Terça-feira, 9:28.
Esvaziou o copo da mesa; o resto no fundo, sacudido na pia. Norma 1 de execução: nos 30 minutos antes do acesso, proibido comer e beber. Desde as 20:00 da véspera não comia; de manhã passou pela casa de macarrão e não entrou; o dono passava o esfregão na porta e ergueu os olhos para ele.
— Hoje não come?
— Hoje não.
O dono puxou o esfregão e o deixou passar.
No extremo oeste do 3.º andar ficava a zona DA: quatro portas. Na DA-P01, o ímã da porta virado para a face vermelha: ocupado. No puxador da DA-P02 pendia uma plaquinha de plástico com «manutenção» escrito à mão, de traço grosso; quem escreveu usou caneta. O ímã da DA-P03, verde.
O operador de plantão se chamava Wu Yan; no crachá, «operações», matrícula L-0562. Estava soprando poeira do teclado com uma pêra de soprar rosa, aperto a aperto, a poeira pulando nas frestas das teclas.
— O crachá.
Liang Cheng estendeu. Wu Yan escaneou o código e ainda pediu a digital: indicador direito, duas vezes; a primeira não leu.
— A pressão.
A braçadeira era velha, o velcro embolaçado. Os números saíram: 132/86, pulso 88. Wu Yan leu em voz alta e tocou «apto» na tela. Desprendeu a braçadeira, enrolou num aro, fechou com o velcro, o lado embolaçado para dentro.
— O jejum, assine aqui.
Liang Cheng assinou. O campo do formulário dizia: o solicitante declara por si não ter comido nem bebido nos 30 minutos anteriores ao acesso. Declara por si. A expressão ele notou depois de assinar.
— Espere lá fora 10 minutos — disse Wu Yan. — O anterior acabou de sair; a posição tem de rodar um ciclo de limpeza.
A área de espera era de três bancos corridos; duas pessoas já apertavam. Na parede, plastificada, uma folha das Normas de visita profunda: os cantos enrolados, a letra branqueada pelo sol; da linha da norma 3 não se lia o conteúdo. Ao lado, um quadro branco pequeno: «Acessos este mês: 11», e atrás do 11 um traço que não se apagava de todo.
Na outra ponta do banco, sentada, uma mulher de uns quarenta, um envelope de papel kraft no colo, a boca fechada com um fio de algodão enrolado. Olhava o celular; a tela, escura.
Ao fundo do corredor, uma porta soou e uma voz chamou número: DA-P04.
Ela se levantou, abraçou melhor o envelope e foi. Ao passar, deixou um rastro de cheiro de remédio. No banco, o lugar onde tinha sentado voltava a encher devagar.
Tirou do bolso interno os dois papéis dobrados, deu uma olhada e os guardou de volta. O térmico estava mais macio que na sexta; nos vincos, já pelando.
Faltando 3 minutos para as 10:00, Wu Yan gritou P03 de dentro.
A cadeira era das de encosto; num braço, um lugar despintado; no braço direito, o couro rasgado num pedaço do tamanho de uma unha, a esponja de dentro à mostra, amarela. No assento, um fio de cabelo branco, mais longo que o dele. Não tocou.
Wu Yan foi colando as placas: duas na nuca, duas nas têmporas. A pasta condutora, fria, cheirava à cola da época da escola primária.
— Não corra lá dentro — disse Wu Yan. — Correndo, a renderização não acompanha, e para você a cena trava. Se alguma coisa bloquear, não force; contorne.
— Entendi.
— O relógio fica acima à direita de você; olhe você mesmo. Os últimos 30 segundos, pisca. — Endireitou os cabos. — Acabou de piscar, cai. Não é você que cai: é a cena.
Na tela saltou a página de confirmação, três caixas:
□ Declaro ciência: é proibido contato físico com a personalidade, incluído entregar e receber objetos. □ Declaro ciência: limite de 30 minutos por sessão; vencido o prazo, saída forçada, sem reposição de tempo. □ Declaro ciência: a sessão é gravada na íntegra e gera ata; a ata se conserva 3 anos.
Marcou os três.
