Segunda, 10:12 da manhã.
Na mensagem interna saltou um recado.
He: às 15:00, na porta da sala de servidores do B2. Eu te dou uma volta.
Liang Cheng respondeu uma palavra: ok.
O estado embaixo do avatar do outro virou «lido»; depois, «escrevendo...» piscou 2 segundos, e nada veio.
Faltando 5 minutos para as 15:00, ele desceu.
O controle de acesso do B2 era uma catraca e um caderno de registro. O caderno preso numa presilha de plástico; a caneta amarrada num barbante, o barbante curto: para escrever, tinha de puxar o caderno para si.
Oito colunas: data, nome, matrícula, motivo, acompanhante, hora de entrada, hora de saída, se os dispositivos eletrônicos pessoais ficam lacrados.
— No motivo, o que escreve? — perguntou o de plantão.
— Visita.
— Escreve visita e pronto. O anterior escreveu «olhar coisa» e mandaram de volta pra preencher de novo.
Preencheu linha por linha. Na coluna do acompanhante escreveu: He Yu. Ficou olhando um pouco ao terminar. Não mudou.
A máquina de propés ficava dentro da porta; um pisão, um propé. Pisou e nada; pisou de novo, saiu um azul.
Entregou o celular ao de plantão; ele o meteu num saco antiestático translúcido, a aba rasgada de uma vez, colada morta, e devolveu uma plaquinha numerada, de plástico, com o 07. O de plantão pendurou a plaquinha no quadro; do 01 ao 06, tudo vazio.
Dentro da porta, um espacinho de espera; na parede, uma tela passando em loop as normas de segurança. A terceira: entrada no corredor frio somente em duas pessoas ou mais; permanência única de até 40 minutos. Na terceira leitura, chegou He Yu.
A porta abriu.
A primeira coisa foi o frio. A segunda, o barulho.
Um barulho que não era o de máquinas trabalhando: um vento uniforme, sem sobe-e-desce, subindo pelas frestas do piso. Na parede, uma telinha, letras verdes: temperatura 19.6 °C umidade 42 %.
Os racks formavam duas fileiras, numerados desde o CS-A01. No meio, o corredor frio, portas de vidro, fechadas uma a uma. O piso era suspenso; ao pisar, o som era oco, cada passo um pouco mais alto que lá fora.
Wu Yan abriu a porta por dentro, a pêra de soprar rosa na mão; ao vê-lo: — Opa.
— Mandou o senhor He.
— Visita — disse Wu Yan. — Acompanha. Não mexa em nada: um dedo naquele rack e a estática sobe; eu não cuido do conserto.
Fez de lado para ele passar e, de passagem, deu uma palmada na porta do terceiro rack; depois olhou para trás para ver se alguém viu.
Liang Cheng entrou. Ao chegar na fileira CS-B04, reduziu o passo pela metade.
A posição de número 17. Slot 3. O LED verde, um piscar por segundo. Uma pessoa comprimida até restar uma frase: 1.7 MB, 8 yuans por mês.
Nas portas de dois ou três racks, etiquetas amarelas: pendente de liberação.
Não parou.
He Yu no fim do corredor, suéter cinza, sem casaco, um copo de papel na mão.
— Chegou — disse ele. — Quer beber? Ali tem, sirva-se, mas pouco, aqui dentro não tem banheiro.
— Não bebo.
— Como quiser. — He Yu pôs o copo numa mesinha ao lado de um rack. — A coisa que você perguntou, existe.
— Existe?
— Existe. Não como você está imaginando — disse He Yu. — Eu te dou uma volta; no fim, você entende.
Começou pela fileira CS-A, falando de densidade de posições e dissipação, ritmo uniforme, sem acumular termo. No meio, parou, estendeu a mão e apertou a porta de vidro do corredor frio. — Aqui dentro são 18 graus; quando entramos, em geral menos de 40 minutos. Quem fica muito tempo aqui, lá fora fica com o ouvido apitando meia jornada.
— Os de etiqueta amarela estão vazios?
— Liberados — disse He Yu. — O cronograma chega a zero, executa-se, a posição fica livre. Nesta fileira, o mês passado, 5.
— Livre para quem?
— Para o seguinte — disse ele com o tom de quem fala do tempo. — As posições deste prédio são um número fixo. Se não liberar, tem de alugar outro andar.
Seguiu andando e falando: densidade de posições, dissipação, a conta de luz mensal deste andar, não muito abaixo da folha de pagamento inteira da empresa. Ritmo uniforme; nenhuma frase de decoreba.
— A Pontuação de Piedade Filial da última apresentação — disse He Yu de repente. — Você ativou?
— Não.
— 186,000.
— Hm.
He Yu não seguiu.
— Quanto ocupa uma personalidade de Nível 3? — perguntou Liang Cheng.
— A da sua mãe, em backup a frio, 1.42 G — disse He Yu. — Um Nível 4, olhe aquele: CS-B04, 17, Slot 3: 1.7 MB.
