Acima à direita: 13:41.
— Sou especialista de disposição de contas terminais da Anxu Tecnologia — disse Liang Cheng.
— Tá — disse ela. — Você é o camarada.
Ela esfregou as mãos na calça de novo, apoiou-se nos joelhos para se levantar; ao levantar, apertou a mão esquerda na borda do banquinho até ficar firme.
— Então hoje não vá embora — disse ela. — Vou fazer um prato.
Norma 5 de execução: o pessoal em visita no local não pode revelar informação da conta além do valor da mora. Passou a norma pela cabeça e, ao terminar, descobriu que não tinha nada a dizer.
Ela abriu a porta da geladeira.
Daquelas de duas portas, branca, com uma marca preta na borracha da borda. Lá dentro nada acendeu. Ela estendeu a mão, tateando.
— A luz queimou — disse ela. — Há 2 anos. A lâmpada, 5; o técnico que sobe para trocar, 20.
Tirou uma peça de panceta num saco plástico, a boca do saco torcida num nó. A carne, dura de congelada, com uma camada de gelo branco nas bordas.
Na porta da geladeira, um bilhete colado.
Papel branco, arrancado, a borda superior desigual. Uma frase, caneta esferográfica, azul:
Fechei o gás?
Embaixo, prensando o bilhete, um ímã: redondo, de borda vermelha, no meio o nome de uma farmácia e o telefone impressos. O número tinha 7 dígitos; faltavam 2 no meio, e no lugar deles, branco, não traço.
Liang Cheng examinou o bilhete. O gancho final do último caractere subia, limpo, sem hesitação. Olhou para o balcão: na borda, outro bilhete colado, também papel branco, escrito «o arroz está no armário». Aquele tinha também um gancho assim? Não. Voltou ao primeiro. Olhou os cantos dos dois papéis: nos dois, o canto inferior direito, plano, sem enrolar nem um pouco.
— Quem escreveu?
— Escrevi eu — disse ela. — A memória anda fraca; colei para eu mesma ver.
Pôs a carne na tábua e pegou a faca.
— A gente envelhece: com a água no fogo, dá para se afastar; afastou, já não lembra por quê — disse ela. — Não faça como eu.
A faca estava sem fio. Cada pedaço pedia dois puxões, um e outro; no segundo, ela carregava a mão. A carne era congelada: no meio do corte a faca travava, ela erguia a faca e cravava noutro ponto.
Os pedaços saíam desiguais: os grandes, do tamanho de uma caixa de fósforos; os pequenos, metade disso. Ela apartou os grandes.
— Os grandes são para você.
Na tábua, cicatrizes velhas de faca, uma sobre a outra em diagonal, e no meio uma cavidade rasa cavada a pancada. Espalhou o gelo branco raspado do saco na borda da tábua, sacudiu o saco plástico duas vezes, virou-o, dobrou em quadrado, puxou a gaveta embaixo do balcão e guardou. Na gaveta já havia uma pilha, presa com um elástico.
— Este, lavado, ainda serve — disse ela.
A panela era de ferro, o fundo de fora coberto de uma camada preta. Pôs a panela no fogo, chama média, esperou a umidade de dentro sair e despejou o óleo. O óleo vinha de uma garrafa plástica; no costado, ainda as marcas da mão da vez anterior.
— Primeiro, escaldar — disse ela. — Começa na água fria; fervendo, tira a espuma. Bem tirada, senão fica com cheiro de carne crua.
A carne foi para a água. Ficou à espera junto à panela com uma escumadeira; subiu a espuma, e ela foi retirando colherada a colherada para uma tigela vazia. A espuma na tigela, cinza e branca, amontonada.
— O caramelo de açúcar tem de saber fazer — disse ela. — Panela quente, pouco óleo, duas colheres de açúcar branco; derretido o açúcar, na hora em que a cor puxa para o vermelho, entra a carne. Um segundo de atraso e amarga.
— Duas colheres é quanto?
— Duas colheres e ponto — disse ela.
