07:44.
A ordem de reencaminhamento pende no canto inferior direito do console; o campo do prazo saltou para 09:07:00. A cifra desce segundo a segundo, descendo parelha. Ela desce há 4 dias, das 72 horas até aqui; nunca mais rápido, nunca mais lento.
Devolvo o carimbo ao terceiro compartimento e empurro a gaveta até fechá-la. Esse gesto faço há 20 anos. A única coisa diferente hoje: ao terminá-lo, não estendo a mão para a ordem de reencaminhamento.
Visto o casaco e caminho para a entrada da Zona C.
A tela do registro de saída do vestíbulo fica junto ao leitor de acesso; tela de toque, os 4 cantos gastos a branco. 4 opções: banheiro, água, enfermaria, consulta. Aperto «consulta». Aparecem 2 campos a mais. Hora prevista de retorno: anoto 08:30. Motivo (opcional) — fico olhando 2 segundos, em branco.
07:47, o leitor de acesso dá um bipe. A 10 passos, viro-me e olho a minha mesa. O 77413 brilha na ranhura de documentos, um vermelho bem firme. Ele não precisa mais me esperar. Vou a caminho dele.
O anexo fica a oeste do edifício principal, unido por uma galeria; 6 minutos de caminhada. O vidro da galeria está embaçado, e alguém escreveu algo sobre o embaçado com o dedo e apagou metade: resta meio caractere de «água». Esse caractere faz muitos dias que o vejo por aqui, e sempre pela metade.
O subsolo do anexo fica sob a escada. Os degraus são de terrazzo; ao segundo falta um canto, falta-lhe desde há muitos anos, o vazio polido pelo uso. O cheiro chega antes da escada: mofo de papel, com cânfora por cima, e embaixo um ponto de ferrugem. Há 20 anos eu não sentia esse cheiro.
No pé da escada, uma porta de ferro. Nela pende uma placa de esmalte, letras azuis sobre branco, dois caracteres: Arquivo. Letra à mão; o traço final se arrasta longo. Na moldura, colado, um papel impresso: Horário 09:00—17:00, consulta com guia.
São 07:53.
Aperto a campainha. Uma campainha dos velhos: soa dentro da porta, num som abafado.
A porta abre uma fresta. Uma mulher, de pé atrás da porta: bata azul, uma mancha de tinta no punho, uma pena de mergulho apertada na mão, a ponta para fora.
Ela diz: Só abrimos às nove.
Digo: Sei.
Ela diz: Então espere.
Ela abre a porta de par em par: Entre, que lá fora faz frio.
A luz é amarela. Nada a ver com o vestíbulo, onde a luz desce de cima e não deixa sombra; aqui a luz cai sobre as estantes e as pinta de negro, faixa a faixa. 3 fileiras de estantes de ferro, do chão ao teto, com os números pintados a branco nas vigas. Os números não correm seguidos; saltam.
Ela diz: Que número.
Digo: 77413.
Ela pendura a pena de mergulho na orelha, repete o número em voz alta e, mal o acaba, caminha para as estantes. Não consulta catálogo nenhum.
Ela diz: Esse número tem volume principal e volume suplementar. O principal está no depósito interno; vai pelo sistema, precisa de guia. O suplementar está aqui comigo; encadernei-o eu mesma, e se lê o mesmo.
Digo: O suplementar.
Da terceira fileira ela tira um saco de papel kraft e o carrega nos braços, como se carrega um gato. Ao se voltar, pega da mesa, de passagem, uma folha fina e me estende.
Ela diz: Olhe isto. Papel carbono de 1998, o azul. Hoje não o fabrica mais ninguém.
O papel é tão fino que contra a luz se veem as fibras. No verso da letra azul imprime-se o fantasma de uma tabela; no pé, um número tão pequeno que é preciso tapar a luz com a mão para lê-lo: CQ-1998-0431.
Ela me devolve a folha: Que tal.
Digo: Fino.
Ela diz: Fino é o que admite letra clara. A gente daquela época escrevia de verdade.
Ela diz isso sem me olhar; olha a folha. Metade do que está nas três fileiras externas ela interceptou nas listas de destruição de vários órgãos; diz que isso se chama resgate. O que é de antes dos anos noventa, diz, diminui a cada ano, e o que falta já não se repõe. Pergunto: e o que não se pode repor. Ela diz: o que não se pode repor, se recorda. Depois solta uma risadinha por conta própria e diz que essa frase é do pai dela.
