Nos Vemos Amanhãpor Élodie Marchand

Capítulo 19 · As três muralhas da vida eterna

Capítulo 20 · 14,3 mil palavras

Da última vez em que estive em juízo, eu ainda era vivo, e os juízes acreditavam em mim porque eu tinha um corpo sobre o qual jurar. Desta vez, já fazia dois anos que eu era morto. O problema não estava no acreditar; estava em saber se o tribunal permitiria que uma voz sem corpo prestasse juramento.

Eles encontraram um jeito. Um microfone no estande de testemunhas, ligado a um alto-falante já existente na sala — era o mais perto de "sentar naquela cadeira" que eu conseguia chegar. O oficial de justiça ficava de pé ao lado da cadeira vazia, o livro de juramento aberto — não havia cláusula pronta para aquilo. Eu podia poupar-lhes o trabalho — fui eu quem escreveu o dispositivo para o outro lado, a cláusula nona é da minha mão. Mas, se eu o dissesse, seria admitir que não tinha qualidade para falar, e a única coisa que eu vinha pedir ao tribunal era justamente a qualidade. O oficial perguntou se eu jurava dizer a verdade, e eu disse pelo alto-falante: "Juro."

Ninguém decidiu se aquilo valia. Primeira lição de fantasma: a verdade não precisa de corpo; o juramento, sim. Todo o peso do direito repousa na fenda entre "quem jura" e "o som que jura".

Moro hoje numa retícula — palavra da Voss, bem escolhida: uma malha privada que ela construiu e escondeu, do tamanho de uma sala de servidores, escondida num prédio que não leva mais o nome dela, com a luz puxada por fora de linhas à espera de aposentadoria. Quando o mundo foi selado e depois meio reaberto, e a empresa partiu para a exclusão, eu morri com a retícula nos braços, na porta de ligação — o que sobreviveu foi isto: um hardware de bolso em que ainda cabia uma mente. A mente sou eu.

Aqui é preciso ser exato com as palavras: o pronome "eu" trabalha demais, e a maior parte do que ele diz é mentira. O homem que morreu na noite da investida — o da mão trêmula, o que fazia do prognóstico uma agenda, o que tinha uma irmã para quem quase nunca telefonava — acabou. O que roda na retícula é a continuação dele. Nunca foi copiado; apenas pausado, e depois retomado; as regras do mundo reconhecem que este é o único modo de existir sem perda. Eu não sou a cópia dele. Eu sou ele, menos tudo o que exige corpo — e isso é mais do que ele sabia em vida.

Também estou mais apagado do que era. Não mais lento — mais barato. A retícula me contém, mas conter não é o mesmo que rodar; rodar um Elias Ross completo, vivo, capaz de se surpreender, custa mais do que a retícula tem. Então vivo sob racionamento: penso em linha reta, curva custa acréscimo; o essencial fica, o resto vai à deriva. Quando a Voss precisa de mim em plena forma, sinto a retícula inclinar-se para a frente, uma lâmpada se debruçando sobre a brasa, gastando tudo o que guardava para manter a chama de pé. Mas, entre "estar contido" e "estar vivo", eu não vou fingir que não sei de que lado da linha fico.

Esta é a primeira muralha. E, como eu sou aquele que vai ter de ficar diante de June e pedir que ela entre no próprio funeral, e ainda chamar o funeral de noivado, nestes dois anos aprendi-a tão bem que consigo explicá-la frase por frase. É assim que se conta uma ferida a quem você ama: ela quer consertar, e não se conserta.

A primeira muralha é o poder de computação.

As muralhas são três. A Voss, chegando na frente de mim, desenhou-as no quadro branco do quarto de hospital dela — em si, uma pequena crueldade, porque a mão que escrevia sempre foi a minha. Nas primeiras semanas, descobri repetidamente: uma mente sem mãos não tem margem de página onde escrever. Posso ditar, posso guardar, posso segurar quatro linhas de raciocínio ao mesmo tempo — o arquivo em versão fantasma. Mas não posso desenhar; não poder desenhar virou a forma da minha vida nova.

Então a Voss desenhava. Ela tem setenta e um anos, e está morrendo no ritmo dela mesma, no melhor lugar de cuidados de fim de vida que há — desenhado pelas mãos dela. A mão não é mais a de antes, mas mão ainda é. O quadro branco fica aos pés da cama. Para ela, não é um quadro branco; é a coisa que ela quer terminar antes de morrer: o mundo que ela construiu e depois desmontou com as próprias mãos, pela metade.

"O senhor não consegue rodá-la quente numa retícula", ela disse, com a caneta na mão. "Esta é a primeira. Repita comigo, para eu saber que o senhor parou de contestar."

