressa. — Três atas; no resultado do objetivo da visita, o senhor escolheu as três vezes «nenhuma expressão de vontade obtida».
— Isso.
— O piloto de cuidado não é ação de disposição. Visita sem propósito de disposição conta como desnecessária — ergueu os olhos. — Duas das três do senhor vinham no nome do piloto de cuidado.
— O informe semanal do piloto exige ação.
— O informe semanal é pros vivos — disse ela. — Conta não precisa de visita.
Ela teclava. Item seguinte. O ar-condicionado da salinha soava um nível acima do de fora; a fita de pano na saída de ar tremia sem parar, nem rápido nem devagar.
— Ata DA-R-0417-003, três formulações fora do roteiro. O senhor explicou à personalidade as regras de pontos e o caminho de troca. Base legal.
— Dever de informação do executor.
— Qual artigo.
Ele não soube. Ela também não apertou: teclou, leu o item seguinte. A tecla caía leve; bastava a palavra entrar.
— Minuto 14 da sessão de 21 de novembro, a personalidade declara: «O da outra vez foi igual. Servi água e ele não quis.» O sistema não tem registro de visita que corresponda. Explique.
— Deriva da linha do tempo. Comum em personalidade de Nível 3.
— Declaração do lado da personalidade não é verificável — e teclou aquelas palavras inteiras.
— 8 de dezembro: o sistema recomendou executar a suavização cognitiva; o senhor cancelou o envio. No dia seguinte, a advertência. Por que cancelou.
Ele olhava a folha de cima da pilha; no cabeçalho, a matrícula dele. Embaixo da matrícula, uma linha miúda, adicionada pelo sistema de impressão: hora de impressão 2023-12-18 13:52. Oito minutos antes de a entrevista começar, aquela pilha de papel ainda estava quente.
— A advertência já está em vigor — disse ele.
Qi Yue ergueu os olhos pela primeira vez e ficou um segundo nele. Depois abaixou a cabeça, terminou de teclar o item e fechou o notebook. Entre fechar o notebook e ler o item seguinte, nenhuma pausa, como se as duas coisas respirassem do mesmo fôlego.
— Uma advertência no ato: visita profunda desnecessária — disse ela. — Em caso de reincidência, suspensão das atribuições de disposição. Este item entra na avaliação trimestral de conformidade.
Girou as folhas e empurrou na direção dele. Na última linha, o campo de assinatura. Assinou. No porta-lápis, uma caneta só, a ponta rachada; os dois traços da assinatura saíram com fiapo. Terminou, devolveu a caneta ao porta-lápis, ponta para dentro. Antes, a ponta estava para fora.
Quando ele se levantou, ela disse: — A conta da sua mãe: o resultado da revisão do plano C saiu hoje de manhã.
— Qual é o resultado.
— Devolvido — disse ela. — Motivo: o executor de disposição tem infração pendente.
No caminho de volta ao posto, o e-mail chegou, as mesmas duas linhas, com cópia a Feng Tuo. Devolvido. O adiamento tinha acabado. Aquele número do cronograma, de agora em diante, andaria sozinho, um dia por dia, e ninguém seguraria, exceto os cinco minutos de cada semana.
O e-mail era modelo, assinado pelo sistema, sem botão de resposta. Leu as duas linhas duas vezes. Na segunda, ao chegar a «infração pendente», alguém empurrava um carrinho de arquivos no corredor; as rodas passaram pelo tapete, dois sons abafados. O carrinho passou, e as palavras continuavam na tela.
Fechou o e-mail e arrumou a mesa. Não tinha nada pra arrumar. Três canetas, um copo, a jiboia de plástico. Alinhou as três canetas por tamanho, depois de novo por cor; no fim, quase como antes. Uma folha da jiboia de plástico tinha apanhado poeira; passou um lenço de papel. Limpa, aquela folha ficava mais verde que as outras.
16:00, o carrinho de Qi Yue parou ao lado do posto de Su Man.
O que ele via era Su Man. Sentada, a planilha A3 aberta, a caneta vermelha ainda na mão. Qi Yue lia um nome; ela assentia uma vez.
Zheng**.
Wang**.
Li**.
Su**.
Gao**.
Zhang**.
Chen**.
Sete. Idênticos, um a um, à lista de difusão daquele ano; nem um a mais.
No quarto nome, Su Man parou um instante. Não ergueu a cabeça: voltou uma página da planilha, até um círculo vermelho daquela página, assentiu uma vez e voltou. Qi Yue esperou, sem apressar.
Terminada a lista, Qi Yue puxou um impresso da caixa de arquivo e pôs sobre a planilha. Ele não estava tão perto; só alcançou dois números. Total de mora: 23,476.80. Prazo de quitação: 48 horas, até as 16:00 de quarta, 20 de dezembro. O que vencer sem quitação passa em bloco para a fila terminal.
Su Man ergueu o impresso, olhou a frente, olhou o verso. O verso, em branco. Pôs o impresso de volta sobre a planilha, meio centímetro fora do lugar onde Qi Yue o deixara; então correu de volta o meio centímetro.
— A mais antiga, quantos anos — perguntou Qi Yue.
— Nove anos — disse Su Man. — Mais do que seus anos de empresa.
Qi Yue não emendou. Girou o carrinho; a fita da roda raspou no chão.
17:30, Su Man fez uma volta à copa. Ficou dez minutos de pé junto à pia, esfregando a garrafa térmica. O sarro de chá levava mais de dez anos assentado no fundo; todo mundo sabia que não saía.
