No começo da primavera as beiradas pingavam, uma semana inteira de pingos. O gelo do chão de cimento derreteu e mostrou um pedaço preto. A gente brincava de amarelinha em cima daquele pedaço preto, sola suja de barro, e em casa levava bronca.
A lista desceu em março. Papel vermelho colado ao lado do portão da sede, letras de pincel, coluna por coluna. A mãe não deixou eu ir ver. Ela mesma foi, voltou, ficou na cozinha escolhendo verdura e não disse nada num bom tempo.
O pai perguntou, a gente tá na lista.
A mãe disse, tá.
Eu perguntei, depois do meu nome tem caractere?
A mãe jogou a folha no cesto e disse, tem.
Eu perguntei, que caractere.
A mãe disse, não sei ler.
No dia seguinte eu fui sozinha. Um tijolo segurava o papel vermelho embaixo; o vento levantava o canto. Esperei o vento parar e cheguei perto. Os nomes vinham por número de prédio, a entrada dois na frente. O nome do Wang Chaosheng estava lá em cima, e depois do nome dele também havia um caractere. O meu era na quarta linha. O caractere depois do meu nome eu conhecia a metade: à esquerda, o radical da fala. O lado direito eu não sabia. Eu tava no segundo ano, sabia trezentos caracteres, e ele não estava entre eles.
Copiei o caractere na palma da mão. No meio da cópia a palma suou, e borrou. Em casa lavei a mão, e saiu.
Dois dias depois, telefone na sede. Os pais deviam levar as crianças à cidade na quinta, ônibus saindo do portão da fábrica. A mãe pediu meio dia na seção. O meio dia descontava vinte centavos. Ela contou os vinte centavos pro pai três vezes. Na terceira o pai disse, desconta então. Ela parou.
O ônibus parou na porta do pátio e veio gente pra nos despedir. A mãe da Erya passou a mão no rosto dela, uma passada forte, que deixou o rosto vermelho dum lado. Wang Chaosheng subiu sozinho, sentou na última fileira e abriu a janela numa fresta. A mãe dele gritou de baixo, fecha. Ele fechou.
Quinta de manhã fazia frio. O ônibus era de lataria verde, banco de ripa de madeira, gelado de sentar. O motorista eu não conhecia; a gente chamava todo motorista de mestre. Cinco crianças a bordo: eu, Wang Chaosheng, Erya, Dayong, e mais uma de casacão novo que eu não conhecia. Os pais no fundo. A mãe sentou ao meu lado, as duas mãos nos joelhos.
O ônibus passou na ponte; embaixo a água baixa mostrava um lajedo de pedras. Wang Chaosheng gritou de outro lado do corredor, meu pai disse que lá entrega certificado. Eu disse, que certificado. Ele disse, sei lá, certificado com certeza. O ônibus inteiro ouviu. A mãe dele, do fundo, empurrou ele pra baixo duas vezes.
O prédio da cidade tinha três andares, e na porta uma placa com duas letras grandes que eu não sabia ler. A escada era de granilite, o corrimão gelado; subi agarrada nele o caminho todo. No segundo andar, ponta leste, a porta aberta. Lá dentro, mesas compridas enfileiradas, cobertas de pano branco. Na mesa, uma fila de canecas de esmalte, no meio uma garrafa térmica, fita vermelha amarrada na rolha. Na parede, uma bandeira de seda, os dois cantos de baixo esticados em pregos com elástico. As janelas altas, o parapeito meio cabeça mais alto que eu. Só em pé eu via as árvores lá fora, sem folha nenhuma.
Cadeirinhas em duas fileiras. Sentei na frente, com o pé no chão. Wang Chaosheng sentou do meu lado, esticou as pernas e disse, cadeira pequenina. As pernas dele invadiram o corredor. Do fundo, a mãe dele tossiu uma vez.
A mulher do casaco cinza pegou a lista e chamou nome por nome. Um nome, uma voz. No meu ela fez uma pausa, abaixou os olhos pro papel, e só continuou depois de olhar o bastante. Ao terminar, guardou o papel e disse, esperem um pouco.
Da parte dos pais alguém perguntou primeiro. Um homem levantou e perguntou se havia auxílio. A mulher do casaco cinza disse, registro depois da reunião. Outro perguntou se dava pra trocar de escola. Ela disse, registro depois da reunião. Um terceiro perguntou quem repõe a aula que a criança perde. Ela escreveu uma linha no caderno, sem levantar a cabeça.
Outro perguntou, isso conta como acidente de trabalho. Ela levantou a cabeça e disse, as crianças são crianças normais. O homem disse, eu perguntei pela gente. Ela disse, registro depois da reunião.
