A língua das criançaspor Amara Okonkwo

15 · O vale

Capítulo 15 · 13,3 mil palavras

No dia 3 de dezembro desceu ao setor de atendimento especial para a audiometria tonal; o relatório eram duas páginas, uma por orelha, um carimbo no canto inferior direito de cada uma, e ela alinhou as duas páginas, leu de relance as palavras dos carimbos, não virou pro verso conferir as fileiras de números, deu uma dobra e recolheu tudo ao envelope de papel kraft, por cima do mapa que morava no fundo. O carro saiu na manhã de 12; a estação concedeu três dias de licença de assunto particular, e na coluna do motivo do bilhete ela mesma escreveu, particular — o diretor parou um instante ali, não disse nada, assinou.

Na véspera da partida, a regional do órgão ligou.

Do lado da linha, o plantonista do terceiro andar, voz jovem, perguntas completas: três dias fora da área, destino sem cobertura, uma adquirente registrada, um responsável legal acompanhando; encaminhava ao setor jurídico, mandava acompanhante?

Ela disse, não manda.

Ele disse, então dá entrada como mudança de ambiente de contato.

Ela disse, não houve mudança.

Ela disse, o destino não recebe nada; o contato não pode ocorrer.

Ele parou um instante. Som de papel virando.

Ele disse, tem gente no órgão perguntando: entrar na zona de silêncio, isso é ou não é uma medida de intervenção.

Ela leu pra ele a linha do anexo II. Letra de Zhou Yu, não praticar intervenção não terapêutica, entre parênteses, o polegar atravessando a emenda. Leu sem pressa e disse, levar ela pra um lugar sem sinal não está escrito em nenhuma linha de medida de intervenção. Pra barrar, primeiro provem o dano.

Do outro lado, mais uma pausa.

Ele disse, então basta registrar.

Ela disse, registro.

Desligado, procurou a fotocópia do anexo II — o original morava no acordo; o acordo, na segunda prateleira da caixa de ferro de casa —, dobrou-a quatro vezes e a meteu no bolso interno da própria bolsa. Não sabia pra que levá-la. Levou.

No caderno de capa mole, duas folhas presas: o recibo de consulta da sala de arquivo e o recibo de indeferimento do conselho de ética. Ao fechar a bolsa, tirou o recibo de consulta e olhou o verso — uma página de registro nova que a sala de arquivo tinha acrescentado, o livro de empréstimo atrás da ficha J-7-013; em novembro entrara uma linha: dia trinta, sobrenome He, na coluna da repartição, o carimbo do órgão. Carimbo azul, cravado reto.

Olhou dois segundos e devolveu a página ao lugar, sem copiar.

Na noite do dia 11 ela foi ver Zhou Shu fechar a mochila. Zhou Shu fechava devagar: duas peças de roupa, a garrafinha, o carregador, e por último o volume verde, Pequeno Dicionário da Língua das Crianças, edição velha, fiapo nas beiradas. Ela perguntou, pra que levar isso.

Zhou Shu disse, pra levar.

Ela não disse mais. Os fones entraram por último, por cima de tudo, o fio enrolado.

A bolsa dela fechou rápido: caderno de capa mole, duas canetas, a capinha do medidor de campo de mão, uma pilha de cópias das autoavaliações de Zhou Yu — quatro trimestres, quatro medições, tudo abaixo do limite de detecção. Reldeu a pilha do começo ao fim. Quatro números impressos com a mesma retidão, duas casas depois do vírgula. Na última página escreveu a lápis um arquivar; lembrando em seguida que cópia é cópia, o que se escreve nela não fica, apagou a palavra — da borracha, ficou o sulco.

Na manhã do 12 ela deixou-os no aeroporto. Zhou Shu de mochila, a garrafinha no bolso lateral, os fones na cabeça — os de CH1-L e CH2-R, recolhidos fazia tempo, morando na cabeceira, e postos na cabeça naquele dia. No raio-X Zhou Yu pôs a mochila na esteira; a trena de dentro foi pedida, olhada, devolvida. Zhou Shu olhou pra trás uma vez, olhada de quem conta gente, não de quem se despede; contada, virou de volta.

A passagem dela ia só até a capital. Ficara combinado na hora da reserva: ela acompanha até o condado, à serra não sobe. Acompanhar até o condado ela não explicou a Zhou Yu, e Zhou Yu não perguntou.

Desceu na capital, trocou de rodoviária, três horas de ônibus até o condado. O condado tinha uma rua principal, uma ponte, e na cabeça da ponte a pousada. Segundo andar, janelas de madeira, tinta vermelha descascando; dentro, uma cama, uma mesa, o tampo sob vidro, e embaixo do vidro a tabela de preços e um horário de serviço escrito à mão. Garrafa térmica cheia, o gorro enrolado em pano.

