O Despertarpor Lu Chenzhou

18 · A prova da fita

Capítulo 18 · 11,8 mil palavras

A ligação veio na terceira manhã depois da reunião de avaliação. Número de Pequim, fixo.

He Zhaoting disse: traz o seu rolo e venha a Pequim. A máquina está aqui comigo; mão de outro em cima dela, eu não confio.

Ela perguntou: que dia.

Ele disse: quanto antes. O pó magnético cai todo dia. E desligou. A chamada durou sessenta e um segundos. Ela foi conferir no registro do celular — a anterior dele durara duzentos e cinquenta e dois segundos, a que tocara a sessão das seis da manhã.

Data juliana 2459666, terça, ela voou para Pequim. Na descida, o chiado no ouvido direito subiu de altura, a ponto de ela agarrar o braço da poltrona. Quarenta minutos depois de pousar é que voltou à altura de sempre. Ela anotou no papel: centésimo sexagésimo dia, avião, quarenta minutos.

A pensão ficava a duas paradas da casa dele. Lá embaixo ainda havia repórteres, mais que da vez passada, e o comitê de bairro pusera uma mesa ao lado, registrando identidades. A moça do registro olhou a unidade de trabalho dela, ergueu os olhos e perguntou: vocês é que cuidam daquelas panelas. Ela disse que sim. A moça virou o livro para ela mesma assinar e disse: então pode subir; o velho, nesses dias, não tem apagado a luz.

De noite ela abriu a caixa de correio. A do “Ombro” seguia nos rascunhos, última modificação 2459483,793. Ela entrou; o cursor caiu no começo do corpo. Digitou umas palavras, olhou um tempo, apagou. Ao fechar o correio, o radiador do quarto deu uma batida, como alguém batendo no cano do lado.

O escritório era o mesmo escritório. Uma parede de fitas — calibração de novembro de 69, fluxo de março de 70, rádio solar de agosto de 71, recepção de teste do reflexo lunar de maio de 73. A máquina de rolo sobre a mesa saíra da fábrica em 1981; correias trocadas duas vezes; rotação imprecisa, mas girava.

Ele tinha setenta e quatro, as mãos tremiam. Ligar, enfiar a fita, recolher — fez tudo ela. Ele sentava ao lado e apontava; a tecla em que o dedo dele pousasse, era a que ela apertava. Antes de começar, ele a fez fazer três coisas: limpar as cabeças com etanol anidro, rodar dez minutos de uma fita imprestável de 74, ajustar a tensão de recolhimento até a marca que ele disse. O fone preso na orelha esquerda; a direita voltada para fora — aquela orelha também já não prestava havia tempo.

Sobre a mesa, duas canecas de esmalte, o esmalte da borda gasto num anel. Ele servia só até sete décimos, e o bico da garrafa não apontava para ninguém. A água era água. Ele disse: chá faz urinar; com fita correndo não se sai de perto da máquina. Da parede ele puxou o rolo da calibração de 69.11, olhou uma vez e recolocou, o rótulo para fora. Todos os rótulos para fora. Ele disse que rebobinava aquelas fitas uma vez por ano, contra o pré-eco; cinquenta anos rebobinando.

O dela era a sessão das vinte e quatro horas de sete de abril. A dobra perto da borda externa, larga de dois dedos — ele abriu com tesoura, limou a emenda com lima, colou a fita de emenda por cima. Rodou, e mediu o comprimento: faltavam três minutos e sete segundos. Ele olhou o número e disse: faltou, faltou. Faltou quando vocês ainda nem tinham nascido.

Três rolos, quatro sessões por dia. Os dois dele, mais o que ela trouxera; as sessões de doze e de dezoito horas espremidas nos dois lados do rolo do meio. Rodaram das duas da tarde às duas da manhã do dia seguinte, com quatro paradas; a cada parada ele ia buscar um copo d'água, voltava, punha a mão esquerda sobre a direita, e aí ela apertava o play.

