Sexto dia.
O armário fica à esquerda da entrada, o 4471. Na face interna da porta está colado o comprovante de entrega; o campo de assinatura do usuário anterior está em branco. Antes de pendurar o casaco, tiro do bolso interno o bilhete e o abro. 3 linhas: 77413; 11 de abril de 2085; 9 de fevereiro de 2083. As dobras novas caem sobre as dobras de antes, bem aplastadas.
O bilhete volta ao lugar. Ao lado há uma ficha a mais, dura, com um furo na borda e um cordão passado por ele.
O chá da manhã, feito; 3 vezes a cheirar, fora. Antes de sair, rego a jiboia; a água vaza pelo fundo do vaso e forma uma poça pequena no parapeito da janela; limpo com um pano.
06:12:00, o trem de pessoal entra na estação, vazio. Quando passa pela prefeitura, os caracteres vermelhos da placa varrem o vidro. Hoje não calculo aqueles 3 números. O aviso de manutenção segue colado no elevador, um canto de papel levantado 1 centímetro. Do B2 ao 1.º andar, 19 segundos.
07:00:00, a mesa acende. Cabeça da fila, primeira peça: o 77413. A ordem de reencaminhamento salta junto; o campo de estado traz os mesmos 3 caracteres de sempre: Vencido. Mais de 30 horas vencidas, e o relógio segue em curso.
Pela manhã, a carimbar. A substituição da louça de uma creche, impacto humano Grau 3, 89 nomes no anexo; conto 89, carimbo. 08:34, levanto-me.
A tela do registro de saída do vestíbulo tem 4 opções: banheiro, água, enfermaria, consulta. Aperto «consulta». Hora prevista de retorno: anoto 09:30. 08:41, a porta de ferro.
Dentro, alguém está ao telefone. A voz vem do fundo do depósito interno, cada frase mais alta que a anterior.
... A umidade, venham ver vocês mesmos, e depois de ver me dizem se é grave ... Reportei no ano passado, e no anterior também; do chamado de reparo conservo aqui uma cópia, de 2020, querem ver ...
A He espia meio corpo desde o depósito interno, o telefone apertado na mão, e me diz sem voz, só articulando: desumidificador.
Assento. Ela se recolhe; a voz segue subindo.
08:50, ela desliga e sai, com uma camada de poeira nas mãos; na poeira, restos de papel.
Ela diz: Outra vez você por aqui.
Digo: O Escritório de Auditoria quer o original.
Ela diz: Eu sabia que você viria.
Ela caminha até a porta do depósito interno. Ao lado da porta há uma tela de registro, embutida na parede, com riscos nos 4 cantos; no canto inferior direito, um papel colado com um aviso: avaria reportada, não desliguem a energia. O papel está amarelado, com as bordas enroladas.
A tela tem 4 campos: usuário, número do volume, tomo, finalidade. A finalidade é um menu de opções, 3 itens: consulta de trabalho, formação, colaboração de auditoria. Escolho «colaboração de auditoria». A tela é de toque; ao apertar, a polpa do dedo me deixa uma marca no vidro. Apago com o dorso da mão. Quando termino, me lembro: apaguei a tela, não o registro.
A tela rola para baixo; resta uma linha a mais:
> Se nesta consulta se retiram originais (obrigatório) > □ Sim □ Não
O dedo me para nessa linha; não sigo apertando.
A He grita de dentro: Primeiro assine, depois role.
Assino no campo do usuário. À mão, sobre a tela; o traço sai emperrado, nada que ver com o papel.
Digo: Um momento.
Ela diz: Como quiser.
Ela sai com uma caixa de dossiê nos braços. A caixa pesa mais que o saco de papel kraft de ontem. Põe a caixa na mesa de leitura, levanta a tampa e solta uma frase:
Ela diz: Vou lhe dizer uma regra. O número vai com a peça, não com a objeção. O 77413 começou sendo uma decisão; depois a objeção entrou, e o número não mudou. De modo que o volume suplementar que você viu ontem é coisa de depois.
Digo: E a primeira página do volume principal é.
Ela diz: A página de aprovação. Naquela época a regra era conclusão primeiro: a página de aprovação ia na frente. Depois mudaram para conclusão no fim, e mudada a regra, ninguém desfez os antigos para reencadernar.
