A língua das criançaspor Amara Okonkwo

03 · Dentro do sistema

Capítulo 3 · 12 mil palavras

A notificação chegou no terceiro dia depois do Dia da Vigília. O número três Lin Wanzhao conferiu e reconferiu depois: a notificação escrita oficial estava datada do próprio Dia da Vigília, com selo vermelho, e a data de postagem era um dia posterior ainda; e a van branca já tinha estacionado na tarde do próprio Dia da Vigília, uma vez na pista lateral que contorna o condomínio, cinquenta minutos, sem ninguém descer. Tudo isso ela montou depois; na hora só anotou uma coisa: a notificação dizia que o horário da visita da equipe de verificação se confirmava por telefone, e a ligação veio às nove menos um quarto da noite do Dia da Vigília, confirmando as nove menos um quarto da manhã seguinte — duas nove menos um quarto, exatamente vinte e quatro horas de intervalo. Ela não sabia dizer se era coincidência ou se a grade de escalas era mesmo daquele tamanho. Copiou os dois horários no calendário de mesa e, de copiado, traçou uma linha entre eles.

Tudo na chegada da van branca na manhã seguinte ganhou seu timestamp. Às nove menos um quarto a van entrou no condomínio e parou no descampado entre os prédios três e quatro, um ponto que, visto das janelas de Lin Wanzhao, ficava com metade da copa de um alcanforeiro em cima. Da van desceram três pessoas, dois homens e uma mulher, a mulher na frente, com uma maleta de liga de alumínio na mão, os cantos forrados de protetores de plástico esfregados de branco — o branco de anos de maleta na mão. Antes de subir conferiram a placa da porta embaixo, um minuto aproximadamente, e nesse minuto Lin Wanzhao acendeu todas as luzes que deviam estar acesas, porque com as luzes acesas certas coisas assumem a forma de expediente dentro do regulamento.

Três batidas na porta, nem fortes nem fracas. A senhora mostrou credencial: Administração do Período de Janela, Seção de Verificação, sobrenome Zhen. Credencial vista na porta; dentro, sapatos fora; capa de sapato era de cada um, um saco plástico por cabeça. Dos homens, um cuidava do registro, outro do equipamento; o equipamento era a maleta de alumínio, de onde saíram uma máquina portátil e um pequeno gerador de sinais, a portátil com uma escala de plantão plastificada colada na tampa, os cantos levantando. A abertura da chefe Zhen era o trio de frases de sempre: parabéns, cooperação, tudo pela criança. A ordem das três não mudava em trinta anos; mudava apenas quem as lia.

A verificação tinha duas etapas. Primeiro o exame: altura e peso, canal auditivo, um questionário de comportamento de quinze minutos, respondido na própria mesa de jantar de Zhou Shu. Nenhuma pergunta era difícil; difíceis eram as costuradas no meio — costuma ouvir com frequência sons que os outros não ouvem, aceita frequentar aulas em dias fixos da semana na Administração. Eram quarenta e uma perguntas; as primeiras trinta perguntavam do sono, da comida, do medo de escuro, em intervalos iguais, como o cascalho solto que se deita antes do asfalto de uma estrada. Da trinta e um em diante o espaçamento ficou desigual: duas perguntas encostadas uma na outra, quase a mesma pergunta trocando a ordem de uma palavra. Quando Zhou Shu chegou nessa, a caneta parou. Lin Wanzhao viu onde parou, e viu também o olhar da chefe Zhen passar por cima da máquina portátil e pousar sobre a caneta, pousar dois segundos e voltar, sem palavra alguma. Naqueles dois segundos o homem do registro também não escrevia; as mãos pousadas no teclado, pontas dos dedos vazias. Zhou Shu por fim marcou um X no aceito. Antes do X levantou os olhos uma vez para a mãe. Lin Wanzhao naquele instante levava a segunda rodada de chá, e o corpo em movimento bloqueou o olhar. Há trocas de olhar assim: diante de uma terceira pessoa, simplesmente não ocorrem.