Uma mulher perguntou, e quando crescerem. A sala ficou quieta um instante. Ela disse, registro depois da reunião.
Essa frase ela disse quatro vezes naquele dia. Eu fui contando do meu lugar.
A porta se abriu. Entrou um homem, metade do cabelo branco, branco começando por cima da orelha. Ele não era velho. Uma mão dentro do bolso da calça, a outra carregando um saco de pano azul. Dentro do saco, uma coisa quadrada, os cantos empurrando o pano pra fora. Ele pôs o saco embaixo da mesa e empurrou mais pra dentro com o pé.
Ficou atrás da mesa, sem sentar. Olhou a gente, um por um. Em mim a olhar demorou um pouco, mas não muito. Começou a falar.
A primeira frase foi:
Vocês não são gênios. Vocês são canos d'água.
A água entra por aqui e sai por ali. A água não é de vocês. Vocês não fabricam água.
Não metam coisa nenhuma dentro.
Não segurem a água na mão fechada.
Passa quanto, é quanto.
Não provem.
Falem todo dia. Proibido juntar estoque.
Falam pra quem anota. Proibido falar pros colegas.
Adulto pergunta, vocês respondem. O que adulto não perguntou, vocês não falam.
No dia em que vocês não disserem mais, não dizem mais. Não saem procurando.
Falava uma frase e parava, como quem espera que alguém complete. Ninguém completava, e ele seguia. As pausas tinham comprimentos diferentes. Na mais comprida, eu contei quatro na cabeça.
Uma vez ele parou no meio, procurando palavra. Boca aberta, mão no ar, mão embaixo. Ele disse, aquele, aquele. Ele disse, deixa. Trocou de frase e seguiu. Ninguém na sala se mexeu.
Ele contou também de uma turma anterior. Ele disse, houve uma turma, houve um menino que chegou na idade e ainda queria — Ali ele parou. Depois da pausa disse, item seguinte.
Acabadas as regras, mandou a gente levantar e falar, um por um, da primeira fileira em diante. Dayong falou primeiro, duas frases. Ele assentiu. Erya começou; ele a cortou e disse, mais devagar. Erya repetiu. Ele disse, senta.
Chegou a minha vez. Eu disse, ele agora não tá aqui. Ele disse, fala as que você aprendeu. Eu falei três palavras. Ele escutou e não assentiu. Ele disse, as que tão com o tom errado, eu sei ver. Eu disse, que quer dizer tom errado. Ele empurrou o saco de pano mais pra baixo da mesa e disse, próxima.
Atrás, os que anotavam escreviam de cabeça baixa, lápis veloz. Alguém anotava em caderno, com barulho de página. A mãe não anotou. As mãos dela ficaram nos joelhos, o tempo todo.
Ao terminar ele disse, perguntas.
Wang Chaosheng levantou a mão primeiro. Ele ficou de pé e disse, então eu sou o cano grosso. Alguém riu. Wei Dongquan não riu. Ele disse, senta.
Erya levantou a mão. Ela disse, cano d'água é de ferro? Wei Dongquan olhou pra ela. Ele disse, item seguinte.
Eu levantei a mão.
Ele disse, você.
Eu me levantei. Os pés da cadeira rasparam no chão, um rangido.
Eu disse, depois que a água passa, o cano lembra da água?
Ninguém respondeu.
Ele olhou pra mim. Dessa vez olhou bastante. Uma mão dele na borda da mesa, um dedo se mexeu. A mulher do casaco cinza virou a folha, virou de volta. Atrás, alguém arrastou a cadeira. A mãe estava atrás; eu não virei.
Na rua, uma bicicleta passou, a campainha tocada duas vezes.
Ele disse, item seguinte.
Antes do fim, a mulher do casaco cinza trouxe uma pilha de cadernos, capa azul, finos. Um pra cada, passando da primeira fileira pra trás. Chegando à minha mão, eu abri. A primeira página trazia uma fileira de números impressos, e embaixo de cada número uma palavra. Palavras à mão, mimeografadas, algumas borradas. Fui folheando: até cinquenta. Depois do cinquenta continuavam os números, e embaixo deles, nada.
Eu disse, o resto não foi impresso.
Ela disse, o resto é depois.
Eu disse, quanto tempo é depois.
Ela empilhou os cadernos que sobravam e disse, próxima.
No fim, assinatura na porta. Uma folha, os pais assinavam. A mãe assinou, encaixou a tampa na caneta e disse, vamos.
