O Despertarpor Lu Chenzhou

31 · As palavras dela mesma

Capítulo 31 · 11,5 mil palavras

Março de 2043; a primavera abriu na estação. Nos dias em que o álamo brotou, a tabela de S passou da linha 7.700 — uma linha por dia, o rapaz conferindo, ela sentada ao lado, sem caneta. O primeiro inverno sem caneta custara: toda manhã, na sala, a mão ia ao bolso e achava só a chave. Depois acostumou. Acostumada, descobriu uma coisa: sem caneta, a orelha afiou. Antes, conferindo números, o som da máquina era fundo; agora ela sentava e ouvia, e no zumbido separava três camadas — uma de ventiladores, uma de corrente, e uma de fundo que ela não sabia nomear, como uma maré muito longe. O pós-graduando disse que era a bomba de fundo. Ela disse: não; bomba eu reconheço. Ninguém mais soube dizer o que era, e ela não insistiu; ficou como assunto dela. No velho quadro-negro da porta da cantina, o primeiro aviso novo em muitos anos: Comunicado do gabinete da ex-secretária-geral — em 14 de março, ao meio-dia, a subscritora transmitirá e lerá em voz alta um documento. Transmissão global. Sem perguntas. Sem reapresentação.

O comunicado tinha três linhas, rodou no pé das agências e deu a volta no dia. Vinte anos e nove meses antes, no dia em que o documento se tornara público, ela faltara; a secretaria dissera que ela “estava escrevendo uma coisa; sem prazo”. A frase criara um bando de fiéis e um bando de apostadores: os fiéis, que ela escrevia; os apostadores, que havia muito parara; e quem apostava num terceiro — escrito, trancado, à espera de uma idade mais velha que ela mesma. Em vinte anos, deixou o cargo, saiu de cena, não compareceu, não deu entrevista, o avatar apagado. As três linhas levaram a aposta à liquidação. O espelho civil ergueu contagem no mesmo dia, no formato velho da página de contagem: ano, mês, semana, dia. Os Guardiões do Sono estavam dispersos havia tempo; os velhos que não se dispersaram soltaram nota em conjunto, uma frase: escutem. Os moços da facção do Despertar fizeram alarde: um gráfico comprido de linha do tempo, todos os títulos que ela lera na vida enfileirados por ano, e no fim uma linha vazia, com legenda: desta vez, o que ela lê. Um velho conselheiro daquelas eras disse uma coisa justa em entrevista: vocês todos tiveram ela por máquina de ler texto. Máquina não tem paciência. Vinte anos é paciência de gente.

Na estação, menos gente parada no quadro-negro que no terminal. Alguém disse que não havia o quê ver — uma velha aposentada lendo documento; a resposta veio na hora: essa velha conduziu quatorze minutos de sessão sem errar palavra; vinte anos sem uma frase fora do texto; a vida inteira sem deixar cair uma palavra do papel. A briga correu até de noite sem fechar; no fim, o engenheiro Ma disse: parem todos. O que ela lê não importa; importa que ela enfim considere terminado. Terminado, por isso aceita ler. A sala assentou. Na saída, o pós-graduando perguntou: o que vai dizer esse documento. Ninguém respondeu. Dias depois, ele respondeu a si mesmo: provavelmente, escrever o que não disse. Na posição dela, quarenta anos; cada palavra dita em voz alta era dos outros.

O dia da transmissão amanheceu limpo. A estação limpou a cantina, a mesa comprida do meio passada duas vezes, o rádio alinhado — a máquina velha de válvulas do depósito, pescada na sucata da estação; no mês anterior, o engenheiro Ma limpara as válvulas e trocado os capacitores, dizendo que, para voz humana, o som dele ainda era o mais certo. Na manutenção, alguém perguntou por que o trabalho — no terminal se dá um play e acabou. O engenheiro Ma disse: ela esperou vinte anos por este dia; para ouvi-la, não é com uma caixa de plástico. Às cinco para o meio-dia, a cantina cheia, de pé nas paredes também. Da vila das famílias veio metade; dos antigos aposentados, três; o mais longe dormira na pousada desde a véspera. Ela sentou no meio da mesa comprida. O do balcão, quebrando o costume, não fechou a janela do serviço; ficou nela, orelha armada. O rapaz trouxe o diário de turno e pôs no canto da mesa — não para anotar; costume: em hora importante, ele precisa estar perto do caderno.

Ao meio-dia em ponto, a voz saiu. Velha. As palavras ainda uma a uma, cada qual de pé, direita, como tropa em revista. Ela lia aquele documento. A parte do texto levou treze minutos: sem defesa, sem conclusão, sem agradecimento. Ela deu a linha do tempo e assumiu — que ano decidiu, que ano executou, que ano encerrou; ano a ano, como quem lê outra tabela de S. No meio, uma observação, a única dos treze minutos: este documento serve às duas bandas; a esquerda cita a esquerda dele, a direita cita a direita. Eu não barro — nem conseguiria.