Depois, a assinatura. O acordo tinha dezessete páginas e três anexos. O subsídio vinha por mês, na conta do responsável legal, o valor na página nove — e foi essa página que disparou as quarenta e oito horas de Zhou Yu: a ligação feita duas noites antes, parada no décimo primeiro algarismo, se completara na manhã seguinte com os onze algarismos que faltavam, ligação curta, curta a ponto de valer uma frase só: a verificação vai à sua casa amanhã, você tem direito de estar presente. Zhou Yu esteve presente. Quando entrou, a chefe Zhen já tinha chegado à página de assinaturas. Ele não tirou o sobretudo; passou as dezessete páginas do princípio ao fim, parou na quatorze, e ficou parado tempo bastante para o homem do registro levantar a cabeça.

Essa cláusula eu acrescento, disse Zhou Yu. Do bolso interno do sobretudo tirou uma folha dobrada quatro vezes, vincos duros, escrita de antemão. Nela, uma linha: A Parte B não poderá submeter a Parte C a intervenção não terapêutica dentro do período de janela.

A chefe Zhen leu a folha inteira. Ela disse, senhor Zhou, o item quatro da página quatorze do acordo já cobre isso.

Zhou Yu disse, o item quatro da página quatorze diz que atos médicos dependem de consentimento por escrito do responsável. Ao dizê-lo, o ritmo era plano, plano como quem lê em voz alta o traço de um concreto. Ele disse, intervenção não é tratamento. Nos próprios documentos do órgão de vocês essas duas palavras andam separadas.

A sala ficou quieta um instante. O gerador de sinais do homem do equipamento fez o autoteste e apitou uma vez. A chefe Zhen pôs a folha ao lado da máquina portátil, metida debaixo do canto levantado da escala plastificada, e disse, preciso pedir instruções. Seu jeito de pedir foi sair pro corredor e ligar; a luz acionada por som do corredor acendeu, e através da porta dava pra ouvir a voz dela, sem as palavras, só o ritmo: duas curtas, uma longa, duas curtas. Lin Wanzhao, da parte de dentro da porta, lembrou de repente do dia em que tinha entendido pela primeira vez — não. Ela não tinha esse dia; o dia dela era uma montagem, e quem montava era ela mesma. Cortou o pensamento, como quem desliga um canal que entrou invadindo.

A resposta foi: pode acrescentar, no anexo II, à mão, assinatura das duas partes, polegar atravessando a emenda. O homem do registro achou no interior da maleta a almofada de carimbo; nova, de plástico rasgado na hora, com um estalo do filme. A impressão da emenda devia cair na divisa entre o anexo II e a página dezessete do corpo do acordo; o homem alinhou as duas folhas e estendeu, um alinhamento que já fizera muitas vezes, as bordas do papel cravadas em reta. Zhou Yu foi primeiro. A polpa do dedo parou um segundo na almofada antes de tocar o papel, desceu certeira, subiu firme — a mão de quem já pisou a coluna de vistos de inumeráveis pranchas. Na vez de Lin Wanzhao, assinou o nome, pisou o polegar, e viu que Zhou Yu já havia pousado a caneta, num ângulo apontado exatamente para a página nove, para a linha do subsídio. Ela se lembrou da reforma do quarto de criança, sete anos antes, pranchas de Zhou Yu, todas as tomadas especificadas na altura da cintura de adulto ou acima; na época ela tomou por hábito de engenheiro. Agora não tinha certeza. As coisas de que ela não tinha certeza vinham se acumulando nesses anos, e todas aconteciam em ocasião de assinatura.

