Nos dias antes da colheita do trigo, os teares pararam dois turnos. A fábrica disse que era revisão. Todo mundo desceu pra roça; no pátio sobraram velhos e crianças.
O rádio tocava três vezes por dia. Música às seis e meia da manhã, avisos ao meio-dia, previsão do tempo às sete da noite.
No resto do tempo ficava ligado, sem voz, só uma camada de chiado.
Essa camada de chiado eu escuto desde pequenina. Erya dizia que era a máquina cansada. Eu dizia que máquina não cansa. Ela dizia, então tá com defeito.
Nos dois dias em que o trigo entrou no pátio, as crianças foram todas colher espiga perdida. Uma mão cheia entregava, e voltava um lápis.
Erya colheu três mãos e trocou por um vermelho. Eu não colhi uma espiga. Naqueles dois dias eu fiquei na sede.
O pai desceu pra roça. Voltava de noite com barro no sapato; o barro secava e soltava farelo, uma pilhinha na porta.
Quando a mãe varria, ela varria o farelo pra fora; duas vassoradas não deram conta, e ela se agachou pra juntar com a mão.
A mãe trabalhava à noite. Dormia de dia no quarto de dentro, a cortina da porta fechada, duas presilhas presas nela contra o vento.
Da escola eu voltava primeiro em casa, deixava a mochila no banco, tomava meia caneca de água fria, e então atravessava até a sede.
Os partes eram dados na ponta leste do térreo da sede, na sala do mestre Qiao. Ele abriu mão de meia mesa pra mim e pro Wang Chaosheng.
O mestre Qiao não nos enxotava. Pousava o ferro de solda no suporte de ferro, encostava na resina, e subia fumaça branca.
Na mesa dele havia sempre um monte de miudezas: resistores, parafusos, meio lápis, uma caneca de esmalte.
A crosta de chá na caneca era grossa; bebendo até o fundo se via um anel amarelo. Ele não lavava. Lavou, dizia, o gosto vai embora.
Ele tinha uma teoria. O som dentro do alto-falante, dizia ele, a vida é cheia, o tom é vazio. Só o vazio tem cabida pra coisa alguma.
Ao dizer isso ele não olhava pra gente; olhava pro ferro dele.
Eu não entendia. Wang Chaosheng me perguntou o que ele queria dizer. Eu não sabia dizer.
Wang Chaosheng disse, talvez o alto-falante tá com defeito.
Eu disse, o alto-falante não tá com defeito.
Ele calou. Balançou a mochila pra cima do ombro e ficou de pé me esperando.
O anotador chegava às três e meia. Ele não era gente da fábrica.
Ele tinha giz nas mãos. Uma camada branca na lateral dos dedos, branca também nas dobras, que não saía com lavagem.
Ele trazia uma presilha de metal mordendo uma pilha de folhas, os cantos enrolados.
Punha as folhas na meia mesa e a presilha por cima do canto. O parapeito era alto; o vento descia dele, e as folhas estremeciam sem parar.
Ele me perguntou, quantas hoje.
Eu disse, cinco.
Ele perguntou, o quê.
Eu disse, aperto.
Ele perguntou, de quanto.
Eu disse, três.
Ele anotava. Caneta-tinteiro, azul-preta, o papel do caderno fino. Ao terminar erguia o caderno contra a janela pra ver se traspassava.
Ele nos ensinou as regras: uma palavra, um parte, proibido emendar; proibido adivinhar; adivinhado não vale.
Ele disse, adivinhado e escutado são duas coisas diferentes.
Eu perguntei, quais duas.
Ele disse, uma entra no caderno. A outra não entra.
Por um tempo eu dei aperto todo dia. Dez e tantos dias disso e eu me enjoei.
Eu perguntei pro anotador, posso dar outro?
Ele disse, escutou o quê, dá o quê.
Eu disse, todo dia é aperto.
Ele disse, todo dia é aperto, então todo dia você dá aperto.
Ele voltou duas páginas do caderno e me mostrou. Nas duas, aperto. Ele disse, você não é a única.
Depois de anotar ele tinha um hábito: lia a linha em voz alta pra eu ouvir.
Ele lia: tal dia, cinco, aperto, três.
Eu escutava. Se errasse a leitura, eu balançava a cabeça, e ele apagava e reescrevia. Se acertasse, eu não assentia, e ele não esperava.
Uma vez eu dei brilho. Ele perguntou uma a mais: que tamanho de brilho.
Eu disse, dois.
Ele anotou um dois. E perguntou, um e dois, qual é maior.
