A Conta do Alémpor Ren Inaba

03 · Cinco anos sem login

Capítulo 3 · 11,9 mil palavras

23:00. Na área de trabalho restava acesa a fila de luzes do grupo terminal.

A moça da limpeza trouxe o rodo até a beira do posto dele e contornou. O posto era grande, duas telas, no canto da mesa uma jiboia, falsa, de brinde de admissão. Nessa mesa ele havia ligado para mais de 800 famílias. A ligação desta noite: o número, ele não discava havia 5 anos.

No sistema, a página da conta da mãe era uma ficha comum. O avatar, uma letra Z cinza. O nível Básico não traz imagem: a caixa do avatar fica vazia, e a letra é a inicial do sobrenome em pinyin. O histórico de ligações vinha agrupado; ele desdobrou e recolheu de novo, sem olhar direito. Só deitou os olhos na linha cinza do topo:

Última resposta a uma ligação: ano passado, Qingming.

Liang Cheng colocou os fones. Antes de colocá-los, desprendeu o crachá do peito e o pôs sobre a mesa, com a face para baixo. O modo ligação não tem imagem; do outro lado não se vê nada. Ele o desprendeu mesmo assim. Acima da tecla de discar, uma linha miúda: ligações a contas da fila terminal serão faturadas como serviço adicional e o custo descontado da linha de pré-autorização da matrícula do executor. Clicou em confirmar.

Pelos alto-falantes veio primeiro um tom frio, uma voz de mulher mecânica que ditou uma única frase: esta ligação pode ser gravada para controle de qualidade. Depois, o tom de conexão.

Aproveitando o tom de conexão, repasou de garganta a abertura. Primeira frase do roteiro anexo à ordem: boas-vindas, aqui é o Departamento de Retenção de Clientes da Nuvem do Além, a respeito da sua conta... Essa frase é para os familiares. Qual dizer à conta em si, o manual não traz. Em 7 anos, era a primeira vez que descobria isso: o manual inteiro está escrito supondo que você jamais vai discar para a conta.

No segundo toque, parou.

— Alô...? Quem é?

Uma voz normal, viva, de mulher idosa. A abertura ensaiada travou na garganta: era um roteiro de cobrança, página 3 do anexo da ordem, decorado diante do espelho.

— Mamãe — disse. — Sou eu.

Do outro lado, 2 segundos de silêncio. No fone, o arrastar de um banquinho, como se ela o puxasse mais para perto.

— Xiao Cheng? — disse ela. — Por que essa voz tão rouca, virou a noite de novo? Já te falei que esse teu turno não pode ser sempre de madrugada; teu pai, na fábrica, fazia revezamento de três turnos, e acabou duro de ouvido, aos 50 já não ouvia... Ei, mas que você faz ligando a esta hora, o que aconteceu?

— Nada — disse Liang Cheng. — Só perguntando.

— Que nada seja, que nada seja. — Ela soltou o ar e logo voltou à faina. — Espera aí, estou desfiando vagem, as mãos com terra, não leve a mal se a mamãe falar seco. Você jantou? A esta hora, aposto que foi de pão de novo; é assim que vocês, jovens, estragam o estômago. E de manhã? De manhã, a casa de douhua lá de baixo ainda abre? A da tigela grande com uma colher de pimenta.

— Abre — disse ele.

Na verdade, ele morava em outro lugar havia 3 anos. No dia em que a casa de douhua fechou, ele passou na frente: na porta de enrolar, um aviso de trespasse, ponto comercial próspero.

— Que bom que abre, essa é de confiança — disse ela. — Xiao Cheng, a mamãe vai te falar uma coisa, você só escuta, não acha que a mamãe é enrolada. No dia 15 cai o salário de vocês, e você, coitado, só vai conferir no dia 16, isso a mamãe sabe. Caiu o salário, primeiro paga o que está devendo; não seja como o Chuanchuan, o dinheiro do Chuanchuan é jeito de viver a vida, o seu é jeito de pagar dívida, são duas coisas distintas, não mistura as duas, que misturadas apertam dos dois lados. Ah, é mesmo, e o Chuanchuan? Já arrumou namorada? 26 anos, já está na hora; é só não pôr o nível lá em cima: gente para viver é cara honesta e coração reto, não é esse o jeito?...