Eu olhei pra trás uma vez. Wei Dongquan e a mulher do casaco cinza falavam na ponta da mesa. Ele disse, a que fez pergunta, anota. Ela disse, anota onde. Ele disse, depois do nome.
Wei Dongquan saiu primeiro. Carregava o saco de pano, arrastando um pé, sem peso. Na porta parou e olhou pra trás, pra baixo da mesa. Não havia nada embaixo. Ele foi.
No fundo do corredor havia um tanque de cimento, com uma torneira em cima. Fiquei na ponta do pé tentando alcançar; não alcancei. A mãe me chamou de trás. Eu fui.
No ônibus de volta ninguém falou. Wang Chaosheng dormia, cabeça no vidro, boca aberta. A mãe dele meteu o lenço entre a cabeça e o vidro.
Em casa o pai perguntou, o que falaram. A mãe disse, falaram de cano d'água. O pai disse, que cano d'água. A mãe disse, foi isso mesmo que disseram. O pai olhou pra mim e não perguntou mais.
Depois disso o pátio passou a chamar a gente de aqueles meninos. A gente lavava verdura no tanque e os adultos davam meio passo pra trás. Quando a tia Zhang falava com a minha mãe, a voz baixava. Uma vez eu escutei ela dizer, dizem que dá pra receber dinheiro. Minha mãe disse, eu não vi nenhum. A tia Zhang disse, cedo ou tarde. Minha mãe levantou a bacia e disse, vou fazer o jantar.
As crianças esperavam eu no chão de cimento. Dayong perguntou, que certificado deram. Eu disse, não deram certificado. Erya disse, então pra que vocês servem. Eu disse, pra deixar a água passar. Dayong disse, que água. Eu disse, água. Ele esperou um pouco e disse, então eu sou o tonel d'água. Erya disse, você é o tonel rachado. E saíram atrás um do outro, batendo.
Naquela noite a mãe levou meu caderno azul e pôs em cima da cômoda, junto com o rádio. Eu disse, eu preciso escrever nele. Ela disse, escreve e devolve pro lugar. No dia seguinte subi no banquinho pra alcançar; alcancei, e nas bordas do caderno tinha caído uma camada de poeira.
Três dias depois veio um anotador. Homem, o sobrenome eu esqueci, mãos com giz branco, branco nas beiradas das unhas. Ele armou mesa na ponta leste do térreo da sede, exatamente ao lado da sala do rádio. O mestre Qiao levou a caneca de esmalte pro parapeito e abriu mão de meia mesa.
O anotador ia aonde fosse com a sua prancheta de metal. O mestre Qiao ia aonde fosse com a caneca. Minha mãe não levava nada; voltava do turno com as mãos vazias, fiapo de algodão nas beiradas das unhas.
Todo dia depois das três e quarenta eu sentava em frente a ele. Eu falava, ele anotava.
No primeiro dia eu contei o que ele tinha dito. Contou até onze e parou. Eu disse, acabou. Ele perguntou, não tem mais? Eu disse, acabou. Ele escreveu no papel, e ao terminar disse, conta certinho.
Eu disse, tudo que eu falei tá aí no papel.
Ele disse, tá no papel.
Eu disse, e o papel lembra?
Ele engatou a presilha de metal e disse, amanhã, três e quarenta.
No dia seguinte deram sete. No terceiro dia, três. Ele pôs as duas folhas lado a lado, olhou e disse, diminuiu. Eu disse, ele falou menos. Ele não tomou a palavra; escreveu uma data no canto da folha.
Uma vez ele me pediu a primeira palavra de novo. Eu disse uma vez. Ele disse, não é essa. Eu repeti. Ele disse, faz pouco você não disse assim. Eu disse, foi assim que eu disse. Ele pousou a caneta e disse, então deixa. Traçou uma linha depois daquela linha, e passado um bom tempo, traçou outra.
Depois daquela eu nunca mais disse a palavra. A boca não deixava sair. Mesmo querendo, não dava.
No quarto dia faltou água no pátio e o tanque secou. Eu sentei lá e esperei até as três e cinquenta, e a neve não desceu. Ele esperou um pouco, fechou a prancheta e disse, amanhã repõe. Eu disse, repor não dá. Ele já estava na porta.
O anotador do Wang Chaosheng ficava na sala ao lado. Ele dava os partes alto; atravessava a parede. No primeiro dia ele deu dezenove. No segundo, seis. O anotador dele perguntou, como assim tantos ontem. Ele disse, contei os que eu escutei no caminho também. O anotador disse, no caminho não tem. Ele disse, tem. O anotador escreveu uma linha e esticou pra ele: olha você mesmo. Ele não sabia ler e segurava o caderno de cabeça pra baixo. O anotador virou pro lado certo. Ele olhou um bom tempo e disse, quantos.