Embaixo, Zhou Yu fechava preço com o motorista de carro de aluguel. Fechado, estendeu-lhe um bilhete; no bilhete, duas linhas, uma com o sobrenome da família da serra — Yang —, outra com um número de celular de onze algarismos.

Ele disse, se em três dias não vier chamada nenhuma, disca esse.

Ela disse, uma por dia.

Ele disse, lá em cima não tem. Eu subo meia légua, tem uma pedra grande, na pedra dá uma barra.

Ele disse, uma barra manda pra fora.

Receber, nem sempre.

Quando o carro saiu, Zhou Shu no banco de trás, na janela, os fones na cabeça. Ela ficou de fora, de pé, sem levantar a mão. O carro dobrou na cabeça da ponte; ela voltou à pousada, estendeu sobre o vidro a folha de roteiro, do tamanho do calendário de mesa, e a lápis desenhou um quadro pra cada um dos três dias.

A chamada da primeira noite veio às seis e cinquenta e um, voz picando, Zhou Yu de boca colada no fone.

Ele falava de coisas. Casa de madeira, segundo pavimento; embaixo, o fogo de chão; ao pé do fogo, uma cachorra velha, amarela. O dono de sobrenome Yang; o patrão Yang o levara de dia pra ver duas casas. Numa, dois pés de pilar podres; na outra, boa, pilares de madeira velha, o som do toque era som cheio. A água descia da serra em mangueira aparente; no inverno congela, precisa enterrar. A escolinha fica além do desfiladeiro, quarenta minutos a pé; no inverno, escorregadia.

Ela perguntou, e ela.

Ele disse, dorme. Dormiu onze horas.

Comeu duas tigelas de arroz de manhã.

No parapeito, alinhou pedrinhas numa fila, sete.

Ela perguntou, falou.

Ele disse, falou.

Ela perguntou, o quê.

Ele disse, que a cachorra tem uma orelha quente e uma fria.

Na linha, dois segundos de vazio. Ele disse, a barra acabou. Desligou.

Ela passou os itens pro caderno de capa mole — coisas e horas, como ele falara, uma linha por item: fogo de chão. Cachorra velha, amarela. Pés de pilar. Mangueira. Onze horas. Duas tigelas. Pedrinhas, sete. Orelha uma quente, uma fria.

No segundo dia ela mesma andou o condado. Na bolsa, o medidor de campo de mão da estação, máquina reserva, placa de empréstimo número sete, assinada com o Xiao Cai antes de sair. No parapeito da pousada, três marcas. Na cabeça da ponte, uma e meia. A TV de catorze polegadas da pousada, ligada, chuvisco na tela, o ponteiro subiu meia marca; desligada, desceu de volta. Copiou os números pro caderno e, no fim, acrescentou uma linha: mais baixo que na estação.

De manhã, no quarto, ela releu a pilha de autoavaliações de Zhou Yu. Quatro trimestres, abaixo do limite de detecção, papel de impressora; uma linha da tabela emendava torta, e o quadradinho torto era justamente o da primavera. Esticou a régua por cima, conferiu, e guardou a régua. O calendário de mesa não veio; desenhou os três dias numa página do caderno de capa mole, um quadro por dia, e cada quadro cumprido, um risco.

De tarde desceu ao armazém da cooperativa na cabeça da ponte e comprou um par de meias de criança, azul-escuro, na balança cem gramas. A balconista perguntou pra que idade; ela fez a altura com a mão, e a balconista tirou de baixo do balcão um par mais grosso — na serra faz frio, esse aí. Comprou os dois. De volta à pousada meteu as meias na própria bolsa, sem motivo; meteu, e pronto.

De tarde tirou do fundo do envelope de papel kraft a folha A4 com o mapa e estendeu no vidro. As três voltas de lápis continuavam, a terceira pisando a tinta. O pedaço cercado ela comparou um pouco com a serra da janela — a serra ao sul da cidade, sem camadas dentro da neblina. Dobrou o mapa de volta, pelos vincos de sempre, e o recolheu ao fundo do envelope.

A chamada da segunda noite foi curta, menos de dois minutos.

Ele falou coisas de novo. A cachorra velha, nove anos; o filho do patrão Yang a trouxera de colo, do alto da encosta. Na viga do fogo de chão, duas peças de carne curada no fumo, guardadas pro Ano Novo; o patrão Yang desceu uma, cortou fatias, Zhou Shu comeu três. Na casa do patrão Yang, duas crianças; a maior estuda na capital, a menor corre pelo chão atrás da cachorra, e a cachorra não lhe dá bola.