Fez com a mão firme. O açúcar se espalhou pelo fundo; primeiro bolhinhas na borda, as bolhas se unindo da borda para o centro, a cor do branco ao amarelo ao vermelho. Meteu a carne de uma vez; a panela estalou. Pegou a espátula e foi virando, sete, oito viradas, cada pedaço pintado.
— Meia colher de molho de soja escuro e um anis-estrelado — disse ela. — Exagerado, amarga; seu pai não gosta de amargo.
Ergueu a cabeça e puxou o cordão embaixo da coifa; a máquina soou uma vez, girou meia volta e parou.
— Esta está quebrada — disse ela. — Deixo para o meu filho consertar quando voltar.
A fumaça subia, na diagonal, para o lado da janela.
— Despeja água fervendo, até cobrir a carne; fria não: a fria aperta a carne de repente.
Despejou a água do termo; mal entrou, o som da panela ficou abafado.
— Tampa, fogo baixo, vinte minutos.
Acima à direita: 11:20.
Onze minutos.
Apertou bem a tampa, trouxe um banquinho baixo e sentou diante do fogão, as mãos nos joelhos. Pela borda da tampa começou a sair vapor: um fio, sempre pela mesma abertura.
— O senhor Guan veio bater na porta há uns dias — disse ela. — O aposentado da casa de caldeiras. Ficou esperando a ligação do filho a manhã inteira dentro de casa, a cara toda branca.
Correu a tampa uma fresta, olhou, fechou de volta.
— Eu disse para vir sentar comigo, que aqui tinha água. Ele não quis sentar, disse que tinha medo de perder a ligação.
— E no fim ligou?
— Não perguntei — disse ela. — Esperar desse jeito, não vale.
O som da panela, abafado, em ondas.
— Vinte minutos você não vai esperar — disse ela. — Vou tirar já um pedaço para você.
— Ainda não está no ponto.
— Fora do ponto também se sente o gosto — disse ela. — Prova o gosto.
Metou os pauzinhos na panela e apanhou o pedaço maior, estendendo na direção dele.
【Contato bloqueado】
A mão dela parou no ar; o pedaço nos pauzinhos tremia. O braço recuou e estendeu de novo.
【Contato bloqueado】
— Esse menino — disse ela.
Pôs o pedaço numa tigela de porcelana branca, um pequeno lasco na borda. Deixou a tigela no balcão e deu um passo atrás.
— Pega você mesmo.
Liang Cheng pegou a tigela. O sistema não avisou nada. A tigela estava quente, com um calor concreto: um aro de queimado nas polpas dos dedos. Passou a tigela para a mão esquerda.
Mordeu um pedaço.
A carne, macia; a camada da pele, grudenta, e os dentes precisavam de uma pausa antes de cortar. Na parte magra, fibras, as fibras numa única direção. Quente.
【Módulo do paladar: eliminado (lote de degradação D-03)】 【Renderização atual: nenhuma】
As duas linhas pendiam no canto inferior direito, um tom mais apagadas que o número do relógio.
Mastigou sete vezes e engoliu.
— Está salgado? — perguntou ela.
— Não.
— Espere.
Levantou a tampa, agarrou o saleiro e jogou sal na panela. Depois mexeu com os pauzinhos, molhou a ponta e passou no próprio lábio.
Jogou de novo.
— A língua da mamãe não anda boa esses dias — disse ela. — Tudo tem o mesmo gosto. Os remédios de antes, amargos, e a mamãe nem sentiu.
Estendeu a mão pela terceira vez para o saleiro.
— Basta — disse Liang Cheng.
A mão dela parou sobre o saleiro.
— Se você diz que basta, basta — devolveu o saleiro ao parapeito. — Desde que você sinta, está bom.
Apertou a tampa de volta.
Voltou ao banquinho.
— Quando era pequeno, você não comia carne — disse ela. — A um ano e meio, o que quer que se lhe desse, vomitava, magro a ponto de ver os tendões nos braços. Depois veio a febre, quarenta graus; seu pai estava na estrada, fora de casa, e eu pedalei o triciclo levando você ao hospital: de madrugada, na estrada, uma alma só. Chegando, você ainda sorriu para mim.
— Isso você já contou.