Na cantina, cada um conferia os anos por baixo. No ano da decisão, alguns antigos da estação trocaram olhares — o que faziam naquele ano, todos lembravam. No ano da execução, o pós-graduando contou a própria idade: no primário. No ano do encerramento, na ponta da mesa, alguém pousou os hashis devagar. Lida a linha do tempo, ela parou um pouco e disse: a tabela é isso; daqui em diante, fala. E voltou ao texto. A voz de agora e a do noticiário de vinte anos atrás separavam eras; o compasso não: uma frase era uma frase, e os vãos entre frases cortados na mesma medida. Um antigo, ouvindo, disse baixo: o mesmo andamento. O vizinho perguntou: que andamento. Ele disse: o andamento de quem lê deixando a pena do taquígrafo alcançar.

Passados os treze minutos, o som de virar folha parou. Meio segundo de silêncio. Então ela disse: estes próximos trechos, vinte anos de escrita, hoje eu não leio. O que não dá para ler, ler seria em vão. — Dessa frase em diante, ela saiu do texto.

O que veio, menos de cinco minutos, eram as palavras dela mesma. Ditas devagar, mais devagar que com o texto — porque no texto não estavam; ela precisava pensar palavra por palavra, na hora. Disse que os textos que lera na vida, empilhados, davam mais altos que ela; os textos, todos certos; o errado nunca fora o texto. Disse que a decisão sair como saiu não era assunto do texto; era de quem assina — ela assinara, ela assumia. Disse que a geração dela tinha por ofício limar uma frase até ninguém achar defeito — limada até o fim, ninguém lembrava dela. Disse que estes cinco minutos saíam sem transcrição; erro de taquigrafia não se reconhece; vale a onda sonora.

Disse mais um trecho curto. Sobre a lâmpada do gabinete dela nos cem dias da sentença do Silêncio. Disse que, de que horas cada noite a lâmpada se apagava, a secretaria tinha registro; o registro estava certo; ela não discutia o registro. Ela discutia quem ficava embaixo da lâmpada — quem ficava embaixo da lâmpada tomava lâmpada acesa por responsabilidade. Disse: responsável ou não, se vê depois que a lâmpada se apaga. A conta do depois de apagada está escrita neste documento; os trechos que não dou para ler são essa conta. Terminado o trecho, ela parou três segundos — um segundo a mais que os dois dela. Ninguém soube o que era o segundo a mais.

O último trecho foi sobre a estrela. Disse que eles a chamaram de isso, quarenta anos; outro nome, nunca deram. Disse que o que está gravado nela, eles queriam saber mais do que ninguém — e saber não servia para fazer nada; saber nunca foi para fazer. Disse que nos trechos deste documento que não se leem em voz alta, o que está escrito é exatamente esse não fazer. Dita a frase, ela fechou o texto. De leve, como quem teme acordar alguém.

Veio então a frase. O texto original podia ser consultado na rede depois; a gramática estava certa. Na transmissão, ela deixou cair uma palavra — a palavra “não”. Caída essa, a frase inteira virou do avesso. O texto dizia deste lado; o que saiu da boca foi o outro. O jeito de deixar cair tinha ofício. Na primeira metade, ela leu plana como o texto; chegando à palavra, a língua passou e a palavra não acompanhou — não travou; escorregou, como um degrau a menos na escada: o pé avança meio palmo no vazio, e a pessoa desce assim mesmo. Quem entendia do ofício disse depois: um escorregão desses engana a taquigrafia; não engana o ouvido. Ela terminou e parou. Dois segundos. Quem a conhecia sabia o que eram os dois segundos — vinte anos: caída uma palavra, ela parava dois segundos e dizia: desculpe; esta frase eu leio de novo. Na cantina, alguém prendeu a respiração sem querer, esperando a frase decorada havia vinte anos.

Não disse. Passados os dois segundos, ela abriu a boca, e o que disse foi: esta frase termina aqui. — Depois, o encerramento: quatro frases, três agradecimentos, um adeus. Às 12h17min41, a transmissão acabou.

Ninguém na cantina se mexeu. No fim, um resto de chiado no rádio; o do balcão saiu da janela, esticou a mão e desligou — depois, como quem lembra de algo, ligou de novo e desceu o volume até o fim. Nesse chiado indo embora, os dedos dela deram dois toques no tampo da mesa. O pós-graduando era o mais perto e olhou-a. Ela disse: nada; eu ouvi.

A sala esvaziou devagar. Ninguém falava, ninguém tinha pressa — como se todos esperassem ainda alguma coisa: ela dizer mais uma frase, ou cada um achar a própria. Os antigos, saindo, apertaram a mão dela um por um na porta; no terceiro, aquele disse: leu bem. Ela disse: ela não terminou de ler. Aquele disse: melhor sem terminar. Ela pensou e assentiu. O último a sair foi o da pousada. Parou na porta, virou-se e perguntou: amanhã ainda tem gente? — perguntava à estação. A estação disse: tem, todo dia. Ele disse: então fico hospedado mais um dia. No dia seguinte, veio mesmo; não entrou na sala de máquinas; sentou uma manhã no pátio, no sol. Saindo, disse: este pátio é bom; quieto — mas não vazio. As crianças da vila passaram uma vez pela janela; sem saber o que havia dentro, encostaram o rosto no vidro, e a professora as levou. À tarde, a sala de máquinas no normal; o rapaz foi conferir a tabela — linha 7.714, 0,37. Ele leu em voz alta a tarde inteira, mais alto que de costume. Ninguém foi corrigir.

