Na noite do dia vinte e um do último mês lunar, o telefone de He Che chegou, dizendo que queria ir a casa, com algumas coisas, que por telefone não se explica; falando, do outro lado havia som de folhas viradas, uma a uma, sem pressa. Ele disse, deixe as duas fitas preparadas. Ele disse, e o calendário de mesa. Ela perguntou, o calendário pra quê. Do outro lado ele parou um instante, e disse: pra conferir a conta.
Na manhã do dia seguinte ele veio; a mala de rodinhas era a da roda que soa, e no corredor ela já tinha ouvido. Da mala saíram três volumes impressos, duas caixas de fichas, um caderno preto, um rolo de xerox prensado por elástico. Ele dispôs as coisas na mesa numa ordem que ela reconhecia — a da lousa dele, da esquerda pra direita, do velho pro novo. Na ponta direita ele deixou um espaço vazio, e disse: essa casa fica pra você.
O primeiro a abrir foi o livro-registro. Os volumes encadernados dos trinta anos ele não conseguiu levar emprestado; trouxe transcrição, transcrição da mão dele, um ano por linha, trinta linhas. Cada linha terminando num número. Os trinta números ele ligou numa linha só, desenhada num papel quadriculado; o papel, de quadrados; a linha, de lápis; desenhada, pôs o lápis de lado, e disse: veja.
Ela viu. A linha tornava à mesma data a cada vinte e nove anos, com erro de não mais que dois dias; tornando à data, a magnitude vinha quatro por mil abaixo da volta anterior de vinte e nove. Essas duas coisas ela tinha feito meia vida; de olhos fechados sabia de cor. Ela ficou esperando o resto.
He Che disse, eu tratei essa linha sempre como registro. Registro é que tem período, desses de pêndulo. — Uma pausa. Ele disse, no mês passado eu deixei de ver assim. Pôs a ponta da caneta na ponta direita da linha e a levou no ar pra fora do papel, pra fora dos quadrados. Ele disse, cada volta, quatro por mil abaixo da anterior. Até acabar de baixar. Ele disse, ele não se repete. Ele está numa contagem regressiva.
A casa calou um tempo. A voz da água nos radiadores entrou no lugar.
Ela disse, contar até que dia.
He Che pegou o calendário de mesa dela, virou até o último mês lunar, depois até o primeiro, e estendeu plano na mesa. Ele disse, esse número que você conta, no dia oito restavam trinta e cinco, não é. Ele disse, eu estendi pra trás. Esticada dois ciclos de vinte e nove, a linha mostra: antes da Primeira Sessão havia mais um ciclo de vinte e nove; o livro-registro é mais velho que o regime; o regime tem trinta anos, a linha anda há mais de trinta. Ele disse, o volume verde encadernado, o primeiro, eu fui folhear: no interior da capa, antes da primeira página, havia uma etiqueta colada; rasgada, restou meia; na meia, um caractere: Sessão. Ou seja, antes do primeiro volume havia outro volume, que não entrou no acervo. Ele disse, peguei a linha da magnitude sete e projetei pra fora — quatro por mil, quatro por mil, volta após volta multiplicando —, e deu um número, um número não grande, seguido de um ano. Capou a caneta e disse: projetei três vezes. As três, deu ele. Ele disse, no dia em que Zhou Shu completa doze anos, na linha, zero.
Ela pôs a mão sobre o calendário. O papel do calendário, frio; a mão dela, mais quente que o papel. Ela lembrou o próprio ano de doze — a ficha de avaliação, terminação, sem resíduo, a assinatura da mãe com o traço final subindo num gancho; lembrou a parte que sobrou do dossiê, no segundo subsolo do arquivo; lembrou os quatro minutos no palco, na noite do dia um do último mês lunar. Todos os dias de trinta anos de regime, neste papel quadriculado, eram uma linha descendo; na cabeça da linha, uma data; a data era o aniversário de Zhou Shu.
Ela disse, uma tabela de horários.
He Che disse, hum. Ele não disse a palavra morrer. Palavra nenhuma ele disse.
O segundo a abrir foi a caixa de fichas. A de um a cinquenta ele não tocou; abriu foi a outra — cinquenta fichas, cada uma com número só. Ele disse, as cinquenta palavras cortadas na Sétima edição, eu trabalhei seis anos, tratando-as sempre como casas vazias. Palavra que falta, é repor e pronto. — Uma pausa. Ele disse, semana passada virei esta caixa na mesa, uma a uma, a noite inteira; passei seis anos de casas vazias, e de repente vi que elas não estão vazias.