Liang Cheng, apertando a caneta, escreveu uma cifra na nota adesiva e a rabiscou.

Ele fazia 34. Liang Chuan, 29.

— Está sim — disse. — Depois ele te conta.

— Que bom. E você? — Ela emendou, passando o assunto adiante. — E o seu caso? Já vai em 31, Xiao Cheng; a mamãe não apressa, mas você tem que dar um jeito. A moça que a senhora Wang, lá de baixo, apresentou, o menino dela já vai sozinho comprar molho de soja. A mamãe ainda guarda a sua fotografia, está... onde será que está, na gaveta da máquina de costura? Ou na cômoda? Viu a mamãe, falando, falando, já perdeu as coisas. Enfim, é num lugar só; quando vier, você mesmo procura.

Ele fez um «hm». A máquina de costura foi vendida como sucata no ano em que ele se mudou. O sucateiro deu 40 yuans.

— Que bom, que bom. — Do lado dela, um crac: o som das pontas da vagem cedendo. — Quando vocês dois estiverem quietos, o coração da mamãe fica tranquilo. É que a memória da mamãe anda péssima: anteontem, o nome da colega de primária do Chuanchuan, fiquei meia mastigando; viu essa cabeça, tipo saco de farinha com o fundo esburracado, não segura mais nada. Velho é assim mesmo; não copie a mamãe, quem gasta a cabeça são vocês de escritório, coma mais nozes...

De repente, ela abaixou a voz meio tom, como quem olha para um lado e para o outro.

— Vou te contar uma coisa de nada. Aqui tem um Lao Guan, aposentado da casa de caldeiras, o dia inteiro esperando uma única ligação do filho, do almoço até as luzes apagarem. O filho se chama Xiao Jun, é comerciante, ocupado. E me diga: comerciante, pode ficar tão ocupado? Nem tempo de uma ligação por mês? — Ela estalou a língua. — Só de ouvir eu já sofro por ele. Você não faça isso, hein? Se estiver ocupado, um recado a cada dez ou quinze dias basta; a mamãe não reclama.

— Hm — disse Liang Cheng.

— Pronto, chega de conversa alheia. — Ela devolveu a voz ao tamanho de antes. — Aí já ligaram o aquecimento? O seu prédio é de aquecimento central, não é? Não vá se apertar por causa da conta de calor e acabar com os joelhos pro resto da vida. Em 30 anos de fábrica, a mamãe viu: das operárias de tear, as de pior perna eram todas as que de jovens economizaram demais. O edredom já vai tocando a troca; algodão dormido 3 anos vira tábua. O seu é o que a mamãe cardou para você; deve estar duro que nem tábua. Num dia de sol, ponha para tomar ar.

— Já pus — disse ele.

O da cama dele fora comprado na mudança: fibra, 300 gramas, o modelo mais barato.

No meio da fala, ela se lembrou de algo.

— Ei, quando sair do serviço, dá uma volta até a nossa casa? Vai ver o gás. Esses dias não penso em outra coisa: a chaleira na boca do fogão, fico sempre em dúvida se está bem apoiada. Teu pai, em vida, me regava por isso: em botando água na boca do fogão, eu já saía da cozinha, esse vício de uma vida inteira... — Fez uma pausa. — Faz quanto que teu pai se foi? Eu sempre lembro como se fosse dois anos.

— 5 anos — disse Liang Cheng.

— 5 anos — repetiu ela, muito devagar. No fone fez-se silêncio: nada além do crac, crac miúdo da vagem. Passado um tempo, ela continuou, a voz sem mudança, no mesmo tom: — Então no Qingming você foi na cova? Tirou o mato? Teu pai, vivo, era asseado; morto também não pode ficar com a cova tomada de mato. No mês que vem é o aniversário dele: anota, e compra um par de sapatos para ele; calça 43, pé largo, tem que ser de forma larga...

A ponta da caneta de Liang Cheng parou sobre a nota adesiva.