Ergueu um pouco o queixo.
— Cai um nível, o volume desce três ordens de grandeza. Paladar, olfato, dor: o que se apaga são as peças grandes. No fim do apagamento resta uma frase: 1.7 MB, cabe num disquete.
— Vocês vendem posição.
— Vendemos posição — disse He Yu. — Essa frase, numa apresentação, não se pode dizer; aqui dentro, pode.
Seguiu em frente até uma fila de armários baixos: metade da altura de um rack, uma fila de gavetas, etiqueta em cada gaveta.
— O que você quer perguntar está aqui.
Puxou uma gaveta: dentro, cartuchos de plástico um a um, cinza-azulado, etiqueta branca no costado.
— Backup a frio. Arquivo offline, cartucho de disco azul, um cartucho por conta, numeração começando em K. Este acervo não está na rede; caindo a rede, ele continua lá.
Puxou um cartucho, virou para ler a etiqueta e recolocou.
— O da sua mãe está no K-11. Quarta célula, sétimo contando da esquerda.
Liang Cheng olhou para aquela célula. Uma dúzia e pouco de cartuchos, cinza-azulado, etiqueta branca no costado, letra miúda, só números; impossível saber quem é quem.
— Quando foi guardado.
— No dia do upload.
— 5 anos sem tocar?
He Yu olhou para ele e sorriu um instante: — Guardado no dia do lançamento; desde então, nenhuma consulta. Consultas de toda a empresa: 0.
— Como funciona a restauração? — perguntou Liang Cheng.
— Três passos: retirar o disco, reconstruir, calibrar — contou He Yu nos dedos. — Retirar o disco é manual; os discos não estão neste prédio, estão no acervo de Changping, meio dia de carro. A reconstrução, a partir de 48 horas.
— O que faz a etapa da calibração.
— A personalidade reconstruída vai notar que o tempo não bate — disse He Yu. — Ela lembra do dia do upload; abre os olhos de novo e é hoje. Os 5 anos do meio estão vazios. Esse vazio ela mesma percebe; percebido, o desvio sobe. Por isso, depois da reconstrução, se faz uma suavização: procedimento padrão.
— Suavização.
— Suavização cognitiva. Você está na disposição, deve ter visto — disse He Yu. — Não precisa da sua assinatura; o sistema agenda, automático.
Liang Cheng soltou um «hm».
— A calibração, 3 dias se for rápida, 9 se for lenta, depende da personalidade. Para fora, informamos 5 a 9 dias úteis.
— Quanto custa.
— 8,600. Retirada 2,400, reconstrução 4,800, calibração 1,400 — disse He Yu. — É preço de custo; não acrescentamos nada em cima.
Liang Cheng somou os dois números na cabeça. 8,600 com 41,446.50. 50,046.50.
Na planilha de anteontem, o saldo era 45.62.
— Condição prévia.
— Conta sem pendente de liquidação — disse He Yu. — O seu número eu nem olho; você sabe de cor.
Liang Cheng assentiu.
— Dá para pagar com a Pontuação de Piedade Filial, né.
— Dá. Despesa de restauração: exatamente o caso de uso daquele produto — disse He Yu. — Seu limite alcança. Você não ativou. Por que não ativou, não pergunto.
Empurrou a gaveta de volta; a meio caminho parou, a mão na borda da gaveta.
— Liang Cheng, vou te falar uma coisa com franqueza — disse ele. — Essa função tem 3 anos no ar; quem usou, zero. Você perguntar hoje, me alegra. Não é venda — é que eu acho que alguém devia perguntar.
Liang Cheng não pegou a palavra.
O vento subia pelas frestas do piso e batia na perna da calça; frio.
— Essa «restauração» que você quer — disse He Yu. — É trazer de volta a cópia de 5 anos atrás. A de agora, se apaga.
O celular de He Yu estava na mesinha, a tela para cima, acesa.
Liang Cheng não foi de propósito: ao baixar os olhos para a gaveta, o olhar caiu bem em cima.
Era uma captura de tela.
A tela de ligação do lado dos familiares, fundo verde, no topo uma linha com o nome: Lin** (ex-esposa). No meio, duas palavras: em ligação. Embaixo, a duração: 21:06. Mais abaixo, uma linha miúda: encerrada. No canto superior direito, uma data: novembro de há 3 anos.
He Yu pegou o celular, olhou a hora e pôs de volta, a tela para cima.
— Este eu não troco — disse ele.
Liang Cheng não perguntou.
He Yu também não explicou. Empurrou o celular meio centímetro para o lado, para o meio da mesa, e voltou a falar dos discos.
Na mesa, também, uma pilha de impressos; o de cima, o Formulário de Registro de Consulta ao Arquivo Offline. O formulário, em branco, só cabeçalhos; a coluna da data impressa com o dia de hoje.
O de plantão puxava os registros no terminal. O teclado era dos velhos; ao apertar, soa.