Faltou luz uma vez no meio do caminho, o prédio inteiro escuro por meio minuto. A máquina não tinha no-break; a fita parou no meio do trecho. No escuro ele disse: não mexe. Espera a luz. Com a luz de volta, ele a fez rodar de novo aqueles trinta segundos parados antes de seguir.

Na metade do rolo da meia-noite, ele disse a única frase fora do assunto da noite: desse trecho eu lembro; naquela noite esfriou, o receptor derivou, eu ajustei quarenta minutos. Ela calculou depois: aqueles quarenta minutos caíam pouco antes dos três minutos e sete que faltavam.

Todo rolo abria com a voz dele. Mil novecentos e sessenta e oito, vinte e dois anos: a data, a hora, o número da máquina, e depois o tom de referência do gerador — mil ciclos por segundo, trinta segundos. Quando a voz nova soou no escritório, o velho não se mexeu; só baixou o volume duas casas.

O tom de referência, hoje, dá novecentos e noventa e três ciclos. A velocidade da fita caiu, sete por mil. Hu Yisu disse depois, no telefone, que esse número sozinho puxava de volta a calibração de nível da fita inteira. Ele disse: professora, cinquenta anos atrás aquele homem deixou uma calibração para vocês.

No meio do rolo da meia-noite, ele disse de repente: para. Volta trinta segundos.

Ela voltou. Ele ouviu até o fim e perguntou: essa família, período de repetição. Ela mediu: 71 milissegundos. Ele disse: noroeste. Essa unidade eu ajustei dois anos. Parou um pouco e disse: anota, sétima família. Naquele ano éramos onze trabalhando lá; ainda em condições de assinar a coluna de identificação, resto só eu.

A página de Pequim estava pousada ao lado da máquina. Depois de 12, 18, 24, ele preencheu um por um: 999,7, 1000,4, 999,1. O valor medido do tom de referência no começo de cada rolo. Primeiro calibra, depois escuta o conteúdo. Cinquenta anos, a ordem nunca mudou.

Às duas da manhã encerraram; ele a acompanhou até a porta e disse uma coisa: o resto vocês levam para calcular. O número que sair, nem uma palavra se troca por minha conta.

Ela ficou um tempo no corredor antes de descer. Ele não a convidou a ficar; antes de a porta fechar, disse: manda o motorista ir devagar. Ela nunca contou que tinha vindo de metrô.

No voo de volta a Kashgar ela já estava lendo espectro.

O rolo da meia-noite: por baixo dos pulsos de calibração, a faixa de ondas curtas não estava vazia. Famílias de pulsos separadas por período de repetição e taxa de varredura — numa hora de gravação, trinta e uma famílias. Ela abriu a tabela de auditoria do histórico de injeção para conferir — fontes coerentes em registro naquele ano: onze.

Trinta e um menos onze: vinte famílias fora de qualquer registro. O espectro estendido coluna por coluna, o céu de 1968 aberto na tela como uma radiografia velha — os metais que não constavam de arquivo nenhum, todos de pé na chapa.

Hu Yisu inverteu os parâmetros de cada família em potência. O tom de referência pregara velocidade e nível: novecentos e noventa e três contra mil, velocidade fora por sete por mil, nível fora 0,03 decibéis depois do log — os dois corrigíveis. Contando até alta madrugada, ele mandou uma tabela: só na família do radar além do horizonte, o pico invertido dava quarenta vezes o valor assumido na linha de 1968 da auditoria.

As trinta e uma famílias postas em ordem de potência invertida. As três maiores no norte, os azimutes amarrando um arco; a unidade que o próprio He Zhaoting ajustara vinha em décimo sétimo, meio da tabela, nem bom nem ruim. Das vinte famílias sem nome, apenas seis apontavam para o sul. Ele disse no telefone: no sul, naquela época, ninguém erguia máquina. Ela pediu que pusesse a frase na nota de explicação; ele negou com a mão: onze famílias eu reconheço; acima disso, eu não chuto.