Ele disse, a casa, sem problema.

A água, boa.

Ela perguntou, e ela.

Ele disse, hoje não falou.

As pedrinhas, mudou de arranjo.

Ela perguntou, e as palavras.

Ele disse, não veio.

Amanhã ao meio-dia desce pro condado.

E desligou.

Primeira noite, seis minutos; segunda, menos de dois. No caderno de capa mole anotou os dois números em coluna, sem escrever por quê.

No terceiro dia ficara combinado: ao meio-dia na cabeça da ponte, almoço juntos, ônibus da tarde. Onze horas, ninguém. Disca Zhou Yu, desligado. Onze e meia, de novo, desligado. Combinado estava que antes de descer ele subia à pedra e dava uma. Ela esperou até um quarto pra meio-dia e, pelo bilhete, discou o número do patrão Yang.

O patrão Yang falava largo, machado no fundo.

Ele disse, o engenheiro Zhou? Tá, tá.

Desde cedo sentado na eira com a menina, diz que é pra ver a neblina.

Pode subir, a estrada é direta.

Ela fechou um carro. Vinte minutos de asfalto fora do condado, depois paralelepípedo, a neblina colada na cintura da serra; o carro andava um trecho, a neblina cedia um trecho. Na boca do vale o motorista parou.

O motorista disse, lá dentro não pega, espero aqui.

Ele disse, uma hora.

O ribeiro se passava por uma fileira de pedras, a voz da água alta, as pedras balançando sob o pé. Em cima das pedras ela parou e olhou o relógio, onze e cinquenta. Depois, estrada de terra; dos dois lados, campos já colhidos, e nos terraços lenha empilhada, empilhada com capricho, pilha sobre pilha, o topo de plástico prensado por pedras. Nos campos ficavam uns suportes de feijão colhido, os suportes vazios. A neblina abrira pela metade; do outro lado do vale via-se a casa de madeira, três pavimentos, telha preta, metade do telhado ao sol com arroz glutinoso ainda por recolher. Na beirada mais perto, sob o beiral de uma casa, cordas de pimenta vermelha, meio curada uma delas. Ela andava um trecho, parava um trecho; a cada parada a serra enquietava um plano, até não restar mais que o próprio passo, e ela aliviava o passo, e mesmo aliviado se ouvia.

A eira ficava na frente da casa de madeira, um chão batido aplanado. Zhou Shu sentava no banco da beirada, as costas pra ela, o rosto pra boca do vale.

Estava falando.

Lin Wanzhao parou onde o terraço acabava.

Daqueles sons ela não sabia dar nome a um. Não distinguia sentido, nem tonada — lembrou de uma frase dita ao telefone, só isso eu escuto, e nem esse só isso ela tinha. O que ela tinha era o relógio. Ergueu a manga e olhou.

Primeiro trecho, quarenta e um segundos.

Pausa; ela contou, doze segundos.

Segundo trecho, vinte e tantos, a segunda metade descendo, descendo até o último som fechar, fechado limpo.

Zhou Yu junto ao pilar do alpendre, o celular erguido deitado na mão, o cotovelo apoiado no pilar, o corpo emprestando firmeza da madeira. A cachorra sentada ao pé do banco, o focinho erguido pra boca de Zhou Shu; olhou um pouco e pousou a cabeça de volta nas patas.

Terminado o segundo trecho, Zhou Shu virou o rosto e a viu.

Zhou Shu disse, mãe.

Ela perguntou, que horas são.

Zhou Shu disse, eu escutei o carro.

Ela veio chegando. No banco, além de Zhou Shu, a mochila e os fones, o fio enrolado. Chegou ao banco e parou a dois passos.

Ela perguntou, o que aquele lado disse.

Zhou Shu disse, aquele lado não disse.

Lin Wanzhao disse, então você —

Zhou Shu disse, sou eu que tô falando.

Lin Wanzhao perguntou, com quem.

Zhou Shu abaixou os olhos pro pé; no chão, uma pedrinha, mais afastada que a fila das outras. Com a ponta do sapato empurrou-a pra perto, alinhando.

Zhou Shu disse, com aquilo.

Lin Wanzhao perguntou, aquilo escuta?

Zhou Shu disse, não sei.

Lin Wanzhao perguntou, então como você sabe que é hora de falar.

Zhou Shu disse, é a minha vez de falar.

Dito isso levantou, curvou-se pela mochila, pendurou no ombro. A garrafinha do bolso lateral balançou uma vez.

Lin Wanzhao voltou o rosto pra Zhou Yu. Zhou Yu tirou o celular do pilar; apagada a tela, é que o meteu no bolso.