Enquanto tudo isso se passava, Zhou Shu ficou sentada no próprio quarto, a porta aberta numa fresta. Assinado o acordo, a chefe Zhen alinhou as três vias e, em vez de recolhê-las logo, olhou para a fresta e disse, a criança se chama Zhou Shu. Lin Wanzhao disse, sim. A chefe Zhen disse, o shu de shu er bu zuo: relatar, não compor. Lin Wanzhao disse, o sobrenome é do pai, digo. A chefe Zhen deu um riso curto e disse, bom nome, vai aparecer bastante no livro-registro. Ao dizer isso as mãos não pararam; as três vias levaram cada uma sua batidinha na mesa, todas igualmente alinhadas. E dito isso, as vias entraram na maleta, a maleta se fechou com um clique — o primeiro sinal definido da manhã.

O subsídio caiu naquela mesma tarde. O aviso veio do banco; depois do valor, um código: classe cooperação — C. O C era a terceira dos dez troncos celestes; ela não sabia o que eram o A e o B, nem até onde continuava o D. O valor em si não era pequeno — tão pouco pequeno que na primeira leitura ela perdeu a casa decimal, e só na segunda encaixou milhar e centena. Ficou olhando a letra C, mudou por dentro a leitura do símbolo, de C de classe C pra C de Parte C, e achou depois que as duas leituras eram a mesma coisa, e achou que não. Tirou um print da mensagem e o guardou numa pasta recém-criada, sem nome. Nomear é classificar, classificar é tomar posição, e ela ainda não ia tomar.

As aulas de tradução ficaram nas tardes de terça e quinta, na sede distrital, quatro pontos de ônibus de casa. A primeira aula, Zhou Yu levou. Ele passou uma hora e meia cravada em pé no meio-fio em frente à porta lateral da sede — foi ele mesmo quem contou depois, contando enquanto tirava uma pedrinha presa num farol; ao terminar, cuspindo a pedrinha pra longe. Zhou Shu saiu da aula e perguntou por que ele tinha ficado ali parado, e ele disse, pra tomar ar. Zhou Shu não perguntou mais. Esse trecho chegou a Lin Wanzhao por retransmissão de Zhou Yu, e o veículo da retransmissão foi uma mensagem de três palavras: buscada, aula dada, chegamos. Ela respondeu com uma palavra: bom. A mensagem ela não apagou. Apagar e guardar são dois gestos, e ela tinha notado que tudo o que andava guardando era curto; os compridos é que apagava.

Na segunda, uma quinta, Zhou Shu disse que já conhecia o caminho. Lin Wanzhao não acompanhou — estava de plantão na estação — mas chegou ao ponto de ônibus em frente à sede vinte minutos antes de Zhou Shu e ficou na sombra da banca de jornal. À tarde a banca fica de costas pro sol, a sombra cai torta, e ela ficou na metade torta, de onde via a porta lateral sem que a porta lateral a visse. Zhou Shu desceu, passou o cartão, com os gestos de qualquer criança saindo da escola; entrou pela porta lateral, o segurança não barrou, e acima da porta um painel de LED rolava a escala do dia em letras verdes, nem rápido nem devagar. Lin Wanzhao contou: de Zhou Shu entrando até a linha de letras voltar ao ponto de partida, quarenta segundos. Deu o timestamp na cabeça e, depois de dado, notou pela segunda vez que dava. Esse ela não cortou. Os quarenta segundos ela contou outra vez depois, contando a si mesma: do perceber ao voltar andando pro ponto, ficou quarenta segundos a mais na sombra. Dois quarenta, um de Zhou Shu, um dela; anotou os dois números lado a lado, sem registrar qual valia mais.

Foi buscá-la ao entardecer. O ônibus das quatro e meia trouxera duas levas de uniforme, uma pro leste, uma pro oeste, separadas no segundo ponto; depois da separação, um pedaço do coletivo ficou vazio. Zhou Shu subiu, escolheu a janela da antepenúltima fila, mochila abraçada no peito. Passando pela gráfica, Lin Wanzhao perguntou, o que você fez hoje na aula.

Zhou Shu disse, contar.

Ela perguntou, contar.

Zhou Shu disse, eles põem a gravação e eu vou por baixo. A professora disse que eu conto certinho.