A lâmpada sobre a cabeça dela pisca 2 vezes. Pergunto-lhe: Quantas chaves vocês têm aqui. Ela diz: Três. Uma abre a sala de fora, outra o depósito interno, e há uma terceira que não sei o que abre; veio com o posto e, se me perguntar, também não saberei dizer.
Ela põe o saco de papel kraft na mesa de leitura e põe-se a desfazer os nós de cordão. Cordão de algodão, 2 nós. Desfaz devagar, com 2 dedos.
Enquanto desfaz os nós, pergunta: E isto, por que você o busca.
Digo: Tenho uma peça entre as mãos.
Ela diz: Com uma peça, ao sistema.
Digo: No sistema não está.
Ela solta um «ah» e não pergunta mais. Passado um pouco, acrescenta: O que não existe, às vezes está aqui.
Ela diz: Nó sobre papel não se corta com faca. Um corte e o cordão se parte, e o papel se parte junto.
O livro de registro é de papel, capa dura; na página aberta, metade é letra dela, miúda, inclinada. Empurra-me o livro. Data, hora, número do volume, usuário, finalidade. A finalidade ela preenche por mim: consulta de trabalho.
Ela diz: A guia do depósito interno eu preencho depois.
Digo: Que incômodo.
Ela diz: Nenhum incômodo. O volume principal hoje você não pode ver.
Dentro do saco há um dossiê. Capa de papel kraft, furos de encadernação nos 4 cantos, as paredes dos furos desfiadas. A capa traz impressa uma tabela:
> Número da peça: 77413 > Título do volume (manuscrito, desbotado): Lin Xiumei, objeção > Tomo: volume suplementar, 1 volume > Posição: três fileiras externas, coluna 7 > Lacrado: (carimbo azul, dezembro de 2085)
Abro a capa.
Dentro está a objeção, em letra de imprensa, com um entreletrado mais frouxo que o padrão atual. Igual, palavra por palavra, ao trecho do escaneamento. A diferença está mais abaixo: o papel é uma tabela, e no fundo da tabela há uma linha a mais, impressa do lado da lombada. Ao escanear, esse lado ficava apertado na dobra e não entrou na imagem. O papel, estendido, a solta.
> Objetante: Lin Xiumei > Objeta o fato da «revisão de pessoa natural» aprovada na decisão n.º 77413 > Pedido: que o revisor dê conta da aptidão do sujeito do ato de revisão > Fundamento: Artigo Zero da Lei de Revisão de Pessoa Natural > Anexos: 1. extrato da identidade da objetante (uma página); 2. extrato do registro de óbito (uma página) > Data de admissão: 11 de abril de 2085 > (Pé de imprensa, sem assinatura)
O Artigo Zero.
Leio a linha 2 vezes. A numeração de artigos começa no Artigo 1. A lei que levo 20 anos recitando tem 2 artigos e meio, e não tem Artigo Zero. Uma objeção de há 40 anos cita um artigo que não existe, faz fila 40 anos no sistema e chega à cabeça da minha fila.
No papel, o anexo 1 vai preso com um clipe atrás da objeção. O clipe está enferrujado, colado ao papel. Eu o aperto; um aperto, e não o retiro.
Do volume suplementar restam 3 recibos de admissão e uma guia de remessa. Os números dos recibos correm seguidos, sem saltos; o último campo, «admitido por», vai em letra de imprensa, sem assinatura no campo e sem carimbo. A guia de remessa diz de onde para onde; no campo de recebimento há um carimbo quadrado; o campo de revisão está vazio, e no vazio há uma linha a lápis, apagada, onde resta uma só palavra: esperar. O que esperava, não se alcança a ver.
Conto os nomes. No dossiê há 4 no total: 3 de tramitação e um, Lin Xiumei. Contar os nomes é a regra que Lao Zhou ensinou: Antes de cair sobre o número, o carimbo cai sobre as pessoas. Dessas 4, três não sei dizer de quem são, porque não há carimbo.
09:15:02.
Minha mão treme. 0.4 segundo. Eu segurava entre os dedos um canto da folha, e vejo tremer a borda do papel, um tremor pequeno, como se algo passasse por baixo do papel. Passado o tremor, o papel segue sendo papel. Aliso-o e o prendo sob o pisa-papel.