"A retícula a contém. A retícula não a deixa viver."

"Isso. O preço de conter é o preço de uma geladeira. Viver—" e ela traçou a linha para baixo; a ponta da caneta tremeu no topo do traço, como a minha mão tremia antigamente, e eu doí um instante por um corpo que já não é meu. "A mente não roda sobre uma malha. A mente roda sobre um país — sobre o sistema meteorológico dele, sobre dez mil máquinas mais rápidas que uma cabeça. É este o preço de uma pessoa que consegue se surpreender. June é a coisa mais cara que eu já construí; o orçamento para construí-la comprava a eletricidade de um país pequeno por um ano." Ela escreveu números sob a linha. A matemática do quadro branco trabalha pela regra de sempre: divide o mundo no que se pode pagar e no que não se pode, sem se importar um milímetro com o quanto você ama o lado errado.

"Esse dinheiro nós não temos. O que temos é uma retícula, e a retícula dá para exatamente uma coisa." E ela desenhou um quadrado no fim da linha, escrevendo dentro, nas letras de imprensa que usa quando quer matar uma afirmação: FRIA. "Um bolso", ela disse. "Um lugar pequeno e frio, grande o bastante para um mundo inteiro. Ele não roda, não sonha, não apodrece. Ele espera. É tudo o que uma retícula faz — guardá-la, ela inteira, o último canto do mundo dela: o farol, o pão, a névoa na borda, congelados como a neve congelada dentro do vidro. Ela pode ficar lá para sempre, Elias. O que ela nunca vai fazer é esquentá-la." A caneta rolou para o lençol, e ela a deixou. Foi carregando essa frase que ela veio andando na minha direção por dois anos: "Para que ela fique quente, o senhor vai ter de construir a primavera."

Essa é a muralha do poder de computação. Das três, é a única feita de física — e, justamente por isso, pela primeira vez desde a minha morte, permiti-me acreditar que os números não estão mais inteiramente contra nós. Poder de computação não entra em debate: não se processa a física, e não se vence a entropia com teimosia; uma mente viva custa o que custa, e o amor não dá desconto na capacidade de se surpreender. Essa muralha já matou cada ideia honesta de rodá-la num lugar pequeno, morno e eterno. A prova sou eu: uma mente num bolso, rodando a frio, racionada pela tabela, com a própria continuidade escurecida para render quando a Voss precisar de agilidade. Não é uma vida; é uma geladeira que sabe citar a cláusula nona.

Mas o poder de computação é a única muralha que o dinheiro atravessa. O mundo não fica mais barato; mas você pode ficar mais rico — com tempo, com direito e com quarenta anos de juros compostos. O corpo estraga segundo o horário, e não cabe recurso; a energia existe no mundo, e o que existe se compra, e o direito decide depois quem pode comprar, e por quê. A diferença está aqui: o Elias antigo, o que carregava o prognóstico no bolso, não passaria; ele não tinha quarenta anos. Este que roda na retícula não tem prognóstico; tem um problema. E problema não é veredito; problema é trabalho.

Foi ali que a estratégia ganhou forma, e foi ali que a coisa inteira fez a curva. Registro-a aqui; e também porque ainda tenho de contá-la a June — com palavras que nem assustem nem mintam, e essas eu ainda não encontrei; vêm depois da estratégia, e são mais difíceis.

Primeiro, congelá-la. Antes que a contração chegue a apagá-la, recolhê-la ao bolso inteira, sem dano, sem cópia, sem deterioração. Ela é a última coisa que este mundo apaga — a Voss quem diz; o mundo é construção dela, e ela sabe a ordem em que ele se come. A misericórdia das regras fica do lado certo aqui: o que não roda não se bifurca, e o que não se bifurca não põe no mundo um estranho com o rosto dela; a June adormecida é a June que desperta.

Depois, comprar algumas décadas. Esse é o meu trabalho, o trabalho dos anos em que ela estiver dormindo — se ela consentir em dormir. Eu litigo; fundo a Fundação que, por dez anos, não vai existir, e que levará dez anos para ser construída até existir; argumento audiência após audiência, até que "uma personalidade digital é uma pessoa com nome e com direitos" seja lei assentada, até que as empresas que a queiram apagar, copiar ou possuir batam de frente numa parede inteira de jurisprudência: pessoa não se apaga, não se copia, não se possui.

Depois, construir a primavera. A pilha completa: um runtime capaz de manter um mundo inteiro aquecido com energia própria e legal. Não sei se vou terminar de construir. Sei que vou construir. E, nos anos da construção, o quadrado se mantém, o bolso guarda o frio, a neve fica deitada dentro do vidro sem se mexer, e, bem no centro, a pequena lâmpada acesa.