Ela perguntou, como assim viu.
Ele disse, pela posição.
Ele enfileirou a caixa na mesa, cinquenta e um a cem, os números pra cima. Ele disse, conta as casas. Cinquenta casas, e cada uma tem um par dentro de um a cinquenta. Tirou a ficha quatro, tirou a cinquenta e quatro, e as pôs lado a lado: a quatro é tigela. A cinquenta e quatro, as crianças nunca deram conta. Ele disse, a cinquenta e quatro, se um dia sair traduzida, devia ser — disse metade da frase, parou, e trocou: aquilo que o chinês não segura. Tigela pousou, a mão ainda não ousa soltar — esse pedaço, em chinês, uma palavra e acabou: pousou, acabou. As palavras de lá, enquanto a coisa não acaba, a palavra não acaba. He Laosan, lá pelos vinte anos, já tinha dito: o que eu escuto é o relato; o que você escuta é a fala original. Ele disse, é esse pedaço que a cinquenta e quatro carrega. Cinquenta palavras de coisas, cinquenta desses pedaços. Ele disse, a coisa é de dentro de casa; o pedaço é entre as duas casas.
Ela foi contando as fichas. Contando, parou na trinta e sete. A trinta e sete, palavra de coisa, a casa que ela nunca deu conta na vida. Tirou a trinta e sete, procurou a oitenta e sete, e as pôs lado a lado na mesa. Ela disse, essa casa, vazia dos dois lados. He Che olhou, sem tocar na caneta. Ele disse, uma casa vazia dos dois lados. — Uma pausa. Ele disse, eu anoto, e não pergunto.
Do rolo de xerox ele tirou uma folha e a empurrou. O papel era dos que têm vazado do dossiê do caso, do lote entregue junto com a parte que sobrou do rolo. No papel, letra de criança a lápis; na linha impressa, dois caracteres: motivo. A linha dizia: Essas palavras são como tigelas da casa dos outros, em casa não temos arroz para servir.
Ela abaixou os olhos. A letra era letra dela. Da ela de sete anos, o traço pesado; a última travessa daquele servir saía da linha. Desta página ela não tinha visto nenhuma na vida; desta frase ela não lembrava de tê-la escrito — a aula do dia oito, essa ela tinha na boca havia trinta anos; esta frase não estava na boca, e não estava em papel nenhum dela; estava deitada num papel de trinta anos, esperando hoje sair do dossiê. Ergueu a folha, tornou a pôr, os dedos ficando um tempo sobre as palavras tigelas da casa dos outros. Ela disse, em casa não temos arroz para servir. Ela disse, naquela época já sabia que não dava pra servir.
He Che não pegou essa frase. Escreveu uma coisa no caderno preto, o elástico apertando o pulso. Ele disse, a esta classe de palavras eu dei nome; quando pus no papel, era com interrogação. Virou o caderno pra ela ver: no papel, quatro caracteres, fala de guarda, o ponto de interrogação riscado, riscado com força. Ele disse, lendo em voz alta, engoli o ponto de interrogação. Ele disse, cinquenta palavras, cinquenta entregas. Quando um adulto de uma casa viaja longe e deixa a criança com o vizinho, a fala é essa aí: onde fica a tigela, como se olha aquele pedaço antes de a água abrir, coisa entregue pela metade não solta a mão. Ele disse, ele não está ensinando língua. — Uma pausa. Ele disse, ele está entregando.
Ela lembrou a frase do fogão da velha fábrica, e disse, Wei Dongquan disse, as palavras são coisa de depois.
He Che registrou a frase tal e qual; registrado, disse, seis anos, mil e duzentas páginas escritas, que não valem esta frase. Ele disse, as palavras são coisa de depois — a coisa vem na frente. Ele primeiro tinha uma coisa a entregar; só depois precisou de cinquenta palavras pra entregar. As crianças seguram primeiro a coisa; as palavras, vazias; os números, ficaram guardados pra palavra. Ele disse, por isso, cortadas aquelas cinquenta, as crianças cortaram certo, e cortaram errado. Certo, porque as cinquenta palavras, postas em chinês, cada uma tinha de pousar; pousada, acabou; com o acabou na frente, a entrega se desfaz. Errado — ele parou muito tempo —, o errado é que, cortadas as palavras, a coisa continua. Palavra se corta. Coisa não.