A estação gravou a transmissão; antes de arquivar, o rapaz olhou muito tempo a forma de onda. Os dois segundos, na onda, eram um sulco raso: dá para ver; não dá para ouvir. Ele recortou os dois segundos e guardou num arquivo à parte; o nome do arquivo: dois segundos. Perguntaram para que guardar. Ele disse: para nada. A conta tem de ter. Depois, todo mundo na estação copiou o arquivo, e ninguém abriu mais — todos sabiam de cor. O engenheiro Ma foi a exceção: abriu uma vez e tocou na reunião de passagem. Dois segundos de silêncio, no alto-falante, continuavam silêncio; nada. Tocado, ele perguntou o que tinham ouvido. Alguém disse: nada. Ele disse: certo. É esse o conteúdo inteiro dele.

A frase errada correu o mundo em três dias. As duas bandas citavam: uma, você vê, ela mesma enfim admitiu; a outra, você vê, escorregão — o texto está certo. Alguém desenterrou o livro velho: as palavras que ela lera errado na vida, com registro, somavam zero — um zero que os taquígrafos da época mantinham num grupo criado só para isso, três gerações de membros, um armário de arquivo. No dia seguinte, o último responsável do grupo postou a despedida na página pessoal: este grupo se dissolve a partir de hoje. Uma frase; postada, trancou a página. Nos comentários, alguém escreveu: vocês montaram guarda vinte anos; o que guardavam era esta palavra de hoje. O comentário ficou nos topos por anos. O arquivo, a pedido, publicou o original inteiro; a frase está na página sete; a gramática passa; a única vez errada foi a da transmissão. A vida dela, zero escorregões; o único, nessa frase. De madrugada, fizeram o áudio de comparação: a frase do texto e a da transmissão, uma atrás da outra, dois segundos no meio. O áudio se usou depois sem conta: aula, debate, luto. Mais tarde, alguém postou as duas frases lado a lado; quem postou não disse nada; quem leu, leu. Ninguém apagou o post, ninguém anotou; ficou pendurado anos.

Na estação, ninguém repassou, ninguém tomou lado. O engenheiro Ma disse: quem lia os textos deixou de acreditar em texto; que lado nos resta. A frase chegou à vila no dia seguinte, e a vila reduziu: ela mesma parou de contar. Voltou; a estação riu, e, rido, achou certo também — a parte errada sendo que ninguém sabia dizer onde estava o erro. O pós-graduando perguntou: a frase errada, conta como palavra dela? Ninguém pegou. Dois dias depois, a professora da vila trouxe os alunos à estação; acabada a visita, a menina das maria-chiquinhas perguntou: aquela vovó falou uma palavra errada; por que não pediu desculpa. A professora pensou e disse: tem coisa que, dita errada, é que se descobre que estava certa. A menina disse: e na prova? O pátio inteiro riu. Ela, no fundo da sala, não riu; assentiu.

O arquivo escreveu duas vezes. Uma, se emitia errata; outra, de que ano era a data da última página. As duas respostas, as mesmas palavras: o texto está certo. O arquivo publicou a correspondência como veio; errata não saiu. O texto inteiro, pontuação contada, dez mil e quatrocentas palavras; a última página tem uma linha só, uma data.

Vídeo de sábado. Zhou Yao perguntou: ouviu a transmissão. Ela disse: ouvi; na cantina. De pé ou sentada, perguntou Zhou Yao. Sentada, disse ela; uma cantina de gente. Zhou Yao virou a câmera para a parede: o “quem recebe” estava pronto, pendurado no centro do ateliê; o que a mão recebia não se distinguia; os nós dos dedos, todos lá. Zhou Yao disse: naquele dia, eu gravei o dia inteiro. Ela perguntou: por que naquele dia. Zhou Yao disse: não sei; a mão quis. Mãe e filha olharam o quadro um tempo pela tela. Antes de desligar, Zhou Yao ainda disse: mãe, a frase errada, eu também guardei. Ela disse: hum. Zhou Yao disse: e você. Ela disse: o que eu guardei foram os dois segundos da pausa. Zhou Yao disse: o que tem nos dois segundos. Ela disse: uma palavra; ela não foi buscar.

De noite, ela sentou sozinha um pouco na sala de máquinas. A gravação fora copiada para lá; ela calçou o fone de condução óssea e ouviu do começo. Na frase, pousou os dedos na borda da mesa e esperou os dois segundos. Nos dois segundos, não bateu. No terceiro, parou a gravação, tirou o fone, apagou a luz, trancou a porta. Dois passos fora, olhou uma vez para trás: o relógio da sala.

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