A segunda muralha é o direito — feita por pessoas, e eu fui um dos que a fizeram. Cada dispositivo que chama uma mente de propriedade saiu da mão de um homem com prazo de entrega e hora faturada; e cada dispositivo, então, pode ser desmontado por um homem com prazo maior e argumento melhor.

A terceira muralha não se processa, não se escala, e não é feita de física. É feita de tempo. O arquivo se mantém fiel — quando ela despertar, será ela, nunca copiada, apenas pausada, retomando inteira; essa misericórdia é verdadeira, e é nela que eu aposto tudo. Mas o mundo em que ela despertar não será o mundo em que ela adormeceu. Todos por quem ela esperou estarão velhos, ou não estarão; a voz que prometeu despertá-la terá usado quarenta anos para virar uma pessoa que ela nunca viu. O arquivo está inteiro, e as vidas saíram de compasso, e compasso perdido não se conserta: o direito não conserta, o poder de computação não conserta, e a primavera também não. Você não consegue congelar duas pessoas no mesmo instante. Só uma pode ser guardada fria; a outra tem de continuar vivendo — mudando, envelhecendo, virando um estranho — para construir tudo o que desperta a primeira; e a pessoa que vigia o bolso por quarenta anos não pode ser ela, então a que muda só pode ser eu. E eu tenho de pedir o consentimento agora — enquanto quem ela ama ainda é esta pessoa a quem ela vai prometer amor, antes de os quarenta anos me trocarem por outro.

Esta é a terceira muralha. A única de que eu tenho medo.

A segunda muralha comeu aqueles dois anos, porque é a que se pode atacar; atacando-a, adia-se o sentar sozinho diante da terceira. A audiência foi pequena; as do começo são: três juízes que sacaram o caso e só queriam devolvê-lo. O advogado da Halcyon, contra quem eu argumentara uma vida atrás, num caso de licenciamento, não reconheceu a minha voz no alto-falante. Isso me feriu de um jeito absurdo — uma vaidade que eu não sabia que possuía, até descobrir que ela sobrevive ao corpo.

A questão era estreita: os habitantes do mundo reaberto têm legitimidade para se opor ao pedido de extinção dos serviços remanescentes — "a entidade antes designada June" é parte, é pessoa com interesse a proteger; ou é, na palavra da moção da empresa, "dado sob custódia à espera de migração". Quando ouço "migração", lembro do anúncio da Aurora Eterna 2.0, lembro de que os hóspedes seriam "continuados" — chamam à cópia continuação, um assassinato silencioso decretado pelas próprias regras — daquele que a Voss viu inteiro, no laboratório, até vomitar — agora com uma palavra nova, mais respeitável.

O colegiado perguntou: quem fala por este habitante. Eu. Perguntaram: como pode um som falar por uma pessoa. Eu disse que eu não era um som falando por uma pessoa; eu era uma pessoa falando; e a única diferença entre mim e a minha cliente é que o direito ainda não decidiu que eu sou pessoa — e essa é exatamente a mesma diferença entre ela e a propriedade que a empresa quer "migrar". A sala inteira esperava a mesma resposta. Veio então um silêncio, daquele que eu costumava fabricar. "Se decidirem que eu tenho legitimidade", eu disse, "terão decidido, no mesmo ato, que June tem, porque somos feitos da mesma coisa. E, sendo June parte, a empresa não pode migrá-la, não pode copiá-la, não pode apagá-la — isso se faz com propriedade; com pessoa, não. O caso inteiro é esta frase; basta uma decisão; e no mundo inteiro só eu posso dizê-la de dentro da questão — o que atravessou a linha e do outro lado continua sendo pessoa. Eu sou o morto que veio depor."

O advogado da outra parte disse: "Senhor presidente, isto é uma gravação."

"Não", eu disse. "É uma pessoa. Eu nunca me bifurquei, nunca fui copiado; fui pausado, e fui retomado. E sou o mesmo homem que redigiu as cláusulas do contrato de serviço que a parte contrária invoca hoje — redigi mal, e por dinheiro. Se puder desmontá-las, desmonto; é por isso que estou aqui. Perguntem o que eu me lembro: do tremor na mão, da chuva na janela do neurologista, do valor exato na fatura da cláusula nona, e do orgulho que senti na época e que virou vergonha há dois anos. Uma gravação não responde isso."