A He troca uma lâmpada no outro extremo das estantes. Em cima de um banquinho, uma mão na estante, a outra rosqueando. A lâmpada acende, apaga, torna a acender. Ela diz: Esta tem mal contato. Faz 3 anos.
Puxo no celular a Lei de Revisão de Pessoa Natural íntegra. São 2 telas. No campo de pesquisa teclado «Artigo Zero», e sai uma ficha:
> Pesquisa: número de artigo = 0 > Escopo: Lei de Revisão de Pessoa Natural, texto vigente (revisão de 2099, 2 artigos no total, uma disposição suplementar) > Resultados: 0 > Observação: A numeração de artigos começa no Artigo 1. Verifique sua pesquisa.
Teclado «autoverificação». 0 resultados. Teclado «submeter-se à prova». 0 resultados. Teclado «aptidão do sujeito». 0 resultados.
A He desce do banquinho e sacode o pó das mãos. Ela diz: Achou.
Digo: Consultado: não existe o artigo.
Ela diz: Então não está.
Digo: Ela o citou.
Ela diz: Citou errado, paciência. A gente de há 40 anos também escrevia errado.
Digo: Hum.
Guardo o celular. Essa frase eu a aceitei, e a aceitei com facilidade, uma facilidade que me assenta mal. Uma pessoa de há 40 anos escreveu mal um artigo de lei numa tabela destinada ao sistema. Escrito mal, admitido, numerado, lacrado, e 40 anos depois aceso em luz vermelha sobre minha mesa. Em todo esse circuito, nenhum elo conferiu o fundamento.
Conferir o fundamento não é tarefa da admissão; eu faço revisão, eu sei: a admissão só olha o formato, o conteúdo é coisa do carimbo. Mas esta peça caminhou da admissão até a cabeça da minha fila, e o caminho lhe levou 40 anos. Nesses 40 anos, 3,104 números de funcionário no registro se aposentaram sem exceção, e o campo de estado de nenhum trouxe outra palavra. Esta mesa, a minha, trocou de revisor 2 vezes, e o 77413 não entrou no turno de nenhum. 40 anos: quando terminou de chegar, lá estava eu.
Isso não o pensei; calculei-o: 40 anos, 3,104 pessoas terminaram a aposentadoria, o campo de estado de nenhuma trouxe outra palavra, e nenhuma ergueu a cabeça para olhar a segunda linha antes de terminar.
Digo: Vocês têm por aqui coisas da lei antiga. Notas legislativas, essas coisas.
A He diz: Temos. Na fileira do fundo, prensados embaixo. É preciso fuçar.
Ela diz: De que ano o quer.
Digo: O mais antigo.
Ela titubeia um instante e depois ri: O mais antigo. Está bom.
Ela se mete no outro extremo das estantes. Espero sentado à mesa de leitura, olhando os números das estantes. As três fileiras externas, numeradas de B-01 a B-47, com 3 saltos: B-13, B-26, B-31. Nas vigas ficam quadrados de tinta branca; o quadrado vazio, sem número.
Pergunto: Por que estão vazios esses 3.
Do outro extremo ela diz: Esses 3 espaços estão reservados para outras coisas.
Digo: Que coisas.
Ela diz: Não sei. Vazios desde que assumi o posto.
O volume suplementar conto de novo: 19 páginas, 6 delas páginas em branco encadernadas, com o pé impresso: «Página em branco».
11:03, A He grita do outro extremo: Está dentro do tal tal, um de capa azul, já o tenho na mão, espere um instante.
Digo: Por hoje eu volto já.
Ela deixa ver meia cara por uma fresta das estantes: Não vai ficar para ver.
Digo: Venho depois do expediente.
Ela diz: Então o guardo para você.
11:10, estou de volta à entrada da Zona C. Registro do leitor de acesso: fora do vestíbulo 3 h 23 min. A hora prevista de retorno que anotei foi 08:30. Na tela, ninguém opina sobre esses 2 números.
A mesa de Lao Ge fica no meu caminho de volta ao assento. Hoje a segunda leitura dele demora mais que de costume. Ao passar, ele ergue os olhos e diz: Você saiu. Digo: Saí. Ele diz: Ah. Só quando levo 3 peças carimbadas volta a soar o carimbo dele do outro lado.