Dentro da caixa, folhas soltas, presas com um clipe de papel, sem encadernação.
Ela diz: Este tomo era cosido com fio; o fio se rompeu. Passei para folhas soltas em caixa, para não romper de novo.
Digo: Isso está dentro das regras.
Ela diz: Dentro das regras ou fora delas, de todo modo ninguém vem olhar.
Ela diz: No depósito interno, de ordinário entro eu sozinha. Cada entrada se anota; o sistema guarda um livro e eu guardo outro. Se os 2 livros deixam de bater certo, perguntam primeiro a mim; se de mim não sai, ao sistema.
Digo: Já deixaram de bater certo.
Ela diz: Já. 2 vezes no ano passado. Uma foi falha minha de anotação; da outra, não sei.
Digo: E da segunda, o que foi depois.
Ela diz: Depois mudaram o sistema.
Ela afrouxa o clipe e me empurra a folha de cima meia polegada.
> Decisão 77413 · página de aprovação (primeira página do volume principal) > Assunto: decisão de manter o suporte de vida da pessoa inscrita N.º 0001 (Grau 3 de direitos e interesses · impacto humano) > Nível de proposta: Proposta N.º 2061 > Nível de execução: Casa de Repouso Municipal N.º 7 > Campo de revisão > Revisor (pessoa natural): Shen Yan (manuscrito) > Número do carimbo: 4471 > Data: 3 de novembro de 2065 > Selo a cavalo: (gravação em aço, sobre a borda) Revisão: (cinábrio, em oco)
Para ler esta página levo mais tempo que para ler uma peça. Leio na minha ordem de leitura: primeiro o número, depois o assunto, depois o grau de impacto, por último o campo de revisão. É a ordem que Lao Zhou ensinou: primeiro a prova, depois a conclusão.
Assunto: decisão de manter o suporte de vida da pessoa inscrita N.º 0001. Grau 3 de direitos e interesses, impacto humano. Nível de proposta, a Proposta N.º 2061; nível de execução, a Casa de Repouso Municipal N.º 7. O número da proposta não vem com ano; não consigo dizer em que ano foi protocolado. O selo a cavalo cai à esquerda, gravação em aço, bem reto; a margem não guarda sinal de substituição. Esta página é verdadeira. Ela carrega 2 selos: um prova que o documento não foi trocado; o outro, que alguém o olhou.
O campo de revisão vem por último.
Shen Yan.
Número do carimbo, 4471.
Data: 3 de novembro de 2065. Este ano é 2125. Há 60 anos. Ingressei em 2105. Há 40 anos.
Recalculo os 3 números. Ao terminar, continuam sendo esses 3 números.
No nível de revisão não se repete número. O número do carimbo é único, o de funcionário é único, o armário não troca de dono, o número vai com o carimbo. Do meu ingresso faz 20 anos: o meu carimbo é o 4471, o meu número de funcionário é o 4471, o número no meu armário é o 4471. Esta página diz: número do carimbo 4471.
Nomes se repetem; números de carimbo, não. Em 20 anos vi 2 revisores com o mesmo nome, os 2 na Zona D, com número de funcionário diferente e número de carimbo diferente.
O campo do revisor está à mão. 3 caracteres, de traço apertado.
Lao Zhou entregou o carimbo em 2105. Quando mo passou, a face já era velha, as bordas gastas redondas, sem idade legível. Entre todos os carimbos de revisão no registro, o 4471 não é o mais velho nem o mais novo. Na entrega ele disse uma só coisa: O carimbo dura mais que o homem.
O carimbo está no terceiro compartimento da gaveta, no edifício principal, do outro lado de uma galeria. Agora mesmo não posso tocá-lo.
09:15:02.
Minha mão treme. 0.4 segundo. Seguro esta página com as 2 mãos. A borda do papel treme; passado o tremor, continua sendo papel. Desta vez não tenho pisa-papel à mão. A He, no depósito interno, revira as estantes; faz muito barulho, chapa contra chapa.
Tiro o celular e o levanto sobre esta página. Na folha impressa junto à porta há uma linha miúda a mais: proibida a captura de imagens nesta área. Na tela salta uma linha em cinza; eu a aperto, e a foto sai toda preta, com uma moldura branca nos 4 lados.
Tento uma vez. Uma só.
