Na tarde do prazo de três dias, a casa de macarrão tinha uma coisa a mais da vez passada: Wang Chaosheng pôs sobre a mesa um rádio-gravador de deck duplo, a alça de ferro enrolada de fita adesiva amarela, e das duas gavetas de fita uma tinha tampa e outra não — carregou a fita na que tinha tampa. A casa era a casa das três da tarde; o cozinheiro atrás, e no lugar do que dormia, agora, um limpando as mesas — chegando à mesa deles e vendo a máquina aberta, contornou.
Ela pôs a caixa de ferro na mesa e empurrou pra ele. O canto de etiqueta que ficara da calibração, na caixa, enrolado pra cima.
Wang Chaosheng primeiro não tocou na fita. Tirou o recibo de debaixo da caneca, estendeu, prensou na beirada da mesa, e só então abriu a caixa, montou a fita, apertou a tecla. Dentro da máquina deu um clique, subiu o barulho da fita andando, uma camada de chiado bem plana. Ele não pôs fone; escutou assim mesmo, as duas mãos em concha em volta do copo de água branca. O contador de fita era de três algarismos; o da casa das unidades, quebrado num pedaço — oito e zero, um não se distingue do outro.
O chiado andou quase meia face. Quando as duas batidas do cano do aquecimento subiram, ele não se mexeu. Ao último som, o do pigarro, apertou o rebobinar, voltou, e tocou de novo. Passado o pigarro, parou a máquina.
Ele disse, esse pigarro. É seu.
Ela não respondeu.
Ele disse, fui seu parceiro seis anos. Ele disse, sua gripe tosse sempre assim.
Ele devolveu a fita à caixa de ferro com jeito de quem guarda uma porcelana: primeiro conferiu se a boca da caixa fechava alinhada. Das duas casas vazias de data do recibo, tirou a caneta e preencheu uma por uma; preenchidas, encaixou a tampa na caneta — no dedo que tampou, a mesma cor escura da fundição. Empurrou o recibo pra ela. Recebido, uma fita gravada. Sete caracteres e uma data; um caractere a mais, não.
Ele perguntou, e a renúncia.
Ela disse, não dá pra assinar. Ela disse, no procedimento, a renúncia se assina no dia da cerimônia, no local da coleta; assinada adiantada, não vale.
Metade dessa frase era verdade. A outra metade ela acabara de armar pra si mesma, na boca do túnel.
Wang Chaosheng a olhou um pouco. Trinta anos de velharia dão isso: estado, preço, origem, uma coisa é uma coisa — e na frase dele havia coisa misturada. Ele meteu a caixa de ferro na sacola de ráfia, prensada sob os dicionários, a corda dando duas voltas.
Ele disse, a fita eu fico com ela agora. Ele disse, a assinatura, se fala no dia da cerimônia. Assinando lá, a gente fica quites. Não assinando — Fez uma pausa —, não assinando, também não tem mais devolução. Coisa que passou pela mão não conhece caminho de volta.
Ela disse, sei.
Levantou-se; o segundo botão do capote militar, frouxo, enrolado num pedaço de linha branca. Ergueu a sacola e, já na porta, voltou-se — mas não foi da fita que falou: semana que vem, a Shushu de vocês passa na televisão. Todas as emissoras do mundo retransmitem. Fez um gesto com a mão, abrindo a porta: os meus compradores, nesse dia, ninguém sai de casa.
Ele foi. O limpador veio e passou na mesa deles duas vezes: a primeira, a mesa toda; a segunda, só o lugar onde a máquina estivera.
Na mesma noite ela pôs o recibo e a autorização na mesma gaveta; o recibo por baixo da autorização. A casa da renúncia, nas três vias, vazia como estava. Pensou: a palavra é coisa boa; uma palavra vale uma fita, um caractere por casa, e ninguém escreve a mais. Chegando ali, parou — esse pensamento não tinha cara dela; tinha cara de frase ouvida em outra boca.
O registro da aula de tradução de Zhou Shu chegou no dia seguinte, saco de papel kraft, reencaminhado pela estação. Antes ela não olhava fino; desta vez leu do começo ao fim. Nas entradas do começo de dezembro, o relato de Zhou Shu era ainda curto: aquilo disse, brilho. Falou quatro vezes. A camada de baixo mexeu primeiro. Em meados, as frases começaram a crescer — e o modo de crescer estava errado: não era dizer mais; era que o dito a mais era todo frase de molde. A entrada de catorze de dezembro dizia: aquilo disse uma palavra, significado: luminosidade; nível quatro; direção: pra cima; processo: em curso. Embaixo da casa da assinatura do relato, a tradutora-editora copiou igual.
Ela tirou da estante a via impressa de He Che e foi à seção das classes de palavra. Luminosidade, níveis de um a sete; nas palavras de direção, em cima vem em segundo. Cotejou: significado, nível, direção, processo — quatro coisas, nenhuma fora, até a ordem igual.