Ela perguntou, contar o quê.

Zhou Shu virou o rosto pra janela. Depois da gráfica vinham os Correios, o portão de correr baixado pela metade, igual a segunda-feira, igual a todo dia útil. Ela disse, mãe, hoje aquele lado disse uma palavra.

A mão de Lin Wanzhao mudou de lugar na barra de apoio.

Zhou Shu disse, eu levantei a mão. A professora parou e foi folhear o dicionário. Chegou na página, e a professora disse, essa palavra não existe.

Ela perguntou, que página.

Zhou Shu disse, o fundo do dicionário. Umas páginas em branco, com números impressos, e nada por baixo. A professora disse que esses números não valem como palavras.

O ônibus chegou ao ponto. Freio mole, os corpos adiantaram-se um pouco, e Zhou Shu apertou mais a mochila contra o peito. Antes de descer disse uma frase, sem volume, como quem não pretendia que o ônibus inteiro ouvisse, ou como quem tinha esquecido de todo que havia mais gente a bordo —

Ela disse, eu contei até ele. Na cinquenta e um.

Antes de a porta fechar, Lin Wanzhao escutou o alto-falante da plataforma lendo qualquer coisa, informação de partida, os caracteres todos completos, o sentido sem alcançar aquelas páginas em branco. Ela ficou sentada onde estava; o ônibus arrancou de novo e a levou na direção de casa. Passou o ponto dos Correios sem descer, um ponto a mais, e no ponto extra redesfiou a conversa do começo: a gravação, o acompanhar por baixo, o dicionário, as páginas em branco no fundo, números impressos, nada por baixo. Cinquenta e um não era número falado à toa; Zhou Shu nunca contou à toa — contava balanços, contava batidas de pausa, e todo número que contava pousava no chão firme. Um número impresso em papel que não valia como palavra, contado até por uma criança. Dessa coisa Lin Wanzhao não tinha onde perguntar; para qualquer ouvido era cedo demais. Só podia guardar a coisa intacta — a velocidade do ônibus, a luz, a janela da antepenúltima fila no momento da frase — e arquivar tudo junto naquela pasta sem nome.

Em casa fez três coisas: tirou do envelope de papel kraft os caderninhos de exame de Zhou Shu, do nascimento até agora, e os pôs na mesa; abriu o portal das famílias da Administração e baixou todo o áudio da aula do dia; e deixou na geladeira duas maçãs pra amanhã, descascadas, de molho em água com um fio de sal, de boca pra baixo sob o prato. Se era do que Zhou Shu ia precisar a partir de amanhã de manhã, ou do que ela mesma ia precisar a partir desta noite, ela não separou o pensamento. Há sobras que se deixam assim: a prancha de estrutura marca os valores e nunca marca o uso.

Às dez e quarenta da noite, os aparelhos de casa todos desligados como sempre. O abajur do quarto de Zhou Shu levou dois apertos pra acender, e dois pra apagar. Lin Wanzhao, da sala, escutou os dois sons de interruptor e contou o comprimento entre eles: um, pausa, um. A mesma batida do cano de aquecimento da caldeira. Depois de contar, anotou uma linha no espaço em branco do verso do calendário de mesa, só duas palavras e um número: lâmpada, duas vezes. O verso do calendário era dela; a frente, da família; a escrita dos dois lados nunca se reconheceu. Endireitou, debaixo do vidro da mesa de centro, a foto de cima — a do canto faltando, canto virado pra dentro. Sob o vidro, seis fotos em ordem de ano; a deste ano ainda não existia. Planejava tirar outra quando a aula de tradução completasse um mês, e já tinha começado a pensar em que estúdio e com que roupa; no meio do pensamento parou, registrou a parte pronta na cabeça, datou, arquivou — não no lugar de sempre, mas na outra pasta. Essa pasta também ainda não tinha nome. Coisas sem nome, por ora, duas: uma no celular, uma nela. Contou, e anotou também o duas.

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