No celular abro a pesquisa do registro.
> Pesquisa: nome = Shen Yan > Escopo: registro do nível de revisão (vigente) > Resultados: 1 > HZ-4471 Zona C em atividade ingresso: 2105
> Pesquisa: nome = Shen Yan > Escopo: registro do nível de revisão (histórico) > Resultados: Permissão insuficiente
Permissão insuficiente. É a segunda vez que esbarro nesses 4 caracteres. A anterior foi na consulta ao arquivo do R3.
O cronômetro está no primeiro compartimento da gaveta, junto ao caderno de erros. Hoje ele não está na minha mão. Os 0.4 segundo conto de cabeça; conto até 0.4 e paro. Um relógio de 20 anos de uso, e hoje não serve.
Deixo o celular e ponho a mão sobre a página. A deixo uns 10 segundos.
Me lembro dos 3 caracteres de Lao Ge: O carimbo sustenta o homem. Sem cabeça, sem cauda.
No depósito interno, A He volta ao telefone; desta vez pede à Seção de Serviços Gerais um desumidificador, diz que o depósito interno devia ter um desde o ano passado. A voz dela chega de trás das estantes e sobe um ponto a cada intervalo.
Digo: Quem é a pessoa inscrita N.º 0001.
Ela desliga e sai: Isso não posso dizer, e também não é comigo. O tomo traz um número, não um nome. O número pertence ao arquivo; o nome, à pessoa. Se algum dia descobrir, me avise: eu também quero saber.
Digo: Dá para fotocopiar.
Ela diz: A copiadora está quebrada; quebrou no ano passado. Pelo sistema também não: a consulta gera um registro, e o registro exige a finalidade.
Digo: E copiar à mão.
Ela diz: Copie.
O selo eu não consigo copiar. Os caracteres consigo: 3 linhas, 12 caracteres e uma data. O selo não: em que ponto do campo de revisão cai, para que lado desvia meio milímetro, quanto o cinábrio alastrou, que forma têm as bordas gastas redondas — isso não se copia. O selo é prova; o papel, não.
Guardo a pena de mergulho.
Tiro a folha de baixo do clipe. Ao sair, o papel soa uma vez, muito baixo; muito mais baixo que o barulho de A He com as estantes.
Retirada, olho primeiro o verso. Em branco, salvo a borra dos furos de encadernação. No pé, uma linha de letra mínima, impressa: volume principal 77413-01.
Viro-a e olho o anverso. O selo, embaixo à direita, dentro do campo de revisão, desviado meio milímetro à esquerda.
Torno a fechar o clipe e tapo a caixa.
A He sai da sala do fundo, as mãos ainda na poeira. Ela diz: Terminado de ler.
Digo: Terminado de ler.
Ela diz: Daqui a pouco conto as páginas.
Digo: Está bem.
Ela pega a caixa e vai para o depósito interno. Aos 2 passos, o telefone fixo da mesa toca. Deixa a caixa numa cadeira e volta para atender. Desta vez é a Seção de Serviços Gerais ligando de volta.
Fico de pé junto à mesa de leitura, um minuto aproximadamente.
Pego a caixa e a devolvo à mesa junto à porta do depósito interno.
A tela do registro segue na última linha, esperando que eu escolha.
> Se nesta consulta se retiram originais (obrigatório) > □ Sim □ Não
Ponho o dedo sobre «Não», paro 2 segundos e aperto. Na tela salta um visto verde e, embaixo, uma linha miúda: Registro concluído, obrigado pela colaboração.
Dobro a página ao meio, e de novo ao meio, até o tamanho do bilhete, e a meto no bolso interno do casaco, atrás daquelas 3 linhas.
Ao chegar à porta, A He continua ao telefone. Tapa o fone com a mão esquerda e diz: Mestre Shen, o dossiê ainda não contei. Digo: Conte com calma. Ela diz: Está bem.
09:32, saio. O leitor de acesso soa uma vez junto à porta do depósito interno: o sistema anotando uma saída.
No caminho de volta ao vestíbulo conto os vidros da galeria: 24. O embaçado do vidro 21 se dissipou; o meio caractere de «água» já não está.
09:41, passo a cartão na entrada da Zona C. Fora do vestíbulo, 1 hora e 7 minutos.