Ele ouviu a água da pia parar duas vezes. A primeira parada foi fechar a torneira e mudar o ângulo; a segunda durou mais, mais do que se durava para esfregar uma garrafa. Então a água voltou, mais baixa que antes.
Quando voltou, a garrafa estava vazia, invertida sobre um papel-toalha, secando. O anel de sarro do fundo tinha ido embora. Ao passar pelo posto dele, não freou o passo; no papel-toalha, um círculo de água se espalhava, andando devagar para as bordas.
Ele foi até lá uma vez. — Chefe Su.
— Que foi.
— Se precisar—
— Sua parte ainda nem está limpa — disse ela, os olhos na planilha. — Volta pro trabalho.
Ele ficou dois segundos e voltou. No caminho, deu uma olhada na mesa dela: a planilha A3 aberta, a caneta vermelha pousada no vinco da página aberta, a tampa posta. Caneta vermelha de tampa posta não é a mesma coisa que sem tampa: é jeito de quem terminou o expediente. E ela continuava corrigindo.
Quinze para as seis, Qi Yue distribuiu a última rodada de assinaturas. O Formulário de verificação de conflito de interesses em contas em andamento, um para cada; conferir as entradas em nome próprio, assinar e devolver.
A distribuição também por ordem de matrícula. Quando o dele chegou, os da frente já folheavam. O som de página corria de uma ponta a outra: doze vias ao todo, doze ritmos que nunca se alinharam.
O dele tinha duas páginas. A primeira, formulário em branco, instruções, carimbo. Primeira linha das instruções: «Este formulário serve para levantar situações de conflito de interesses na disposição de contas em andamento». Segunda linha: «Conferido e correto, assinar e devolver; conferido com erro, recurso por escrito até as 18:00 de hoje». A segunda página, entradas impressas.
Foi lendo linha por linha. Doze pessoas no grupo, uma linha por pessoa. Cabeçalho: nome, matrícula, conta vinculada, tipo de vínculo, classificação de risco, observação.
Nas primeiras linhas, o tipo de vínculo quase sempre «nenhum», a classificação de risco também «nenhuma», observação em branco. Uma linha tinha a conta do sogro: risco baixo, observação: comunicado. Outra, a de um primo: risco médio. Contou: em doze linhas, com parente, contando ele, quatro; oito limpas.
Na última linha da segunda página, ele.
Nome: Liang Cheng. Matrícula: L-0284. Conta vinculada: AC-0417. Tipo de vínculo: executor. Classificação de risco: alta.
A observação não era impressa. Era um escaneado de letra à mão, tinta azul-preta, a letra pisando as linhas do quadriculado:
Risco alto: pessoa vinculada às ordens de serviço próprias.
Leu a linha três vezes. A observação sem assinatura, sem data, traços horizontais parelhos, início de traço pesado. Na segunda página inteira, à mão, só aquela casa. Em doze linhas, a observação dos outros, ou em branco ou o «comunicado» impresso; só a casa dele fora escrita por outra mão, mergulhada na tinta. A força de quem escreveu atravessava o papel; até o escaneado mostrava a sombra dos traços apertados.
Assinou e devolveu. Ao sair da salinha, as luzes do corredor apagadas pela metade, modo de economia. O carrinho de Qi Yue junto ao elevador, a roda de fita virada pra fora.
De volta ao posto, pescou a nota da capa do crachá. Cinco linhas. No pé, acrescentou a sexta, duas palavras:
Risco alto.
Dobrou, meteu de volta. A capa abombava mais um pouco; na catraca, mais um aperto.
Na descida, 18:10. No pé da escada, fez uma conta: até as 16:00 de quarta, faltavam 45 horas e 50 minutos.
Seguiu a conta mais duas linhas. Do lado de Su Man, o buraco: 23,000. O saldo dele: 7,400. De 23,000 menos 7,400, faltavam 16,000. Aquela conta não significava nada — não era conta dele, e dinheiro não atravessava. Riscou as duas linhas. Riscadas, restava no pé da escada um único número útil: os cinco minutos de cada semana. Os desta semana, Liang Chuan tinha feito; os da semana seguinte também teriam de ser de Liang Chuan. Puxou o celular, abriu a conversa com Liang Chuan; a última frase continuava sendo aquela «Cinco minutos falando o quê?». Digitou uma linha: «Sábado que vem, outra ligação.» Digitou e não enviou; travou a tela e desceu.
A luz de Su Man continuava acesa. Ele olhou pela porta corta-fogo: ela sentada sob a luz, a caneta vermelha corrigindo na folha A3, um toque por vez; nas linhas corrigidas, as probabilidades de recuperação, todas para cima.
Terminada uma casa, punha a tampa na caneta vermelha, arrancava de novo, corrigia a casa seguinte.
Não entrou; ficou um pouco e desceu. No corredor, abriu a própria página da avaliação trimestral de conformidade. Duas linhas de pendência: uma advertência, 100 pontos deduzidos; uma advertência no ato, entra na avaliação. Embaixo, a classificação atual: C. Mais embaixo, uma linha cinza: classificação abaixo de B, perda das atribuições de disposição terminal no trimestre seguinte.
Quantos pontos de C a B, nem como recuperar, a página não dizia. Leu uma vez e saiu. Aquela página e a sexta linha da nota diziam a mesma coisa: daqui pra frente, cada passo precisava ser limpo.
Lá fora, vento. Guardou o crachá no bolso interno e foi andando pra parada do ônibus. No último ônibus, pouca gente; sentou na terceira fileira contando de trás; o celular vibrou uma vez no bolso, ele não olhou. Ponto, desceu, seiscentos passos, casa.