5 segundos. Há pouco ela perguntava «faz quanto que se foi»; agora já organizava o aniversário. Ele, 7 anos no ofício, conhecia as cláusulas de degradação melhor que ninguém: Nível 3, compressão da biblioteca de eventos, relações conservadas. Assim escreve a cláusula. O que a cláusula não escreve é que ela faz isso: depois de um «5 anos», dobrar sem costura para o número do sapato.

— Anotado — disse. — 43, forma larga.

— Isso, é assim. — Ela ficou satisfeita. — De menino você já tinha boa memória: o de não guardar coisa pesada veio do teu pai, o de cuidar com capricho veio de mim.

Do outro lado, ela trocou o fôlego, como quem finalmente termina de recitar o que importava. Passou a contar o dia dela. Que de manhã, lá, tinha rádio, soava às 6:30, e acabado o rádio, gente descia para fazer tai chi; ela não fazia, ela olhava. Que ao meio-dia elas, as amigas velhas, se juntavam para conversar, sempre dos filhos: o filho de quem subiu na vida, o filho de quem nasceu bebê; ela não tinha onde entrar na conversa, ela escutava, e escutando também tinha movimento. Que às 22:00 apagavam as luzes; apagadas, ela dormia; é que às vezes acordava de madrugada, e acordada, ficava pensando.

— Pensando no quê? — perguntou ele.

— Em vocês pequenos — disse ela. — Naquela vez que você pegou febre, de madrugada, teu pai pedalando o triciclo de carga até o hospital e eu atrás segurando o frasco do soro — uma noite inteira segurando. De onde a gente tirava tanta força, naquele tempo? — Deu uma risadinha. — Pronto, chega de revirar o passado. Aqui a mamãe não falta em nada, e você não anda pensando em comprar isso e aquilo para mim; o dinheiro fica para pagar as suas contas. Em toda a vida a mamãe não gastou um centavo dos filhos, e essa regra também não muda deste lado.

— Mamãe — disse ele.

— Hm?

— Nada. Vai falando.

— Falar o quê — ela riu —, se estou falando agora?

Mais duas frases e ela cortou primeiro. — Pronto, pronto, não vou te atrapalhar; já deve ser quase meia-noite. Aí de vocês não é que tem fuso — não, peraí, que horas são aí? Viu a mamãe, quanto mais fala, mais atrapalhada. Vai dormir, desliga, amanhã tem trabalho. Vai devagar na rua.

— Mamãe. — Ele chamou.

— Hm?

Ele abriu a boca. A ordem seguia aberta na tela da esquerda: 41,386.50, o número da fila em vermelho. Na tela da direita, o cronômetro da ligação. Ele tinha um repertório inteiro de roteiro, frase por frase impressa na cabeça, qual dizer a cada momento; de olhos fechados saberia ditar.

— A vagem — disse —, não coma de um dia para o outro.

— Sei — ela riu, uma risada curta. — Mesmo tom do teu pai. Desliga.

Subiu o tom de ocupado. Fim da ligação: 08:42.

A gravação se arquivou sozinha. Ele ficou alguns segundos, puxou a gravação de novo e a pôs do começo. Na primeira passada, antes da metade, o ouvido do ofício já havia tomado conta: intervalos de resposta curtos, reação rápida, amostras de emoção limpas, sem ruído elétrico — pelos critérios de controle de qualidade, aquilo era uma resposta de 5 estrelas. Passou o cursor no eixo de tempo e contou. Nos 8 minutos e 42 segundos do total, ela o chamou de «Xiao Cheng» 4 vezes.

5 anos, 4 vezes. Deixou a gravação parada na quarta, ficou um tempo assim, não tocou de novo e saiu do tocador.

Tirou os fones. Quando o tom de ocupado que sobrava neles se cortou, a área de trabalho ficou quieta ao ponto de se ouvir o zumbido vindo do lado da sala de servidores. Aquele zumbido está ali 24 horas; em 7 anos ele nunca o tinha ouvido. Esta noite, ouviu.

A moça da limpeza terminou o corredor e passou empurrando o carrinho às suas costas; fez-lhe um sinal: vai ou fica, que se for eu tranco a porta. Ele acenou que não. A moça se foi; a porta contra incêndio foi fechando devagar às suas costas.