Eu disse, dois.
Ele disse, e o três.
Eu disse, três eu nunca vi.
Na terça foi do mesmo jeito. Na quarta eu dei três. Na quinta sete, quatro deles de aperto.
Na sexta ele vinha sem o caderno, com uma pilha de folhas soltas. Batia as folhas na borda da mesa pra alinhar, três batidas.
Depois pegava o furador e abria furos. Três furos, linha branca atravessada, um nó, o nó achatado com o dedo.
Encaixava a pilha costurada junto com a velha e apertava tudo na presilha de metal.
Ele disse, vocês dois juntos essa semana, quantas no total — eu somo lá no escritório.
Wang Chaosheng disse, o dia dos meus nove conta?
O anotador disse, conta.
Wang Chaosheng disse, então eu tenho mais que ela.
O anotador não lhe deu bola. Mordeu a ponta da linha, cuspiu na mão, apertou o punho, e só jogou fora lá fora, depois da porta.
Wang Chaosheng guardava mais palavras que eu. Dava seis, sete por dia. Dava e esquecia; no dia seguinte dava de novo, e eram sempre aquelas mesmas.
Eu dava pouco. Dois, três por dia. Mas eu guardava os de ontem.
Os de ontem e os de hoje eu conseguia encadear. Também não sei como se encadeia; eles se encadeavam sozinhos.
Uma vez Wang Chaosheng deu anda e eu dei anda também. O dele era anda; o meu era anda pra leste.
Eu contei pra ele. Ele não acreditou.
Ele disse, anda é anda.
Eu disse, não é.
Ele disse, então diz pra onde que ele anda.
Eu não soube dizer. Ele achou que eu perdi.
Wang Chaosheng, na hora dos partes, gostava de bater o pé. Cada batida e as folhas da mesa pulavam.
O anotador o advertiu três vezes. Na quarta não disse nada; mudou as folhas pra meia mesa de dentro.
Quando Wang Chaosheng bateu o pé pela quarta vez, as folhas não pularam.
Ele olhou pra elas por conta própria, e parou de bater o pé.
Meu caderno azul tinha chegado ao número trinta e seis. Quando distribuíram, o caderno vinha impresso só até o cinquenta; do cinquenta e um em diante havia números e nenhuma palavra, papel em branco.
Wang Chaosheng tinha mais, chegou ao quarenta e um. Todo dia empilhava palavras novas no caderno, de letra torta, um caractere ocupando dois quadradinhos.
Uma vez ele me perguntou, por que você não escreve.
Eu disse, não consigo escrever.
Ele disse, escutou, escreve.
Eu disse, tem que eu escuto e mesmo assim não consigo escrever.
Ele fez um ah e não perguntou mais. O toco de lápis na mão dele ia pra boca e voltava com uma volta de marca de dente.
No nosso pátio havia um mais velho que eu, com o caderno cheio de letra miúda. Uma vez eu vi ele escrevendo até o que não tinha escutado. Duas linhas.
Depois ele parou de vir.
Por que parou, eu não sei. Ninguém me contou.
Depois dos partes, a caminho de casa, o dia ainda claro. As luzes do pátio acendiam puxando corda: um puxão, uma lâmpada, a corda pendurada alta, era preciso correr até embaixo pra alcançar.
Eu alcançava. Erya não; ela precisava trazer um tijolo pra subir.
Depois eu reparei que os números que eu dava estavam diminuindo.
Primeiro era três. Passada uma semana, três. Mais uma semana, e virou dois.
Eu perguntei pro anotador, será que eu escutei errado.
Ele disse, não escutou errado. Dá dois.
Eu disse, antes era três.
Ele disse, antes é antes.
Ele anotou um dois e pronto.
Naquela noite contei os números do caderno. Três, três, três, dois.
Peguei a borracha e apaguei o último três, pra virar dois. A borracha levantou fiapo no papel, e eu não tive coragem de escrever.
Em casa contei pra mãe. Ela amassava massa, as mãos cobertas de farinha. Passou as mãos duas vezes no avental antes de ir buscar o caderno de tricô.
O caderno dela era das palavras; na borda, uma mancha de gordura encharcada, e onde encharcava, a letra amarelecia.
Ela perguntou, dois de quê.
Eu disse, aperto.
Ela escreveu. Escrevia devagar. Só dois anos de escola nela; alguns caracteres pediam pensamento.
Ao terminar perguntou, os dois juntos significam o quê.
Eu disse, não sei.
Ela disse, não sabendo também se escreve.
E pousou a caneta.