O terceiro item eram xerox, três páginas, do arquivo; na via de empréstimo, a casa do uso, ele escreveu conferência para unificação de dossiês. Número J-7-013; nome: Ensaio de encerramento antecipado do período de janela (fechamento precoce); vinte e sete páginas; das quais ele trouxe a página do índice, a do despacho e a da conclusão. Na página do despacho, a casa dos sujeitos do ensaio trazia um número de registro; nome, nenhum impresso. A página da conclusão, uma linha só: antes e depois do fechamento da janela, o comportamento de linguagem das amostras não apresenta diferença correlacionada ao mecanismo de fechamento. O ano da rubrica era o ano do registro.
Ela leu a linha três vezes. Ela disse, o ensaio foi feito.
He Che disse, aprovado; durou meio mês. — Uma pausa. Ele disse, confri o livro-registro outra vez — no mês do ensaio, aquele mês de trinta anos atrás, no livro-registro, palavra nova nenhuma. Um mês inteiro, limpo. Ele disse, cerquei esse mês; adivinha com o que ele se parece. Ela disse, com a zona de silêncio. He Che disse, com a zona de silêncio. Ele disse, a criança lá, a máquina lá, as folhas lá; naquele mês, ele não disse nada. Ele disse, este lançamento eu pus no apêndice. Apêndice não vale — ele parou, engoliu a frase de volta, e disse: vale. Dessa vez em diante, vale.
Ela empilhou as três páginas de xerox com a página do motivo. Trinta anos atrás, alguém quis fechar a janela dela adiantado, e o ensaio deu em nada; trinta anos depois, era ela que preenchia folhas pela filha, assinava, impugnava pedido, gravava fita, e tinha andado até o dia vinte e dois do último mês lunar, com em cima da mesa a tabela dos horários que conta até zero. Ela disse, aquele meio mês, eu não guardo lembrança nenhuma. He Che disse, não ter lembrança é o certo. Aquele mês ele não falou com você — a parte que fala com você é a que se lembra.
Acabada aquela página, ele pediu o calendário de mesa de novo, e do lápis, da casa do dia oito do último mês lunar, foi descendo, casa por casa, a ponta batendo. Dia oito, trinta e cinco. Dia nove, trinta e quatro. Chegando ao dezenove, vinte e quatro. Chegando à casa de hoje, vinte e um. Batido, ergueu a caneta, e disse: essa fileira eu conferi duas vezes de noite, contra a linha do papel quadriculado; cortada a ponta dos dois lados, as duas pontas, diferença zero. Girou o calendário pra ela, a ponta da caneta na casa do vinte e dois, e disse: bata você uma vez. Ela recebeu e bateu. Do dia oito ao vinte e dois, quatorze batidas; de trinta e cinco a vinte e um, um número sem falha. Ela disse, diferença zero. He Che disse, diferença zero. Ele disse, uma linha, um calendário, emendaram; daí pra frente — chegando aqui, parou sozinho; a mão fez um gesto plano sobre a mesa, como quem varre pra fora a segunda metade da frase — e disse: eu vou até onde emenda. O que vem depois não é de conta de número.
Então eles puseram a fita.
A fita dos sete anos, He Che escutou só a frase do meio. Sentado, sem se mexer; ouvida, mandou rebobinar, e escutou de novo. Ouvida a segunda, ele não deixou rebobinar mais. Escreveu no caderno preto e, escrito, leu em voz pra conferir: Como pôr mais uma tigela em cima da pilha. Pousou. A mão ainda não ousa soltar. Lido, ele disse, entrou no arquivo ainda nos anos noventa; na noite do dia um do último mês lunar, saiu de novo, da boca da sua filha. Ele disse, a frase é a mesma; na conta, há ida e volta. Ele disse, essa ele não disse de passagem. Esta é a mais difícil das entregas — e a mais difícil ele ensinou à criança mais pequena.
A fita dos doze anos, ela pôs primeiro a primeira metade. Partes, de um a cinquenta; a voz da criança que punha palavra com tanta firmeza andando pela casa; He Che sentou reto, a caneta na mão sem ir pro caderno. Contado o quarenta e quatro, na fita, a parada de meio tempo. He Che ergueu os olhos pra ela. Ela olhou pra ele. Nenhum dos dois disse nada; o quarenta e cinco veio na sequência. He Che abaixou a cabeça e escreveu no caderno uma linha, muito curta.