A regra de que o relato encurta a cada vez fora coisa da repartição; ela a guardava havia trinta anos. Agora era o relato que alongava a cada vez. Virou às páginas de trás e leu de novo a entrada do dia catorze. Nenhuma palavra errada. De lápis, traçou por baixo da linha um risco de leve — sem chegar ao fim. Parou.
À noite Zhou Shu voltou, sentou no dever, a porta na fresta. Acabado, saiu pra buscar água, e ela perguntou, hoje falou o quê. Zhou Shu, o copo na mão, pensou — esse pensar não existia antes; antes a frase descia junto com a água — e disse: aquilo disse uma palavra, significado: luminosidade; nível quatro; direção: pra cima; processo: em curso.
Ela perguntou, quando você mesma escuta, como é.
Zhou Shu disse, é desse jeito mesmo. Esgotada a água, acrescentou: falando assim, eles gravam rápido.
Ela não perguntou quem eram eles. Zhou Shu voltou pro quarto de dentro com o copo; passando pela beirada da mesa, os dedos foram planos — a mão inteira roçando plano a beirada, sem apertar. Ela ficou olhando a mão. Trinta anos atrás, alguém lhe disse que, encadeando, ela apertava o dedo na borda da mesa; um aperto, uma palavra. Foi Wang Chaosheng quem disse; ela mesma não lembra. Olhando agora outra mão que não aperta, entendeu de repente que nesta família o que se perdeu é a mesma coisa — perdida com trinta anos de distância, perdida no mesmo lugar.
A luz do abajur saiu pela fresta da porta, uma faixa. Ela fechou o livro de gramática; a etiqueta que He Che colara no lombo levantava na beirada — passou a unha, e assentou.
He Che veio no terceiro dia, sem avisar; da portaria telefonou pra cima, dizendo que tinha três folhas e queria entregar na mão. Ela o recebeu na salinha de reunião do terceiro andar. O gancho frouxo do quadro branco continuava frouxo; o projetor, apagado como sempre. Entrando, ele notou primeiro o quadro, esticou a mão e o aprumou; aprumado, o gancho ficou frouxo do mesmo jeito, e ele largou.
A mala de rodinhas seguiu atrás dele, uma roda soando. Pôs as três folhas na mesa comprida e empurrou. Proposta de Suspensão da Qualificação de Coleta de Tradução Profunda da companheira Zhou Shu. Na casa do proponente, o próprio nome de He Che; a data, vinte e um de dezembro.
Vinte e um. O dia em que ela discou o número dele, tocando até o fim sem ninguém, fora o vinte e dois. Encaixou as datas; não disse nada.
Ele disse, proposta partindo da ponta da coleta, no procedimento ela anda. Ele disse, a qualidade do relato caiu; entrou na fase de achatamento. Coletando mais, cada frase que entra no texto fica sob interrogação. O acervo de trinta anos: entrando uma frase achatada, atrás vem encrenca sem fim.
Ele disse tudo igualzinho, como quem lê. E de fato, nas três folhas, era o que estava escrito: cláusula um, cláusula dois, fundamento, anotação — na anotação, a citação da cláusula sete do Regulamento (experimental). Não se achava falha.
Ela perguntou, ela mesma sabe?
He Che disse, quem sabe que está achatada não vai ser ela. Achatada, a pessoa segura a via do padrão; a da mão e a da boca são uma só. Agora ela acha que fala melhor que antes.
Parou ali. No aquecedor da salinha, um pano estendido, seco; na borda, a marca de ter sido molhado e secar. Ele olhou o pano uma vez e recolheu a mão de cima das três folhas.
Ela disse, o telefonema da outra vez.
Ele disse, era isto que eu escrevia. Cheguei na segunda cláusula e fiquei três dias preso. A segunda tem que dizer se o relato dela ainda serve; servindo, não se fala em suspensão; não servindo — Não acabou: ergueu o copo de papel, o copo vazio, e pôs de volta.
Da mala de rodinhas tirou as duas caixas de cartão e pôs na mesa, a de antes do cinquenta, a de depois do cinquenta. Abriu a primeira, foi até uma casa, tirou um cartão, e empurrou. No cartão, letra dele, uma frase copiada: professora, a senhora lê a partitura; a gente escuta o instrumento. Embaixo, um traço horizontal; embaixo do traço, uma data anotada: vinte e nove de novembro.
Ele disse, essa não dá pra conferir. Ele disse, pela regra, o que não se confere não entra no sistema. A regra, seis anos fui eu que escrevi.
Recolheu o cartão e o recolocou na casa de origem, sem pressa. Então emparelhou as três folhas; emparelhadas, não as empurrou de volta — as duas mãos por cima, apertando.