【Pré-autorização congelada: 60.00 yuans. Terminado o acesso, liquidação pelo tempo real; o minuto incompleto conta como completo.】
Abaixo, uma linha num corpo menor: o custo desta visita é incorporado ao total pendente de liquidação da conta AC-0417.
— Mais uma — Wu Yan jogou a pêra na gaveta. — Ao sair, não se levante de imediato.
10:01, carregando.
【Lista de cenas】 Cozinha (completa) Varanda (incluída · módulo de paisagem não adquirido) Sala (eliminada · espaço reservado) Quarto (eliminado · espaço reservado) Banheiro (não adquirido)
【Módulos sensoriais】 Audição (incluída) Visão (incluída · nitidez 720) Tato (baixa precisão) Paladar (eliminado) Olfato (eliminado)
A barra de progresso parou 2 segundos no meio do caminho e terminou de andar.
Primeiro veio o som.
Uma chaleira de alumínio sentada no fogo: a água perto do ponto, a tampa erguida e repousada, uma vez e outra, ferro contra ferro. Um segundo som, mais perto, crepitante, em trechos: vagem sendo desfiada.
Depois veio a luz.
A cozinha não era grande: quatro passos e meio de ponta a ponta. No balcão, azulejos brancos, as juntas amareladas; na fileira junto à parede, uma gordura que não sai com nada. Fogão a gás de duas chamas: na direita, a chaleira; a esquerda, livre; na borda da placa, um anel de mancha seca de caldo. No costado da coifa, um recibo colado; a parte da data, encharcada de gordura, sem número legível. Na torneira, um pano de prato dobrado em três, as bordas alinhadas. No parapeito da janela, um pote de vidro com pimenta-sichuan; a tampa era de outro pote e não fechava. Atrás da porta, um prego com uma sarta de sacos plásticos, e dentro de cada saco, outro saco.
Ela sentada no banquinho dobrável, uma bacia de alumínio no colo. Casaco de tricô azul-marinho, as mangas dobradas duas voltas, os antebraços à mostra, finos. Nos pés, chinelos de plástico: o do pé esquerdo com uma rachadura na tira, colada com alguma coisa. No cabelo, atrás da orelha, uma presilha preta; à presilha faltava uma continha.
Desfiava uma vagem: cortava as duas pontas, quebrava o meio em três pedaços e jogava na bacia. O branco do corte da vagem, nítido; um fio ainda ligado. O desenho do dorso da mão dela, passada certa distância, se dissolvia numa pele lisa e plana; da unha não se via a borda.
Liang Cheng baixou os olhos para as próprias mãos. Não estava a velha queimadura no vão entre o polegar e o indicador da mão esquerda — o óleo que saltara de uma panela de macarrão há 3 anos, que só no ano passado clareara para um rosa-pálido; agora aquela pele estava limpa. Mãos de 27 anos.
Ergueu os olhos. Ela ainda não o olhava.
A porta de correr estava aberta numa fresta. Na varanda, o varal cruzava, com três prendedores de plástico; a corda estendia 2 metros para fora e acabava. Lá fora, cinza. Uma placa uniforme, sem tons, sem borda, onde o olho não achava onde pousar. No vaso, cebolinha plantada, verde; na borda do vaso, um anel branco de cal.
— Hoje a névoa está grossa — disse ela. — Não abra a porta.
O número acima à direita: 28:41.
Recuou meio passo e ficou ereto.
— Bom dia. Sou especialista de disposição de contas terminais da Anxu Tecnologia, matrícula L-0284.
Ela partiu uma vagem.
— Hoje vim notificá-la pessoalmente sobre a continuidade e os custos da conta em seu nome.
— Sente-se, camarada — disse ela.
Junto ao banquinho dobrável havia um banquinho quadrado; no assento, uma marca circular desbotada, de anos de coisas pousadas. Ela estendeu a mão e o empurrou para fora; ao empurrar, as pernas rasparam no cimento.
Liang Cheng não sentou.
【Roteiro em leitura (1/3)】
— Segundo os registros do sistema, desde a data de carregamento a conta da senhora acumulou tarifas de serviço de armazenamento, taxas de processamento de degradação e encargos por mora. Até hoje, a mora soma quarenta e um mil trezentos e oitenta e seis yuans e cinquenta.