Aquele dia era quarta. Eu me lembro que era quarta porque não havia aula de tarde, e eu cheguei cedo.
O mestre Qiao não estava. O ferro de solda ficou na mesa, frio, uma camada preta na ponta.
O anotador corrigia as folhas da pilha anterior, apagando com borracha, e a borracha criava fiapo.
Terminei os partes, guardei o caderno, me levantei. Cheguei na porta e voltei.
Eu disse, aquele lado tá relatando uma coisa muito devagar.
A caneta do anotador parou. A ponta sangrou uma manchinha no papel. Ele não apagou.
Ele disse, repete.
Eu disse, aquele lado tá relatando uma coisa muito devagar.
Ele anotou. Escrevia devagar, caractere por caractere. Ao terminar, leu uma vez.
Ele disse, relatando quer dizer o quê.
Eu disse, é ele que tá relatando. Não é pra gente.
Ele disse, uma coisa muito devagar, quão devagar.
Eu não achava a palavra. Pensei um bom tempo.
Eu disse, como pôr uma tigela em cima de uma pilha.
Ele disse, que tigelas.
Eu disse, as do fogão. Lavadas, empilhadas uma por uma.
Pousou, e a mão não pode soltar na hora. Tem que segurar um pouco. Tem que ficar firme, e só então acabou.
Ele disse, e quem é que precisa que fique firme.
Eu disse, aquilo. Ainda tá pondo. Põe faz tempo, e ainda não ficou firme.
Ele não entendeu. Dava pra ver. Deitou a caneta atravessada sobre o papel.
Ele disse, é aquela palavra que você está dizendo.
Eu disse, qual palavra.
Ele disse, qual palavra é a mais pesada, você sabe isso?
Eu disse, sei.
Ele disse, pesa quanto.
Eu não soube dizer. Pus a mão na borda da mesa e apertei pra baixo.
Ele olhou a minha mão uma vez. Ele disse, tá bom.
Ele disse, do que você acabou de dizer, o mais pesado. Repete.
Eu disse, tá.
Eu abri a boca.
O que saiu não foi a palavra. Eu disse brilho.
Não era. Eu escutei a minha voz, e não era.
Eu disse aperto. Também não era.
Eu disse pôr. Eu disse tigela. Nenhuma era.
Fechei a boca, esperei um pouco, e abri de novo.
Dentro havia uma forma. Redonda, um fiapo desfiado na borda, como ponta de linha. Ela não saía.
Ele disse, pensa mais.
Eu balancei a cabeça.
Ele disse, se lembrar amanhã, diz amanhã.
Ele anotou no caderno. Escreveu devagar, e escreveu tigela.
Depois desses dois parou um instante, começou um terceiro e parou no meio: só o lado esquerdo escrito.
Encaixou a tampa na caneta.
Eu perguntei, e o caractere depois?
Ele disse, quando lembrar, se diz.
Na ponta da linha havia duas letrinhas impressas. Eu não sabia ler.
Eu perguntei, o que é que aquelas duas dizem.
Ele disse, não é da sua conta.
Tirei da mochila o caderno azul e virei no número trinta e sete. O trinta e sete estava em branco, esperando a minha escrita.
Segurei a caneta. Não saía escrita.
Fiquei assim, folheando, um tempo, e fechei o caderno.
Ele disse, o que adulto não perguntou, vocês não falam.
Eu disse, eu falei.
Ele disse, essa vez eu anotei. Da próxima, não.
Eu disse, por quê.
Ele disse, não meta coisa nenhuma dentro.
Eu disse, eu não meti.
Ele não tomou a palavra. Fechou o caderno, reengatou a presilha de metal, e a prendeu no canto das folhas.
Saí. Wang Chaosheng estava sentado no degrau da porta, um palito de picolé na boca.
Ele perguntou, o que você falou aí dentro.
Eu disse, uma coisa devagar.
Ele perguntou, quão devagar.
Eu disse, não sei dizer.
Ele fez um ah. Tirou o palito da boca, olhou, e meteu de volta. Não perguntou mais.
No dia seguinte cheguei às três e meia em ponto. Ele perguntou quantas hoje. Eu disse quatro. Ele perguntou o quê. Eu disse aperto. Ele anotou.
Ele não tocou em ontem. Eu também não.
No terceiro dia, pelo caminho, me lembrei de um pedaço. Me lembrei da forma, da forma que fica dentro da boca.
Assim que entrei eu disse, me lembrei.
Ele ergueu a cabeça. Esperou.
Eu abri a boca.
De novo nada. O que saiu foi anda.