Ele disse, a assinatura, não tenha pressa. A proposta eu entrego na segunda. Aprovada ou não, só o procedimento inteiro diz. Aprovada, você assine ou não, para; não aprovada — Parou de novo. Desta vez ela esperou um pouco; ele não emendou, e trocou de assunto sozinho: não aprovada, se fala depois.
Na saída, as rodas da mala soaram pelo corredor inteiro, até o pé da escada; dobraram, e acabaram. De volta à mesa comprida, as três folhas tinham ficado. Ela leu a segunda cláusula. Ficava lá o rastro de onde travara: o papel daquele trecho mais felpudo que o resto, borracha passando, e onde apagara, reescrito — a letra uma fonte menor que a das outras.
A proposta não andou o procedimento inteiro. Na sexta de tarde, telefonou a repartição regional: ir lá, terceiro andar, o assunto do documento se falava cara a cara.
A sala do terceiro andar ela entrava pela primeira vez. No aquecedor, um pano estendido, quase o mesmo da estação. Na mesa, uma placa de vidro; sob o vidro, prensada, uma folha — não era documento, era uma redação escolar, corrigida a caneta vermelha, o comentário ocupando meia página; no pé, sem nome, só uma data, data de mais de trinta anos atrás. Professor de língua, antigo. Ela completou de cabeça a casa que faltava na lista de gente.
Gu Ling era mais velho do que ela imaginava, o cabelo branco pela metade — não o branco da idade; o de quem não teve tempo. Serviu chá a ela; na caneca, as letras impressas da repartição. Primeiro empurrou um documento: as três folhas da proposta de He Che, e no canto superior direito um carimbo novo — não admitida; na casa do fundamento, uma linha: inconforme com o procedimento; a ponta de coleta não tem iniciativa em matéria de qualificação.
Gu Ling disse, o procedimento está certo. He Che, esse menino, em procedimento nunca errou. Por isso o carimbo só podia cair no procedimento.
Ela olhou o carimbo. A tinta vermelha, por igual.
Gu Ling disse, o relatório fui eu que prensei. Antes de prensar, telefonei pra ele, quarenta minutos. O que ele quer, eu não posso conceder. Na quarta que vem é a Cerimônia de Tradução Plena de Trinta Anos, transmissão para o mundo inteiro — recinto, sinal, acervo de textos, projeto aberto desde há três anos. As crianças da lista, cento e quatro; a fila, trancada no sistema faz um mês. Matéria de qualificação, a dez dias da cerimônia, nenhuma Sessão jamais parou.
Ela disse, ele citou a cláusula sete.
Gu Ling disse, a sete trata da qualidade da coleta, não da qualificação. Ele disse, se ele não fosse He Che, o carimbo caía sem sequer um telefonema.
Falando isso ele não tinha pressa; dita uma frase, uma pausa, como quem espera o outro pegar; não pegando, dizia a frase seguinte. Ela lembrou de alguém que falava com essas paradas — com trinta anos no meio, o que veio foi Wei Dongquan — e achou que não: Wei Dongquan parava esperando o lado de lá; esse aqui tinha virado costume de esperar alguém pegar.
Ela disse, o relato da Shushu já não serve. Ela disse, achatada, entra mesmo assim no texto?
Gu Ling disse, achatada ou não, não é minha palavra que decide, nem a de He Che. Ele disse, existe a seção de verificação.
Ela perguntou, a seção de verificação verifica o quê.
Ele disse, verifica o formato. Ditos os três caracteres, parou sozinho um instante, bebeu um gole; a caneca, ao voltar à mesa, girou meia volta sobre o vidro. Ele disse, nesta cadeira faz onze anos. Eu sei que formato não espanta achatamento. Já sabia quando corrigia redação: a leva de letra mais caprichada nem sempre escreve a própria frase. Só que a instituição reconhece capricho. Trinta anos, e o que o mundo inteiro reconheceu foi isto: a frase da criança não caprichada. Há trinta anos as crianças disseram por nós o que tínhamos a dizer — desalinhado, torto, babando, mas era a frase original. Na quarta que vem, mais de cem emissoras do mundo esperam uma frase original. Prensar uma proposta é pra que a credibilidade de trinta anos desta instituição não desabe sobre uma linha de palavra achatada — me faz a conta de como essa conta fecha.
A conta ela não fez por ele. Perguntou a que tinha vindo querendo fazer desde a porta: no Dia da Vigília, quem despachou o carro.
O carro chegara à porta no dia do registro, três dias antes do aviso; disso ela guardava conta havia quase um ano — no arquivo, nada; no caderno de registro da portaria, a casa do motivo, vazia.
Gu Ling não respondeu logo. Olhou pra placa de vidro, como quem procura a palavra dentro do comentário da redação.