Quarenta vezes. Ela ficou sentada um longo tempo na sala e foi até a página daquele registro no memorando. A linha dizia: a energia total de cem anos de transmissão coerente equivale a oitenta e oito dias do Sol na mesma faixa. À margem, no punho dela: não somos barulho bastante.

O Mateo rodou por conta própria no dia seguinte, com o relógio dele e a coluna de erro dele. Respondeu: quarenta, tantas — dentro do erro de vocês. Não me agradeça. E acrescentou: desta vez não é meio-trabalho; é o trabalho de vocês pronto. O Kramer veio atrás dos originais de áudio; a única resposta foi a frase na página de notas que o He Zhaoting pusera em cópia: originais não se emprestam.

Refazer a curva inteira levou uma semana. Pronto, ela leu o número três vezes: o total ia de oitenta e oito dias para catorze meses.

O memorando publicou errata. A primeira desde a v3. A página de errata tinha uma linha de texto: fica sem efeito a estimativa de energia da seção quatro; reestimada conforme os registros originais de 7 de abril de 1968 — ver tabela anexa. A tabela anexa era dela, quarenta e uma linhas. Antes de enviar, ela riscou as palavras da margem, não somos barulho bastante. Riscou leve; dava ainda para ler.

A divulgação de He Zhaoting saiu um dia antes da errata dela.

Ele não apareceu. Enviou os arquivos digitalizados, os registros de calibração e uma página de notas às dezenove unidades signatárias e à secretaria da estrutura, tudo com checksum. As notas eram a fotocópia de uma tabela manuscrita: trinta e uma famílias de pulsos, as onze que ele reconhecia, cada uma com nome ou azimute; as vinte que não, só parâmetros. Embaixo da tabela, duas linhas.

A primeira: o que não está nas listas supera o que eu reconheço.

A segunda: o acima decorre dos registros feitos na minha presença e de cinquenta anos de escuta; erro por minha conta. Originais não se emprestam.

No dia seguinte, os títulos do mundo vieram em dois tipos. Um dizia: a gente nunca foi quieto. O outro: cem anos de barulho não acordaram — logo, não acorda. Os dois citavam o mesmo fator quarenta. Culpados e absolvidos acharam cada um, no mesmo dado, o que precisavam, declararam vitória e declararam um ao outro morto.

Hu Yisu pôs os dois títulos lado a lado num print e mandou para ela: mesmo número; uma turma entra como prova de culpa, a outra como prova de inocença. Uso diferente; número, o mesmo número.

Dos doze questionamentos do diretor Cao ninguém mais falou. O órgão que os emitira postou no grupo: perdida a validade da estimativa do histórico de injeção, caducam com ela todas as afirmações causais nela fundadas — as favoráveis a nós inclusive. A última frase tinha um erro de digitação; ninguém apontou. O observador Guan não falou mais; soube-se que retirara a assinatura do relatório de avaliação.

No terceiro dia chegou à estação uma carta assinada por um nome que ninguém conhecia. O autor dizia ser filho de um daqueles onze; o pai fora embora em 79. Diante da tabela de parâmetros divulgada, achava que a décima nona família podia ser a unidade que o pai guardara, e perguntava se podiam lhe mandar uma cópia daquele um minuto de som. No pé da carta, em linha apartada: o som daquela máquina eu ouvi menino, do lado de fora da sala. Papel pautado de quadros, caneta-tinteiro, letra carregada — do verso dava para sentir o sulco. Zhou Yan fotografou a carta para o 3t e respondeu: pode. Na posdata escreveu: os originais estão com o meu professor; quem assinou a coluna de identificação foi ele.

O seu Qiao também ligou, para perguntar se o diário de turno de 2004 ainda estava — lá fora tinha gente procurando saber. Ela disse que estava, trancado. O seu Qiao disse: trancado, ótimo. Daquele “Visto.” ele não falou; ela também não.