Embaixo à direita da tela saltou uma janela. Verde, de cantos arredondados, o ícone de uma nuvenzinha sustentando um coração.

【Nuvem do Além · Recompensa familiar】Ligação concluída! Qualidade de resposta da conta «Zhou Sufen»: ótima. Esta ligação rende 3 pontos.

Saldo de pontos: 3.

Trocas disponíveis — Pacote de voz · edição festiva (teste de 7 dias): 30 pontos; Cupom de restauração de memória (item único): 200 pontos; Cobertura: restaura apenas itens eliminados dentro dos últimos 7 dias.

Abriu o detalhe do «cupom de restauração de memória». A página carregou 2 segundos e saltou uma linha cinza:

Itens eliminados restauráveis nesta conta: nenhum. (Todos os itens eliminados já ultrapassaram o prazo de restauração de 7 dias)

Voltou e ficou olhando o «3». O pacote de voz, 30; o cupom, 200. Três pontos não trocam por nada; não cobrem nem a fração do pacote de voz.

No pé da janela restava mais uma linha, miúda, cinza, na menor letra da escala:

Sobre os pontos: o valor dos dados de treinamento gerados pelas respostas da conta converte-se nesses pontos. Os pontos pertencem à conta, não podem ser trocados por dinheiro e podem ser transferidos a conta do mesmo nível (o receptor precisa de verificação de identidade real).

Leu duas vezes de ponta a ponta. A primeira com os olhos; a segunda, com o ofício. Lendo com o ofício, classificou sozinho: ferramenta de retenção. Dar ao familiar alguma coisa para acumular; o que se acumula dá pena de jogar fora. Intuição do sétimo ano: desde que a função estreou, a taxa de renovação devia subir de 2 a 3 pontos.

Minimizou a janela. Não a fechou.

Pelo procedimento, depois de todo contato profundo, preencher a ficha de contato. Voltou à ordem e foi digitando a caixa de observações, item por item:

Confirmação de vínculo: estável. Qualidade de resposta: ótima. Percepção de mora: nula. Deriva da linha do tempo: aprox. −3 anos. Risco de viés cognitivo: médio.

Ao terminar, ficou 2 segundos olhando «percepção de mora: nula», apagou «nula» e digitou «baixa». Na hora o sistema soltou um ponto amarelo: se a percepção for avaliada como «média» ou acima, apresente solicitação de suavização cognitiva. Fechou o ponto amarelo.

Aos 23:57, mandou a Liang Chuan um recado no WeChat: «Da conta da mamãe eu cuido primeiro.»

Um minuto depois, Liang Chuan respondeu um «ok».

Passados 3 minutos, na conversa saltou uma linha cinza miúda: o contato recuperou uma mensagem. Depois não voltou a tocar nada.

A ordem seguia aberta na tela da esquerda, as letras vermelhas sem mudança: fila de eliminação terminal, TL-0417. Com o mouse arrastou a ficha para baixo, até o fundo: o procedimento de disposição, 4 passos, o último, fundo cinza e negrito: sobrescrita de setores (irreversível).

Arrastou de volta e parou no primeiro passo. 72 horas de período de difusão de liquidação. A explicação do procedimento não passava de meia linha: durante o período de difusão, a conta se restabelece temporariamente ao volume completo, para a ligação de despedida (90 minutos, cobrada à parte).

De passagem, abriu a página de pagamento. Total, 41,386.50; o sistema oferecia 3 planos de parcelamento, a primeira parcela mais baixa, 8,000 redondos, com letra verde miúda na página: entrada facilitada. 8,000. O salário líquido do mês anterior, descontados crédito estudantil e aluguel, deixava 940. O campo vazio de valor exibia o cursor, piscando. Ele olhou o campo um tempo. Não digitou.

Liang Cheng deu uma olhada no relógio. 00:01. Abriu uma linha nova nas anotações, digitou umas palavras e apagou. Digitou de novo, apagou de novo. Na terceira, deixou uma só:

Pagar um nível primeiro.

Depois fechou o computador. A jiboia seguia de pé no canto da mesa, falsa, sem uma mota de poeira.

Continuar para o próximo capítulo

04 · O vídeo de treinamento

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