A água ferveu. Ela deixou a bacia, levantou para desligar o fogo, e desligou com jeito: uma pressão do pulso e a chama a zero. Pegou a chaleira e despejou no termo. Aos sete décimos, parou, mediu a linha da água com o olhar e despejou um pouco mais.
— Toma água ou não toma?
— Não precisa.
— Está acabada de ferver.
— Não tomo.
Tampou o termo e voltou ao lugar.
Atrás vinham 6 linhas de detalhamento: uma linha, um item; uma linha, uma data. As 6 linhas não estavam no roteiro; o roteiro só trazia o total. Não leu.
【Roteiro em leitura (2/3)】
— Não liquidadas no prazo regulamentar, as referidas tarifas levaram a conta à fila terminal, número da fila TL-0417. Durante a permanência na fila, a taxa de ocupação da posição é cobrada por dia, à base de quinze yuans por dia.
— Quinze — disse ela.
Ele parou.
— Não dá para um jin de carne — disse ela. — Não fique aí de pé, que cansa as pernas.
Ele baixou os olhos para os próprios pés. Sapatos de couro de 27 anos; na ponta do direito, um pedacinho batido a branco, de uma pancada na perna da mesa da sala de treinamento.
Ela estava dizendo o que 15 yuans compram. Esperou 2 segundos, confirmou que não pretendia perguntar o que vinha atrás, e seguiu lendo.
【Roteiro em leitura (3/3)】
— Não liquidada a totalidade da mora antes do vencimento do cronograma, a conta entrará no processo de eliminação. Após a eliminação, os dados não são recuperáveis; a operação é irreversível. Comuniquei-lhe todo o conteúdo acima; esta sessão está sendo gravada na íntegra.
Ao pronunciar «irreversível», ele ouviu a própria voz. Uma voz de 34 anos saindo do lugar onde estava aquela cara de 27.
【Roteiro: 3/3. Leitura do roteiro registrado encerrada.】
Acima à direita: 18:20.
147 caracteres; somados os lugares em que ela interrompeu, 11 minutos e 40 segundos.
【Aviso: formulações fora do roteiro devem ser registradas em separado na ata.】
O comentário da Conformidade estava no papel no bolso dele: sugere-se manter a expressão explícita da palavra «dívida». O que ele acabara de ler era «mora». «Mora» era o que vinha impresso no roteiro. Na ronda de registro, ninguém mudou a palavra.
Ela acomodou para o centro as vagens desfiadas da bacia.
— Essas vagens comprei hoje de manhã: 1.20 — disse ela. — Caro. O barraque da frente era 0.80; hoje não montou.
— Hm.
— Não repare se está murcha: murcha pega o tempero. — Puxou o fio de uma. — Seu pai não come isto, diz que desgasta os dentes.
— Hm.
— Já comeu?
— Comi.
— Comeu o quê?
Ele parou um instante. — Macarrão.
— Macarrão de manhã estufa — disse ela.
Quebrou uma vagem em três.
— Esse seu quarto, o aquecimento esquenta ou não?
— Esquenta.
— Esquentando, está bom. Se não esquentar, aqui tenho uma manta elétrica, comprada nos anos 80, ainda serve.
— Não precisa.
— Fica guardada para você — disse ela.
O aviso de gravação, no canto inferior esquerdo do campo de visão dele: um ponto vermelho, sem piscar.
— Semana que vem é o aniversário dele — disse ela. — Vou comprar um par de sapatos para ele. Número 43, tem de ser de forma larga; estreito ele não calça, dois dias andando e o peito do pé fica com uma marca vermelha.
Liang Cheng olhava para ela. As mãos dela não paravam.
— Anteontem veio a senhora Wang — disse ela. — Trouxe uma foto para me mostrar: a filha da segunda irmã dela, que cuida da farmácia num hospital. Eu disse que o meu mais velho está muito ocupado.
— A foto ficou lá em casa, em cima da máquina de costura.
Cortou as duas pontas de outra vagem.
— A máquina eu vendi, por 40 yuans — disse ela. — A foto ficou sem lugar para ficar.