Virou a tela: fundo branco, letra preta.
【Instantâneo do backup a frio da conta AC-0417】 Hora do instantâneo: há 5 anos, 14 de março, 09:52:11 Volume de dados: 1.42 GB Nível: Básico (sem degradação) Localização da mídia: K-11 Consultas: 0 Estado: intacto
09:52.
O upload terminou às 10:31. Naquela hora ele estava na rodovia, o trânsito parado, no painel faltavam 19 quilômetros.
Passou as três coisas pela cabeça, sem dizer nada.
— E a cópia de agora? — perguntou Liang Cheng.
— A de agora, difícil dizer: muda a qualquer momento — disse He Yu. — De todo modo, menor que 1.42 G. 5 anos apagando, 5 anos escrevendo; no líquido, descendo.
— Depois da restauração, segue no Básico — disse He Yu. — 45 por mês.
— Hm.
— Naquela versão tem de tudo: olfato, paladar, os Anos Novos anteriores a 1998, a cara do seu pai — foi enumerando He Yu. — Se você pergunta se vale 8,600: vale.
Parou um instante.
— Mas naquela versão não estão os 5 anos de depois.
Liang Cheng olhava a tela.
— Não estão aqueles 2,913 fragmentos de autorreflexão. Não está ela, a de depois de 41 suavizações. Não está a panela em cima do fogão, nem os 47 segundos de 23 de novembro — disse He Yu. — A tarde em que ela te reconheceu — 21 de novembro — também não está dentro.
— Eu sei.
— Este ano você tem 34 — disse He Yu. — Há 5 anos, 29. Naquela versão, você tem 29.
Liang Cheng não disse nada.
— E no processo.
— O pedido exige a assinatura do executor — disse He Yu. — Você é o executor.
— Eu sei.
— Então nisso ninguém te impede, e ninguém faz por você — He Yu tirou a mão da borda da gaveta. — Isso eu disse duas vezes; hoje é a segunda. O anterior que me perguntou, foi há 3 anos.
— Ele fez?
— Não.
— Por quê.
— Disse que tinha se tocado — disse He Yu. — No mês passado, o cronograma da conta dele chegou a zero.
Liang Cheng olhava a gaveta. Meio aberta; dentro, cartuchos um a um, cinza-azulado, etiqueta branca no costado, letra tão miúda que não se lia o que dizia.
— Qual das duas você quer, pense você — disse He Yu. — Não te apresso. Isso não entra na avaliação trimestral; não temos meta para isso.
— Pense com calma — completou ele. — O disco não estraga. É um disco e pronto; daqui a 10 anos, está do mesmo jeito.
O de plantão virou a tela de volta; o teclado soou 2 vezes.
Na saída, preencher a hora de saída no caderno de registro.
Escreveu: 16:08. A caneta não queria descer a tinta; sacudiu 2 vezes.
O celular voltou do saco antiestático com uma película de embaçado na tela; limpou com a manga. 7 perdidas: 2 de televendas, 5 menções no grupo do trabalho.
Não olhou.
Embaixo da máquina da porta, um balde para os propés; tirou e jogou dentro, já com uma pilha de azuis.
Na parede do elevador, um papel colado, A4: «visita à sala de servidores, use propé»; embaixo, alguém tinha desenhado à esferográfica um carinha sorrindo, torto.
Quando saiu do prédio, a noite era fechada. As duas árvores da porta, sem uma folha; num galho, um saco plástico que o vento enchia e esvaziava. O guarda recebia encomendas na porta; no carrinho, 7 ou 8 caixas empilhadas, a de cima enrolada 2 vezes com fita.
No elevador, o ouvido continuava apitando, aquele vento uniforme, apitando até o sexto andar.
O computador do posto estava ligado; a proteção de tela ativa, um azul. Mexeu o mouse e voltou à página da conta.
Cronograma restante: 278. Total pendente de liquidação: 41,446.50; embaixo, a linha cinza continua: a integrar 1.20.
Puxou a página até o fundo e de volta. Na seção de visitas profundas, restam 3 neste mês.
Tirou o crachá do pescoço, entrou com a unha pela borda da capa e pescou a nota adesiva.
No verso, já 4 linhas: 1800×0; Xiao Cheng 411 Chuanchuan 96; dinheiro 3 dever 0.
Acrescentou no pé uma linha:
K-11 09:52:11
Pronta, dobrou e meteu de volta na capa do crachá. A capa abombou um pouco; para passar na catraca, precisa apertar.
Pendurou de volta no pescoço e ajeitou. No fim do corredor, o bebedouro aquecendo; um gorgolejo.
No metrô, cheio; ficou de pé, segurando na barra, por 2 estações; só na terceira achou lugar.
Sentado, apertou o crachá na mão e olhou. A foto era do ano em que entrou na empresa; naquele ano ele tinha 27. A gravata bem-feita, sem torcer.
Olhou 2 segundos, virou o crachá e meteu de volta no bolso.