À tarde, a carimbar como sempre. Tabuleiro de ponte, estação de bombeamento, a inspeção anual de 3 elevadores de um lar de idosos, impacto humano Grau 3, 27 nomes no anexo, conto 27. Às 15:37 levanto-me por água, encho o copo, trago, ponho à minha direita, sem beber um gole sequer.
16:20, soa a linha interna. Ramal 0417.
A He diz: Achei. De capa azul, um volume, o papel está quebradiço; o tenho sobre papel de seda. Depressa, que às seis eu fecho.
Digo: Vou.
16:44, fechamento do dia.
> Revisor: HZ-4471 > Carimbos hoje: 6,580 > Tempo líquido: 3 h 58 min > Média: 2.17 s/peça > Erros: 0 > Erros acumulados (vinte anos no registro): 0
A primeira linha da tela de classificação não sou eu. Ao passar, dou uma olhada: na primeira linha, um número de funcionário que não conheço. 2 segundos olhando, e sigo andando.
16:51, devolução do carimbo. A ordem de reencaminhamento aflora sozinha do canto inferior direito; o campo do prazo chega a zero.
> 00:00:00 > Estado: Vencido
Três caracteres, pretos, sem vermelho. As mesas do vestíbulo se apagam fileira por fileira, a começar pela Zona D. Fico onde estou e não me movo até terminar de lê-los.
17:06, estou de novo diante da porta de ferro.
A He deixou uma luminária na mesa de leitura; sob ela, um livro de capa azul, e sob o livro, papel de seda. Ela diz: Use luvas.
Digo: Você tem luvas.
Ela diz: Não. É só não deixar cair suor da mão.
Da lombada, a maioria das letras em ouro caiu; restam uns traços. Folha de rosto:
> Notas Legislativas da Lei de Revisão de Pessoa Natural > 2025
Viro à última página. As 40 páginas anteriores são exposição de motivos, tramitação, comentário artigo por artigo; letra miúda, entrelinha densa, um papel tão quebradiço que antes de virar a folha é preciso enxugar a mão na calça. Última página, último parágrafo, uma só frase.
> Quando a condição do revisor como pessoa natural estiver em dúvida, o revisor deverá submeter-se à verificação de si mesmo; só depois a revisão será válida.
Abaixo, sem sanção, sem procedimento, sem data de entrada em vigor, sem número de artigo. No pé, uma linha miúda: Esta página nunca entrou no corpo da lei.
Copio a frase numa ficha. A ficha me dá A He: em branco, dura, com um furo na borda e um cordão passado por ele. Pergunto se vale copiar à máquina; ela diz que a copiadora quebrou no ano passado e o chamado de reparo segue sob o vidro da mesa, faz um ano.
Na minha ficha ela estampa um carimbo, azul, pequeno: «Extrato autorizado». O campo da finalidade ela preenche: consulta de trabalho.
Digo: Obrigado.
Ela diz: Que obrigado, o quê. Se de verdade for útil, me avise. As coisas daqui, no ano inteiro, as usam gente contada.
Ao sair, A He fecha os armários à chave; soa o molho. Ela diz: Terminado de ler. Digo: Terminado de ler. Ela diz: Se copiou errado, não me culpe. Digo: Copiei 2 vezes.
18:12, entra o trem de pessoal. Vazio. Tomo meu assento de sempre. O trem passa pela prefeitura e os caracteres vermelhos da placa varrem o vidro: taxa de carimbo 99.9997 %, ao lado do hidrômetro e do medidor de luz, mesma tipografia, mesmo corpo.
Em casa às 18:40. À jiboia do parapeito caiu mais uma folha, caída sobre a terra, enrolada, um toque e se desfaz. Despejo meia xícara de água; a água vaza pelo fundo do vaso e forma uma poça pequena no parapeito. Limpo com um pano.
No poço resta ainda menos da metade da tinta da manhã. Moio 20 voltas e escrevo os dois caracteres de «apto». Quando termino, olho: o esqueleto está; os traços apertados. O papel vai sob a pedra; a pedra não se lava.
O caderno de erros, aberto: a última entrada é a entrada de Rǎn, do inverno passado. A ponta para um instante sobre o papel; a data de hoje segue sem ser escrita.
Antes de dormir ponho o casaco pendurado no encosto da cadeira. No bolso interno há agora 2 coisas: um bilhete, 3 linhas, um número, duas datas; e uma ficha, uma frase, escrita há 100 anos, na página que nunca entrou no corpo da lei.