— Contado, contado — disse ela. — Repetir é de graça.
Estendeu as mãos sobre os joelhos e olhou para ele, de baixo para cima.
— Você emagreceu.
— Não.
— A carne do rosto foi embora — disse ela. — Antes a sua bochecha aqui era redonda.
Ergueu a mão e marcou a própria bochecha, como medindo; depois deixou a mão cair.
— Esse turno de vocês...
Ela parou.
Três segundos parada. Esfregou as mãos nos joelhos.
— Deixa — disse ela. — Tem carne na panela.
Acima à direita: 08:05.
Deixou a tigela de volta no balcão.
— Tenho uma coisa para comunicar à senhora.
— Diga.
— No sistema há uma figura, a degradação voluntária — disse ele. — A personalidade da conta pode pedir por iniciativa própria a redução de nível, e o custo desce. O nível da senhora agora: 45 por mês. O mais baixo de todos: 8 por mês.
Ela brincava com um pedacinho de cimento ao lado da perna do banquinho.
— Oito.
— 96 por ano — disse ele. — O pedido exige a confirmação da própria pessoa; do meu lado, reavaliação em até 72 horas. Na confirmação, grava-se uma frase com a voz da senhora.
— Noventa e seis — repetiu ela o número.
— Hm.
— E vocês, do que vivem? — disse ela.
Ele não respondeu.
Ela assentiu uma vez.
Ele esperou.
— Você come alho? — disse ela.
— Como?
— Há gente que põe alho neste prato — disse ela. — Seu pai não deixa, diz que abafa o gosto. Se você quiser, eu descasco dois dentes.
Liang Cheng olhava para ela. Os olhos dela não desviavam. A mão dela seguia empurrando o pedacinho de cimento, empurrou para debaixo da perna do banquinho; quando não alcançou mais, parou.
— Não como — disse ele.
— Então não ponho.
Norma 5: não revelar informação da conta além do valor da mora. O que ele acabara de dizer passava da linha. O sistema não cortou. A ata registraria.
Acima à direita: 04:12.
O som da panela diminuiu; a água reduzia.
— Limpa bem o fio dessas vagens — disse ela. — Naquela bacia há algumas que eu não desfiei direito; meus olhos já não veem. Fio velho, os dentes não cortam, enrosca.
A bacia no chão, encostada ao banquinho.
— O fio pega na ponta e puxa para baixo — disse ela. — Se chegar ao fim e não romper, dobra de volta e segue puxando.
【Restante: 01:00】
O número ficou um pouco mais branco.
Liang Cheng se abaixou e estendeu a mão.
As pontas dos dedos pararam numa camada acima da borda da bacia; pressionar para baixo não dava, como apoiar numa camada de alguma coisa — não dura, simplesmente não deixava passar.
【Contato bloqueado】
Ele retirou a mão.
Ela olhava a mão dele.
— Deixa — disse ela. — Senta.
Ela mesma levantou a bacia, pôs no colo, apanhou uma vagem e procurou o fio.
— Esse turno de vocês não é ocupado — disse ela. — Está aqui há um bom tempo.
【00:30】
O número começou a piscar.
A mão dela, nas vagens. A chaleira, no fogo. Pela abertura da tampa saía um fio de vapor; o fio subiu um palmo e se dispersou.
O cinza, lá fora, na varanda.
Preto.
O couro do encosto; no braço da cadeira, a esponja à mostra pelo rasgo, o dedo médio direito apoiado em cima. Ele não se levantou.
Boca seca. A língua colada ao céu da boca; precisou de força para desgrudar.
Wu Yan foi descolando as placas uma a uma; as duas da nuca, mais devagar.
— Água.
Um copo descartável de papel, meio copo, morno.
— Beba devagar — disse Wu Yan. — Um gole de cada vez.
Liang Cheng bebeu dois goles; ao descer, a água fez soar a garganta. Ficou com o copo na mão, sem pôr.
O relógio da parede: 10:31.