Chegando à segunda metade, saiu aquela camada de ondulação. He Che tirou o relógio, pôs na mesa, e contou. Um comprido. Doze curtos. Contou três rodadas; acabada a terceira, recolocou o relógio, e a fivela fechou só na segunda tentativa. Ele disse, os intervalos iguais, uniformes até o segundo. Ele disse, seis anos com sinal; eu sei como máquina se comporta. Máquina cansa. Este não cansa. Ele disse, isto não é ele falando. — Parou muito tempo. Ele disse, ele está esperando.
Ela pegou a frase. Ela disse, a pausa é mais comprida que a fala, como quem espera resposta. Zhou Shu tinha dito: no dia um do último mês lunar, aqueles quatro minutos no palco, ela disse que era como quem espera resposta. Ela disse, eu não peguei.
He Che disse, eu também não. Ele disse, trinta anos, ninguém. Ele disse, segunda pessoa, zero casos; percorri três bancos, zero casos — hoje eu entendi: o zero não é culpa das crianças que não relataram. É que aquela coluna não tem cabida pra ele. A frase inteira dele está esperando alguém; com ou sem aquele você dentro da frase, é igual. Quando as crianças traduziam, aquele você, traduzido, virava de todo mundo; por isso não traduziam. He Laosan não traduz. Erya não dá parte. Sua filha tirou o fone no palco. Ele disse, em trinta anos, quantas vezes ele disse, tantas nós barramos. Os jeitos de barrar é que mudam; barrar é sempre a mesma coisa.
A porta, nesse meio tempo, abriu. Zhou Shu na porta, a lã vermelha na mão, o fio pendurado nas agulhas. Ela disse, o resto eu escutei. Veio até a mesa, ficou de pé ao lado, e deu uma volta de olhos pelas coisas: o papel quadriculado, as fichas vazias, a página do motivo, as três páginas de xerox, as duas fitas. Ela disse, fala de guarda — foi vocês que puseram esse nome nele?
He Che disse, eu pus. Com ponto de interrogação.
Zhou Shu olhou os quatro caracteres um pouco. Pegou a página do motivo e olhou pra mãe. Ela disse, mãe, foi você que escreveu isto? Ela disse, eu. Na hora, sem saber o que estava escrevendo. Zhou Shu devolveu o papel, muito direito. Ela disse, o nome veio tarde. Ela disse, na hora do corte vocês não estavam; agora que sabem — passou a lã pra mão esquerda, ergueu a cabeça, e disse: agora que vocês sabem, ainda vale?
Na casa, ninguém pegou. A voz da água nos radiadores é que pegou. A mão de He Che, pousada no caderno preto, sem escrever. Tirou o elástico do pulso, e o prendeu de volta no caderno, duas voltas. Ele disse, a esta pergunta, no meu sistema não há casa. Ele disse, eu volto e abro uma casa pra ela.
Zhou Shu disse, abre a casa, e escreve. Dito isso, voltou pro quarto; a porta ficou mal fechada, uma fresta de um dedo.
He Che foi embora às quatro da tarde. As rodinhas da mala soaram no corredor até a boca da escada; o som parou, e tornou a soar um pedaço — foi ele que parou lá embaixo um pouco, e depois andou.
Às oito da noite ligou Zhou Yu: a regulagem de depois do Ano Novo tinha se adiantado; ele chega em casa no dia vinte e seis; perguntou se na lista havia coisa que desse pra fazer adiantado. Ela folheou: das coisas por assinar, restavam três linhas; na linha da confirmação aos trinta dias antes do fechamento da janela, Zhou Yu já tinha posto, de letra pequena: sete dias antes do onze do primeiro mês, assinar adiantado. Ela disse, essa linha você assina de frente. Zhou Yu disse, então assino no vinte e seis. Desligado o telefone, ela recolheu as duas coisas que He Che deixou na mesa: um xerox do papel quadriculado, no fim uma linha miúda acrescentada antes de ele sair — quarto caso, autocomprovado, dia vinte e dois do último mês lunar; e a página de literatura — na margem da linha de não se vê em população não intérprete, ele acrescentou uma linha, letra um ponto menor que a do corpo: esta frase fica sem valor; novo lançamento em outro lugar. Empilhou as duas folhas com a página do motivo, e prensou o maço junto à caixa de lata.
Antes de fechar a porta, ela arrumou a mesa: as duas fitas, lado a lado, dentro da caixa de lata; a página do motivo por cima; o calendário posto direito, aberto no dia vinte e dois do último mês lunar. De lápis, deu um ponto naquela casa.
Faltam vinte e um dias.