Ele disse, fui eu que despachei. O carro não precisa de carimbo; o aviso, sim. Filho de família de intérprete, no livro de registro, casa à parte — desde a Primeira Sessão, casa à parte. No ano do seu registro, você já estava nessa casa. Em trinta anos, a casa somou quarenta e uma crianças; nasciam, e já estavam lá. A Shushu é a trigésima nona.
Ela perguntou, esperar o quê.
Ele disse, esperar a janela. Não é esperar que ela dê problema; é esperar ela abrir a boca. Frase original não passa dos doze anos; vai faltando, Sessão após Sessão. Nós, os adultos, a gramática fica ficando mais grossa — os três volumes de He Che também estão na minha mesa —, mas em trinta anos, quem disse a lá uma frase inteira, todos foram crianças. Eu não vigio a sua casa; vigio a casa do livro. Nessa casa, a Sessão da mãe dela é a única que disse a palavra cinquenta inteira.
Ela ficou sentada, sem se mexer. A redação sob o vidro, pertinho da mão dela; os dois primeiros caracteres do comentário vermelho: perder por. Os dois que vinham depois, presos no reflexo do vidro, ilegíveis.
Gu Ling disse, a renúncia, as três vias sem assinatura. Eu sei. Se quiser assinar, tem fiscal no local; assinada, a fila repõe no mesmo dia. Se não assinar — Recolheu de diante dela as três folhas da proposta e as meteu numa das pilhas de papel da mesa, pilhas grossas unidas por clipes, separadas por Sessão; a de baixo de tudo, o papel amarelando. Ele disse, não assinando, deixa a criança descansar até o dia. Esses dias, parada a aula, também pode. A proposta de He Che, ainda que não admitida, o fundamento dele eu encaminho à seção de verificação. Encaminhar eu encaminho; não conte.
Levantando-se pra ir, ela foi acompanhada por Gu Ling até a porta; na porta, ele disse mais uma, sem levantar a voz: a cerimônia de trinta anos atrás, eu também vi pela televisão. Nesse ano eu ainda dava aula. Fez uma pausa, esperando ela pegar; ela não pegou, e ele abriu a porta.
A van de volta passava pelo túnel, quatro quilômetros, as lâmpadas dentro em casas, casa a casa. Encostada na janela, ela repassou o dia do começo ao fim: uma fita que passou por uma mão, e um pigarro que a legitimou em pleno ato; uma proposta prensada sob clipes, e sob os clipes o papel amarelando da Sétima; uma casa à parte no livro, quarenta e uma crianças — a dela, em que número, ela não perguntou; a Shushu, a trigésima nona. Esse número ela anotou; onde anotar, não tinha; ficou guardado na cabeça.
Em casa, Zhou Shu no quarto de dentro, a porta na fresta. Antes de entrar, ela parou um instante na fresta. Zhou Shu não estava no dever; estava escutando. Fone nos ouvidos, o fio pendurado, a outra ponta não encaixada em nada. Sentindo gente na porta, Zhou Shu tirou um fone; o outro continuou preso.
Zhou Shu disse, quarta que vem. Eu sei. A professora avisou, vai dar pra câmera, mandou lavar o uniforme.
Ela disse, o professor He suspendeu a tua aula. Esses dias não precisa ir.
Zhou Shu tirou o outro fone, pôs na mesa, e o endireitou. Pensou um pouco, disse: então eu escuto de casa.
Ela perguntou, escutar o quê.
Zhou Shu apontou o fone e disse: aquilo que fala agora, de olho fechado eu sei o que vai falar. Fala brilho, eu sei que a frase seguinte é brilho de novo. Parou um instante, disse mais: igual a decorar lição.
A essa frase ela não achou emenda. Disse, lava a mão e vem comer.
Cozinhando, escutou barulho no quarto de dentro, foi ver: Zhou Shu com a caderneta de a conferir estendida na mesa, e no quadradinho do dia, letra. O mês inteiro, os quadradinhos com aquelas mesmas palavras, muito alinhadas, uma palavra por casa. No dia, o escrito era: brilho, brilho, brilho. Três casas, três palavras, o traço do mesmo tamanho, o espaço igual. Os dois meses de antes não eram assim: letra grande e letra miúda, uma apertando a pauta, outra saindo da casa.
Ela ficou na porta, sem entrar. Zhou Shu, acabado o terceiro, tampou a caneta, ergueu os olhos, viu ela, e disse: o dia é só isso.
Ela deu um mh. O calendário de mesa, prensado debaixo do telefone; foi, puxou, e virou até a casa da quarta que vem. Na casa, letras miúdas impressas: primeiro dia do último mês lunar. De lápis, deu um ponto na casa, pensou, e o ponto virou um círculo pequeno. Desenhado, empurrou o calendário de volta pra debaixo do telefone, prensando mais fundo que de antes.
Cinco dias.