Terminou e riu um pouco, para si; riu e voltou a desfiar.
— Seu irmão ligou — disse ela. — Disse que está ocupado.
— Quando?
— Anteontem ou assim. — Ela pensou. — Ou foi semana passada.
Ele não recolheu.
Ela pegou um punhado de vagens desfiadas, ergueu na direção dele.
— Segura.
A borda da bacia de alumínio chegou até ele. Ele deu meio passo atrás.
【Contato bloqueado】 【Aviso: proibido contato físico com a personalidade, incluído entregar e receber objetos (norma 6 de execução)】
A linha pendurou 2 segundos diante dos olhos dele e se desvaneceu.
Ela recolheu a bacia, pôs no colo e lhe deu uma olhada.
— As mãos, eu lavei — disse ela.
— Sei.
— Vocês, quando vêm à casa, não aceitam nada — disse ela. — O da outra vez foi igual. Servi água e ele não quis.
O da outra vez. Ele repassou de cabeça: registros de operação do executor em 5 anos, dois: a assinatura do contrato e o acesso de voz. Visita profunda, esta era a primeira. No sistema não havia ninguém que tivesse ido à casa.
— Quando foi que veio?
— Que dia, não me lembro — disse ela. — Usava um crachá pendurado, parecido com o seu. Ficou um tempo parado e foi embora.
Ela abaixou a cabeça e voltou a desfiar.
— Esse turno de vocês, a que horas termina?
— Sem hora fixa.
— Sem hora fixa quer dizer tarde — disse ela.
Acima à direita: 15:52.
Para dentro da cozinha havia uma porta: batente de madeira, a tinta descascada pela metade, a porta aberta.
Do lado de fora, uma superfície de cinza parada no vão.
A parede tinha espessura, sombra, rodapé. O cinza estava colado ao batente, rente à borda: não saía um milímetro, não entrava um milímetro. Deu dois passos naquela direção; o terceiro não veio: diante da ponta do sapato havia uma camada que não deixava passar.
— Aquele quarto está uma bagunça — disse ela de trás. — Não entre.
— A sala.
— Não tive tempo de arrumar de manhã — disse ela. — Tem roupa amontoada no sofá.
Ele voltou. A porta seguia aberta. O cinza do batente, parado.
Deu uma olhada na direção da varanda.
A corda se cortava nos 2 metros. O corte não era desigual nem borrado: simplesmente não havia mais. O cinza esperava ali, parado. Três prendedores de plástico pendurados na corda, com o mesmo espaçamento.
— Quando a névoa passar, vá ficar um pouco na varanda — disse ela. — Este quarto é virado para a sombra.
— Lá fora não tem nada.
— Com névoa é assim — disse ela. — Antes dava para ver o prédio da frente, a gaiola na varanda de lá, para criar pássaro. Dia limpo, aparecia.
— Quando é que o dia vai limpiar?
Ela não respondeu. Puxou o fio de uma vagem de ponta a ponta; o fio rompeu, e ela seguiu puxando do ponto onde rompeu.
A chama do fogão gotava: eram gotas do fundo da chaleira. Ao cair na placa, o som era miúdo.
Levou a mão esquerda ao bolso. No bolso do uniforme não havia nada — o avatar não tinha bolso, nem aqueles dois papéis dobrados. A mão apertou o pano e encontrou a própria perna.
【Aviso: o relógio interno equivale 1:1 ao exterior. Restante: 14:09.】
Não tocou na linha. Ela tinha vindo sozinha; veio e se foi.
Ela pôs a bacia no chão, enxugou as mãos na calça e ergueu a cabeça.
Olhou para ele.
Olhou mais tempo que antes. O rosto, a gravata, o nó torto da gravata.
— Essa gravata, de novo torta — disse ela.
Liang Cheng não se moveu.
Os olhos dela desceram um dedo e voltaram, e se pousaram no queixo dele. Os lábios se moveram um instante, como conferindo alguma coisa.
— Você é o Xiao Cheng, não é?
Na cozinha só se ouvia a água pingando do fundo da chaleira.
— A voz mudou — disse ela. — A pessoa, não.