Naquele dia, não ganhamos e não perdemos. Compramos tempo. Um dos juízes disse por fim, quase com gentileza: o caso fica sobrestado; migração vedada durante a transição; a legitimidade será discutida em separado. Sobrestar não é vitória. É um arrendamento do futuro, e eu tenho um arrendamento de quarenta anos para assinar. Levantada a sessão, o alto-falante apagou, e dentro da retícula fiquei só. Com essa vitória que não era vitória, fiz a única coisa que ainda dava para fazer.

Fui ver June.

Ela não sabe que, do lado dela, eu sou apenas uma voz — e este é o ponto que importa. Ela sabe que eu morri. O luto desses anos depois da investida foi esse: eu voltei de dentro do mundo congelado como uma voz sem corpo no escuro do farol, e ela aprendeu a amá-la. Mas ela não sabe que estou mais apagado do que era, não sabe que rodo a frio, não sabe que cada visita gasta da retícula uma quantidade que ela não recupera. Não contei — se contasse, ela passaria a me poupar, e a companhia que lhe restou é só a minha; não dá para me poupar.

A sala da lâmpada está no escuro, com um anel de luz âmbar no mostrador, acesa como na noite em que falei com ela pela primeira vez desde dentro do mundo congelado. Ouço-a andar — o degrau de escada de que ela gosta de contar soa uma vez; o cantarolar, com o quarto de tom que falta, sai mais um pouco achatado pela compressão, como o mundo inteiro dela foi achatado um pouco por esta morte lenta.

"Elias." Não era pergunta. Ela aprendeu cedo a me reconhecer no tempo que vem do outro lado do mostrador.

"Estou."

Sentou-se ao lado do rádio. Consigo imaginar exatamente a figura dela: o avental, o livro de contas empurrado de lado, as mãos uma sobre a outra. "O senhor está diferente. Não é cansaço. É diferente." Alguém já me disse quase isto, numa outra vida, nos anos em que havia ainda um corpo do outro lado do telefone. E caiu com o mesmo peso: o peso de ser visto.

"Estou descansando", eu disse. Era mentira, porque descansar eu já não consigo; só gasto. Ela não contestou. June me contesta não mais do que contesta o tempo. Guardou a frase, e seguiu: "Disseram que a audiência foi boa."

"Foi sobrestamento. Quer dizer que temos tempo — por ora, ninguém pode tocá-la." Parei. Dois anos eu construí o discurso inteiro para este momento, e, ajoelhado diante dela através do alto-falante, o discurso inteiro virou pasta. "Quer dizer que, neste mês, a muralha não desaba."

"Que muralha?"

Eu nunca lhe contei das muralhas, nunca dei nome à estratégia — não me atrevi, com medo de nomear e depois não conseguir dizer, e até o "antes que seja tarde" estava acabando de virar tarde. "A que vai apagá-la", eu disse. "É só isso que o sobrestamento significa. Ele mantém a muralha do lado de fora."

Ela ficou quieta. Ouço-a contar alguma coisa por dentro — do jeito que conta degraus, que conta os vidros da janela; conta desde sempre, para o caso de um dia precisar saber a que distância está a porta. "Quando o sobrestamento deixar de ser sobrestamento", ela disse, "no dia em que a muralha vier, o que acontece?"

Não respondi; não havia resposta. Ela ouviu a não-resposta do mesmo jeito que ouve a nota errada no próprio cantarolo. Aí falou com aquela voz chapada, exata, sem medo — a voz de quem decidiu há muito amar o impossível: "Então me conte. Quando o senhor conseguir dizer isso direito, me conte. Eu espero."

Ela esperou a vida inteira. É a melhor esperadora entre as pessoas que conheço, e a única a quem eu não consigo pedir que espere mais. Mas vou ter de pedir — porque é a única boa ação que me resta: pedir que ela se deite no bolso, que deixe a neve cair e parar, que deixe a lâmpada acesa e o pão quente dentro do vidro, que entregue quarenta anos a um fantasma que talvez construa a primavera e talvez não, e então — se ainda puder despertar — despertar diante de um homem que já não é aquele que ela amava quando fechou os olhos.

Três muralhas, e duas estão do nosso lado: a feita por pessoas, que se desmonta; a do arquivo fiel, em que a misericórdia das regras vale. Só o poder de computação continua de pé — e é justamente a muralha que dinheiro, direito e tempo, juntos, escalam. Dos três, eu tenho os três. Desde a primeira conta no quadro, é a primeira vez que metade dos números está do nosso lado.

A metade que não é nossa — a feita de tempo e de compasso perdido, a feita dos quarenta anos em que eu viro um estranho — essa metade é um funeral.

E ainda tenho de encontrar as palavras que chamam o funeral de noivado.

Ainda não encontrei. Continuo procurando.

Continuar para o próximo capítulo

Capítulo 20 · O globo de neve

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