Amina leu uma declaração em nome da estrutura, de texto na mão, quatro minutos, a frase central: a informação existente não basta para atualizar conclusões em nenhuma direção. Leu, fechou o texto, esperou três segundos, saiu.

Uma emissora desenterrou o noticiário de 1968 e reprisou. Na película, a antena de radar girou um minuto; das palavras do locutor, metade era o mesmo lote dos comunicados de hoje em todos os países. Do lado de fora do arquivo tinha fila para consultar os encadernados de jornal de 1968; o arquivista disse que em trinta anos era a primeira vez que alguém pedia aqueles meses.

As placas da rua trocaram de letra outra vez. Os Guardiões do Sono carregavam “quietos primeiro, contas depois”; nas camisetas da facção do Despertar, o “veremos” tinha virado “barulho triplo, à toa do mesmo jeito”. Triplo estava errado — era quarenta vezes; ninguém corrigiu, os dois lados, não. Hu Yisu quis mandar uma carta de retificação; ela segurou o braço dele: não manda gabarito para facção nenhuma.

Zhou Yan olhou e olhou e viu uma coisa só: o livro de contas pelo qual todos brigaram cem dias estava errado. Não a direção — a escala. Com um número medido uma a duas ordens de grandeza fora, pagaram uma culpa e receberam uma absolvição.

Sábado, 2459670, 20:00, quatro minutos e vinte de vídeo. Zhou Yao disse que a escola organizara a exibição das gravações divulgadas, e os colegas perguntaram por que nas fitas só havia bipe, ninguém falando. A professora disse que ninguém falava, que era tudo máquina. Zhou Yao disse: quem liga a máquina também é gente.

Zhou Yan deu um hum e disse: por isso existe a conta.

Zhou Yao disse: e essa conta fecha um dia.

Zhou Yan disse: estão recalculando.

Desligado o vídeo, ela foi alimentar o Lao Wu. Água a vinte; a casca, ainda sem troca. Ela contou cinco grãos e viu ele alcançar devagar o primeiro.

Nesses dias de espera, ela foi digitando os registros em papel. Dos catorze mil e seiscentos, chegou a onze mil e quarenta. A casa da tinta sangrada terminou decidida como 3 — Xangai achou o caderno de passagem de turno da época; o valor transcrito na casa do meio-dia era 73; o 8 dela era artefato da mancha. Na coluna de observações ela riscou o pendente e escreveu: 73, conforme o caderno de turno.

S calculado como sempre. Linhas cento e um a cento e quatro: 0,37, 0,37, 0,36, 0,37. Ela não mandou ao grupo; só escreveu no papel. Nas linhas escritas, pôs um ponto de lápis ao lado, um por dia; quatro pontos.

A mensagem de Ursula chegou segunda de manhã.

Depois de um dia de grupo calado, ela postou quatro linhas.

As fitas chegaram.

O histórico de injeção não é fundo; é entrada. A entrada mudou.

A sétima linha eu vou recalcular. Me deem vinte e um dias.

No meio, não me perguntem nada.

Ninguém respondeu. Hu Yisu digitou umas palavras e apagou; a sugestão do teclado subiu três vezes; no fim, não mandou nada. Zhou Yan leu as quatro linhas duas vezes, saiu, entrou de novo e leu mais uma.

A sétima linha. Ela conhecia aquela linha. A folha de fórmulas impressa, pregada na parede branca de Viena, três tachinhas; na sétima linha, o termo pendente que a própria Ursula chamava de cosmético. Mais de um ano. Aparecera só o nome; valor, nunca; explicação, nem uma palavra.

Ela abriu o caderno de papel numa página nova. Escreveu 40, escreveu catorze meses, escreveu três minutos e sete segundos. Por último, no canto da página, escreveu:

21.

Continuar para o próximo capítulo

19 · A gravação no osso

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