Uma vez eu ensinei uma palavra pra Erya no pátio. Eu disse, manda o queixo um tiquinho pra leste. Ela mandou. O som que saiu caiu no chão e não ficou de pé. Ela disse, o que você tá segurando na boca. Eu disse, não tô segurando nada. Ela largou o aprendizado e voltou pra amarelinha dela.
Na escola também mudou. A regente me chamou na sala dos professores, chaleira no fogão. Ela disse, na aula é proibido responder. Eu disse, quem fala primeiro é ele. Ela disse, tanto faz. Eu disse, se eu não responder, ele vai embora. Ela disse, que vá. Ela disse, volta pra sala. Voltei, e a carteira tinha mudado de lugar, primeira fileira, na janela, uma pra cada criança. A colega não disse nada, guardou o estojo de ímã na mochila e trocou de lugar.
Naqueles dias eu respondi pouco. Ele continuava falando. Na terceira manhã minha barriga doeu, dor acima do umbigo. A mãe me deu meia tigela de água quente, não resolveu. O pai me levou de novo à enfermaria. A doutora Qu apertou minha barriga em quatro pontos, perguntando onde doía. Eu apontei um ponto. Ela apertou; eu disse, é aqui. Ela soltou, eu apontei de novo, e o ponto tinha mudado de lugar. Ela disse, não tem doença. O pai disse, então com o que ela dói. A doutora Qu disse, é coisa de criança crescendo. Na volta começou a chover. O pai não comprou rosquinha.
Na sexta ele empilhou as folhas da semana, três furos com o furador, enfiou linha branca, deu um nó. Ele disse, vou te ler. Leu do começo ao fim. Ao terminar perguntou, só isso? Eu disse, só isso. Ele meteu a pilha costurada na prancheta, e a prancheta ficou com um volume a mais.
Naquele jantar o pai me perguntou, se eles mandam vocês falar, vocês falam. Eu disse, falo. O pai disse, se não quiser, dá pra não falar? Eu disse, dá. O pai disse, então não fala. Eu disse, guardado dentro dói. O pai bateu os pauzinhos na borda do prato e não disse nada. A mãe, de costas pra gente junto ao fogão, mexeu a espátula.
Naquela noite, sob a luz, o pai disse, traz teu caderno pra eu ver. Eu trouxe. Ele folheava página por página, devagar. Chegou nos números vazios do fim e parou, e perguntou, como assim sem letra aqui. Eu disse, não imprimiram. Ele disse, deve ter faltado na impressão. Eu disse, não sei. Ele fechou o caderno, enxugou a capa com a manga e devolveu. Ele disse, estuda direito. Ele não disse estudar o quê.
De noite me deitei. O rádio em cima da cômoda ficou desligado. O pai nunca mais o desceu, e eu nunca mais subi buscá-lo. Janela aberta em metade, o vento trazendo a neve pra dentro. Ele dizia o dele, eu respondia o meu. Depois de responder pensei numa palavra: cano d'água. Na boca ela pesava mais que brilho, nem morna, nem fria. Ficava na boca como fica uma pedrinha segurada.
Escutei briga lá embaixo, na casa da Erya. Duas frases e parou. Depois de parar, a porta deles fez um barulho.
Passei de novo na sala do rádio. O mestre Qiao limpava as máquinas, a caneca pousada na mesa de som. Ele perguntou, foi à cidade. Eu disse, fui. Ele disse, aprendeu o quê. Eu disse, cano d'água. Ele disse, que cano d'água. Eu disse, é o que ele disse que a gente é. Deu as batidinhas com a chave de fenda na coluna de som; o poste não se mexeu. Ele disse, a máquina não tem defeito. Eu disse, o senhor tá falando a mesma coisa que eles. Ele disse, quem é eles. Eu disse, os da cidade. Ele ergueu a caneca, bebeu um gole, e não tomou a palavra.
Na manhã seguinte eu acordei cedo. O tanque ficava na boca do corredor, a torneira de ferro; só na ponta do pé eu conseguia girar. Girei, a água desceu, batendo na porcelana branca do fundo, abrindo uma cavidade. Meti a mão embaixo pra segurar. Água fria. Encheu a mão, fechei a torneira, sacudi. Uns pingos ficaram no dorso da mão. O sol não tinha saído, e os pingos sumiram devagar.
Fiquei ali em pé, esperando.
A mão estava seca.