Ela perguntou, gravou?

Zhou Yu disse, gravei.

Na hora de parar a mão tremeu, apertou escutar de novo.

Apertei outra vez.

O patrão Yang saiu de casa com o pegador de brasa na mão; vendo-a, passou o pegador pra outra mão. Disse que era só entrar pra se esquentar, o fogo tava bom. Ela disse que não, que perdia o ônibus.

Ele disse, a menina todo dia a esta hora senta aqui.

Três dias sentando. Eu pensei que era pra ver a neblina.

Olhou pro banco, prendeu o pegador debaixo do braço e disse, neblina o que, todo dia igual.

Ela não tomou a palavra. Rosqueou a garrafinha que Zhou Shu deixara no banco, abriu e fechou, apertada, e a meteu no bolso lateral da mochila. No fundo da bolsa alguma coisa empurrava a mão; apertou por cima do tecido, era o volume verde do dicionário, o canto duro. Ainda meteu um par de meias dentro, o grosso, ao lado do dicionário.

Na descida a neblina voltou a fechar um pouco. Zhou Shu dormiu no banco de trás, dez minutos de carro e dormiu, os fones postos pra dormir. Zhou Yu no banco da frente, dizendo ao motorista onde era o encontro de carros. Terminado, voltou o rosto pra trás, a voz baixa.

Ele disse, a casa eu quero fechar.

A entrada não é cara.

Ela perguntou, e você perguntou pra ela?

Ele disse, perguntei se ela achava o lugar bom.

Ela respondeu, a cachorra tem uma orelha quente e uma fria.

Ele não disse mais. Na travessia do ribeiro o carro sacudiu duas vezes, a cabeça de Zhou Shu bateu no vidro; a mão da mãe chegou pra amortecer quando o baque já tinha passado, e Zhou Shu não acordou.

Fora da boca do vale, vendo a torre de transmissão, o motorista encostou um instante — radar adiante, disse. Retomando, ergueu o queixo pra uma abertura na beira da estrada.

O motorista disse, esse vale, no antepassado veio uma turma. Tripés no ombro, quinze dias armados.

Ela perguntou, tripés de quê.

Ele disse, de três pernas, com uma panela em cima. Diziam que mediam tudo quanto é coisa.

Ela perguntou, e mediram o quê.

Ele disse, onde eu vou saber. Placa de outro estado.

Dito isso girou o aquecedor uma marca acima. Zhou Yu não voltou o rosto.

De volta ao condado, quatro da tarde. O ônibus era da noite; nas duas horas de espera deitou Zhou Shu na pousada e sentou-se à mesa, passando a gravação do celular de Zhou Yu pro próprio computador. Três trechos, um de quarenta e um segundos, um de vinte e seis, o silêncio do meio de doze. Pôs os fones da estação e escutou do começo.

A voz era de Zhou Shu. As palavras mais devagar que de sempre, os finais fechados limpos. No primeiro trecho, um lugar parava meio compasso e seguia; o som que seguia vinha um tiquinho mais alto que o anterior. No segundo, a segunda metade descendo, descendo até fechar. No fundo, um estalo de lenha no fogo de chão, uma vez, e a corrente da cachorra batendo no pé do banco, uma vez.

Fora isso, ela não distinguia mais nada.

Passou a gravação pelo programa de comparação da estação, uma volta de espectro. Plano. Embaixo, nem uma camada de subruído, nem uma marca, igual à tarde na eira com o medidor de mão — ligado, o ponteiro pousava no fundo e não saía; ela ficou um minuto e meio de pé, e ele passou o minuto e meio sem se mexer.

No caderno de capa mole escreveu: 14 de dezembro, céu limpo. Quarenta e um segundos, vinte e seis, intervalo de doze.

Terminado, voltou à página anterior, os dois tempos de chamada anotados na véspera — seis minutos, menos de dois — e por baixo deles somou os três números de hoje; somados, pousou o lápis.

Zhou Shu dormia na cama, o edredom só numa metade. Lin Wanzhao puxou o edredom pra cima, até o ombro; os fones não se mexeram — não era pra mexer.

Voltou à mesa, tirou o mapa de novo, estendeu no vidro. As três voltas de lápis, a terceira pisando a tinta. Pegou o lápis e deu um ponto dentro do círculo.

Dado o ponto, dobrou o mapa pelos vincos de sempre, recolheu-o ao fundo do envelope de papel kraft, no último lugar.

Lá fora não caía neve; a serra, preta. Desligou a TV da pousada, e o quarto ficou com a garrafa térmica vazando ar, uma vez, outra vez.

Continuar para o próximo capítulo

16 · As páginas em branco

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