Na tela, saiu:
【A visita profunda terminou】 Posto de acesso: DA-P03 Conta: Zhou Sufen / AC-0417 / TL-0417 Acesso: 10:01 — Saída: 10:31 Duração da sessão: 30:00 (cobrada por 30 minutos) Cobrança: 2.00 yuans/minuto × 30 = 60.00 yuans
【Liquidação】débito da pré-autorização realizado.
O celular vibrou na gaveta. Ele abriu a gaveta: débito no banco, 60.00; saldo, 3,357.62.
A segunda seção da tela:
【Total pendente de liquidação da conta】 Principal de mora e encargos: 41,386.50 Custo de disposição desta visita: 60.00 Total: 41,446.50
【Geração da ata】faltam dois campos a preencher.
Primeiro: resultado do objetivo da visita. O menu, três opções:
○ A personalidade expressou de forma explícita vontade de continuidade ○ A personalidade expressou de forma explícita vontade de renúncia ● Nenhuma expressão de vontade obtida
Escolheu a terceira.
Segundo: grau de cooperação da personalidade. Três opções: cooperou / regular / não cooperou.
A norma 4 dizia: a personalidade não pode recusar-se a responder ao pessoal em visita no local nem encerrar a sessão. Ela não se recusou uma única vez, nem encerrou. Falou de vagem, de caramelo de açúcar, de número de sapato, de 8 yuans por mês. A gravação na íntegra gera transcrição, e tudo aquilo conta como resposta na transcrição.
Rolou a ata até o fim; a última linha dizia: ata gerada automaticamente pelo sistema, sem revisão humana.
Tocou «cooperou».
Enviou.
【Número da ata: DA-R-0417-001; conservação: 3 anos.】 【Cota mensal restante: 3.】 【Próximo acesso possível: 2023-11-22 10:31.】
A página não fechou; embaixo flutuou uma janelinha:
【Avaliação da experiência deste acesso (opcional)】★★★★★
As 5 estrelas, vazias. Ao lado, uma linha miúda: sua avaliação será usada para otimizar o serviço.
Tocou o x do canto superior direito. A janelinha se recolheu; antes de recolher, piscou.
Wu Yan recolhia os cabos, um a um, enrolando de volta nos encaixes.
— O seu foi dos estáveis — disse ele. — Semana passada teve um que, 8 minutos lá dentro, apertou sozinho o botão vermelho.
— Dá para apertar o botão vermelho?
— Dá — disse Wu Yan. — Do lado de cá, dá. O de dentro, não.
Tirou a pêra de soprar da gaveta e soprou uma vez para o teclado.
Liang Cheng bebeu a água que restava no copo de papel e se levantou. Ao levantar, a vista foi a escuro por um segundo; segurou o encosto da cadeira.
Baixou os olhos para o vão entre o polegar e o indicador da mão esquerda. A coisa rosa-pálida estava lá.
Ao sair, passou por baixo do quadro branco. No quadro, «Acessos este mês: 11»: o 11, apagado, mudado para 12; a mão que mudou tremia, e da metade de baixo do 2 saía um risco para fora.
Ao pé da escada, junto ao bebedouro, Su Man, enchendo a garrafa térmica.
— Saiu.
— Saí.
— Ela te reconheceu?
— Reconheceu.
Su Man rosqueou a tampa; precisou de duas voltas para encaixar a rosca.
— Terminou de ler?
— Terminei.
— Ela recusou você alguma vez?
— Não.
— Ela não pode — disse Su Man.
Ela subiu com a garrafa térmica; no terceiro degrau, parou.
— Aquele plano seu.
— Ainda não entreguei.
— Sem pressa — disse ela.
Subiu mais dois degraus.
— Essa avaliação aí, não preencha — disse ela. — Preenchida, levam para as reuniões.
A torneira do banheiro era de sensor: a mão tinha de ficar embaixo, um pouco à esquerda, para a água cair. Juntou água nas mãos duas vezes e jogou no rosto; ergueu a cabeça. Na borda inferior do espelho, um anel de pontos de pasta de dente, secos. Hoje ele não tinha posto gravata; o cordão do crachá pressionado dentro do colarinho deixava uma dobra.
Olhou as próprias bochechas no espelho. Dois segundos.
A água parou sozinha.