No quarto dia eu tentei de novo. No quinto, de novo. Depois eu parei de dizer.
Dizer não adiantava. E ainda atrapalhava a anotação dos outros.
Naqueles dias eu dava poucos partes. O anotador perguntou, será que você não tá escutando.
Eu disse, eu escuto.
Ele disse, escutou, dá.
Então eu dei. E o que eu dei era aperto de novo.
Uma vez eu tentei em casa. A mãe no fogão, de costas pra mim. Abri a boca e não saiu som.
A mãe perguntou, o que você fica resmungando aí.
Eu disse, não tô resmungando.
Ela disse, eu escutei.
Eu disse, eu tô procurando.
Ela disse, achou, me chama.
Eu disse, hum.
Ela não foi chamada, e eu não achei.
Uma vez eu tentei na escola. Recreio, pátio cheio. Fiquei ao lado das barras paralelas e tentei uma vez.
Saiu brilho. Tentei de novo, saiu aperto. Nenhuma das duas.
Uma vez tentei de frente pro rádio. Estava tocando a previsão do tempo. Esperei terminar, esperei a camada de chiado voltar.
De frente pra camada de chiado, abri a boca.
Nada.
Passada uma semana, o anotador trouxe uma máquina. Quadrada, um pouco mais baixa que a caneca de esmalte.
Pôs na mesa e mandou eu falar. Eu falei. Depois mandou eu dizer a palavra. Abri a boca.
Ele apertou a tecla de volta. Do aparelho só saiu o chiado.
O mestre Qiao disse do canto, eu já tinha dito: não entra.
O anotador meteu a máquina na bolsa. Nunca mais a tirou.
Dias depois ele trouxe um homem.
O homem vestia jaqueta escura, quatro bolsos, os dois de baixo empinando.
Ficou na porta, sem entrar, e olhou primeiro as folhas na mesa.
O mestre Qiao ergueu os olhos, não disse nada, e empurrou o ferro de solda mais pra dentro.
O homem entrou e ficou ao meu lado. Ele me perguntou, você é da família Lin.
Eu disse, sou.
Ele disse, repete o que você falou naquele dia.
Eu disse. Começando de aquele lado tá relatando uma coisa muito devagar, e chegando até as tigelas.
Nas tigelas eu parei um instante. Com medo de ele me mandar dizer a palavra de novo.
Ele não mandou. Quando terminei, ele ficou um pouco parado.
Na pausa dele ninguém na sala falou. O ferro de solda do mestre Qiao soltava fumaça no suporte.
A mão dele apertou o bolso de baixo. Dentro do bolso, uma coisa quadrada, dura, empinando o pano. Ele apertou, e não tirou.
Ele disse, anota.
O anotador desenhou um triangulinho antes daquela linha no caderno.
Antes de sair, o homem me disse, se escutar de novo, primeiro não conta pra fora; primeiro vem me procurar.
Eu disse, eu não vou conseguir te achar.
Ele disse, procurar o anotador também serve. Se ele anotar, eu vejo.
Eu disse, ah.
Ele foi embora. Passo leve, sola mole.
O mestre Qiao olhou ele sair pela porta e disse, esse aí foi locutor no tempo dele.
Wang Chaosheng disse, locutor é o quê.
O mestre Qiao disse, é meter a fala dentro duma caixa.
Naquela noite a mãe estava em casa. Turno de dia. Ela lavava a louça junto ao fogão.
Lavava um, punha na pilha. Punha, e a mão não soltava na hora; uma pausa, e só então abria.
Eu ficava do lado, olhando.
Ela perguntou, o que você falou hoje.
Eu disse, falei.
Ela enxugou as mãos no avental e tirou da gaveta o caderno de tricô.
A mancha de gordura na borda do caderno tinha crescido um pouco.
Ela virou até a última página escrita, e depois uma página mais, em branco.
Ela perguntou, que palavra.
Eu disse, uma palavra. Eu esqueci.
Ela disse, quando lembrar, me conta.
Ela escreveu. Escreveu devagar. O quadradinho depois ficou em branco.
Fechou o caderno e o prendeu debaixo do cesto de costura.
Na manhã seguinte contei a pilha de tigelas do fogão. Sete.
A de cima tinha um bico quebrado, o bico virado pra baixo. Água não vaza; sopa vaza.
Depois eu disse muitas palavras, sem conta.
Aquela palavra eu nunca mais disse. E quando parei de dizer, ainda assim não tinha lembrado.
Tirei do topo a tigela de cima e a pus de volta.
Ficou firme. Só então soltei.