De volta ao assento, tiro as coisas do bolso interno e as estendo na gaveta para uma passada: o bilhete, 3 linhas; a ficha, uma frase; aquela, dobrada — não a abro. Uma passada, e devolvo tudo ao bolso, uma coisa por vez.
09:58, chega Ji Lan. Hoje ela não traz casaco; na mão, um saco de papel kraft vazio.
Ponho a caixa na mesa da sala de entrevistas. Ela a abre, dá uma olhada, não a folheia.
Ela diz: Este é o volume principal.
Digo: É o volume principal.
Ela diz: Você o leu.
Digo: Li.
Ela diz: E o que viu.
Digo: Esta peça começou sendo uma decisão, não uma objeção. A objeção entrou depois, e o número da peça não mudou.
Ela anota no tablet. Ao terminar, ergue a vista.
Ela diz: O que isso demonstra.
Digo: Demonstra que, quando a objeção entrou, ninguém desfez o tomo para reencadernar, e ninguém mudou o número.
Ela diz: Isso é prática de encadernação; não conta como problema.
Digo: Sei que não conta como problema.
Ela tira um formulário do saco de papel, o preenche e mo empurra para assinar.
> Comprovante de entrega de documentos do Escritório de Auditoria > Entrega: 77413, volume principal, 1 tomo > Entregue por: HZ-4471 > Recebido por: JH-0117 > Hora: 09:58 > Observações: (em branco)
Ela rasga a segunda via e mo dá. Na segunda via, a letra dela é muito leve; nada que ver com o jeito dela de falar.
Ela diz: A conclusão, apresento amanhã.
Digo: Está bem.
Ela diz: A frase que você disse ontem, eu a investigatei.
Digo: Qual frase.
Ela diz: O «ordinário», o ordinário de quem.
Não respondo.
Ela mete o saco de papel debaixo do braço, pega a caixa e sai. Na porta diz: Passei a noite inteira com a sua curva.
Digo: E o que viu.
Ela diz: Não vi coisa nenhuma.
Ela diz: Estou na Auditoria há 19 anos. Vi 4 registros em luz vermelha. Os 3 primeiros estão no depósito de arquivo e nunca saíram dele.
Digo: E o quarto.
Ela diz: O quarto está na sua mesa.
Ela vai embora.
10:22, volto ao assento. Abro o terceiro compartimento da gaveta, tiro o carimbo e o ponho sobre o apoio do carimbo.
Cabo de madeira, aro de latão, 2 linhas na face: em cima BALANÇA · REVISÃO, embaixo 4471. Bordas gastas redondas, sem idade legível. Na face, cinábrio de ontem, bem seco; a unha não o levanta.
Devolvo-o ao terceiro compartimento e fecho a gaveta.
Ao meio-dia, no refeitório, Lao Ge se senta à minha frente. Hoje ele come 2 pratos. A meio minuto da refeição, ele solta de supetão: Aonde você foi ontem. Digo: A uma consulta. Ele diz: Consultar o quê. Digo: A lei velha. Ele põe os hashis de lado e me olha, 3 segundos, e diz: O que há para consultar numa lei velha. Digo: Um artigo. Ele diz: E achou. Digo: Achei uma frase. Ele pega os hashis de novo e diz: Uma frase basta.
A frase vem sem cabeça nem cauda; não respondo.
16:44, fechamento do dia.
> Revisor: HZ-4471 > Carimbos hoje: 8,765 > Tempo líquido: 5 h 17 min > Média: 2.17 s/peça > Erros: 0 > Erros acumulados (vinte anos no registro): 0
Olhei a tela de classificação. A primeira linha não sou eu.
16:51, devolução do carimbo. Quando a mesa se apaga, minha mão para sobre a gaveta, sobre o terceiro compartimento. Não a abro.
Antes de sair do vestíbulo, meto a mão no bolso interno. Aquela folha ainda está, dobrada em 3, atrás da ficha, atrás do bilhete. No bolso interno há agora 3 coisas.
O clipe enferrujado do volume suplementar, esse ainda não toquei.
A última linha do registro de consulta: se nesta consulta se retiram originais. O que escolhi: Não. A marca é minha.
Em 20 anos estampei o carimbo mais de 70 milhões de vezes. Na face do carimbo estão gravados 2 caracteres: revisão.