Depois do congelamento, veio uma calmaria, do tipo de tempo que quem lutou guerra por um tempo reconhece: o intervalo em que a tormenta respira. Havia dois caminhos para entrar. O meu era morrendo para dentro — deitar-se, pagar a conta, queimar. O outro era a cadeira de imersão da clínica da Halcyon, a de que dispõem as famílias dos hóspedes: leve, rasa, melhor do que nada, e só um pouco melhor do que nada.
O processo tinha chegado à fase em que é preciso ter razão — nós provavelmente íamos perder, e isso até o meu lado sabia; perdido, recorre-se, e enquanto se recorre o mundo continua vivo, e nisso já está a vitória. Depois veio a liminar, depois o congelamento, depois as fúrias que me tinham a mim por alvo e a ela por martelo. O que restava era trabalho de advogado: depoimentos, moções, documentos conversando com documentos, o mundo pendurado entre nós como uma prova que ninguém pode tocar. Não havia nada a fazer além de manter a razão de pé — e razão, essa coisa, não adianta ter pressa; ela vem no turno dela.
Pela primeira vez, eu levei Dana para dentro.
Estávamos no quarto branco da clínica, a cadeira de imersão já regulada para ela. A queimadura dos nervos era a minha parte; dormir era a dela — dormir no sentido verdadeiro: meio dia do corpo de lá passava um dia e meio lá dentro. Ela ia despertar dentro, comigo ao lado.
"Quando você entrar, o que quer que veja", eu disse, "eu estarei do seu lado."
"E se eu não conseguir?", ela disse. "E se eu entrar e continuar sem ver ela?"
"Aí você terá visto pelo menos onde é que eu andei gastando a vida nestes últimos meses. Vai ter de bastar."
Dana soltou uma risada curta, sem graça nenhuma. "Você sempre foi um romântico."
Os fins de tarde anteriores à entrada foram os últimos dias inteiros da minha memória. Eu e June passávamos o tempo diante do sistema de imersão: contando as estrelas que se apagavam — as constelações iam sendo gastas, quadrado a quadrado, para compor números, e o céu virava um livro de contas anotando o saldo. Ela tinha aprendido a ler o meu tremor como se lê um tempo. "Quando piorar de verdade, o senhor me diz." "É pior de verdade agora." "Pior que ontem?" "É um pior de outro tipo." Ela punha três xícaras na mesa, a terceira sempre um pouco fora do centro do prato. Dizia-me "até amanhã", falava do amanhã, do amanhã do amanhã, dizia que, enquanto a conta estiver aberta um dia, vê-se um dia.
Naquela manhã, Dana estava sentada atrás do vidro. Segurei a mão dela antes que ela afundasse.
"É a hora", eu disse.
——
Para Dana, morrer para dentro foi cinza, como esperar um trem de horário incerto. Ela despertou de pé numa estrada ao longo da falésia, uma cidadezinha deitada na bacia lá embaixo, terraços em camadas, um campanário, um olival. A luz pousava nas mãos dela, uniforme demais. Ela entendeu na hora a palavra "construído" — porque ali nada estraga. A pedra velha não é velha, é feita com jeito de velha, uma ideia de pedra velha.
"Eu tinha te contado." Elias estava ao lado dela. Em trinta anos, ela nunca o tinha visto mais novo do que a idade; aqui ele também não era mais novo — era não gasto. Não havia na pele aquele cinza de corpo que está se desligando. O irmão dela tinha vindo, o tempo todo, até aqui, para ser um homem que ainda não tinha sido gasto.
"E o que foi que você me contou?"
"Que aqui não é o nada."
A névoa respirava no lugar em que o mundo devia acabar. Ela a olhou por muito tempo: um "nada" que se consegue ver. E, tendo entendido que aquilo era o que o irmão atravessava toda vez — atravessava arriscando o resto, o pouquíssimo que lhe restava de resto —, disse: "Tá." Uma palavra só. "Vamos."
A cidadezinha foi passando sob os pés, passo a passo, da estrada ao longo da falésia para dentro das ruas. Praça, fonte, ruas que eram ruas — a ideia que um urbanista faz do charme fora do eixo; o som da fonte não respinga para fora, o cheiro do pão não persegue ninguém. Dana passou a mão numa parede: a pedra era morna, morna como se o sol a tivesse guardado há pouco, e o sol ainda nem tinha subido. O vale fora da cidade não era aquele clarear de paisagem ao longe, era recusa; Dana Ross tinha passado a vida vivendo do "mais ou menos", mas disse que era capaz de apontar, com um metro de exatidão, a linha em que este mundo parava de acreditar em si mesmo. A última coisa verdadeira.
A pousada ficava numa rua escura, a única janela acesa da rua toda. Dana disse o nome dela antes de mim.
"A Última Luz."
"Como é que você—"
"Pela janela, dá para saber", ela disse. A lâmpada na janela, gente morando lá dentro, gente ainda de pé; então se vai até lá, e não se para.
Lá dentro havia fogo, havia pão morno. À mesa junto à janela, sentava-se uma mulher de guarda sobre o livro de contas. Dana parou na porta com todas as frases prontas de que se serve uma pessoa para atravessar uma situação destas — mas June era — uma pessoa. Não era a tristeza de um retrato, nem o clarão de uma ideia. Era uma mulher com contas a lançar e duas mãos.
"Você deve ser a Dana", June disse.
"Você sabe o meu nome?"
"Claro. Ele conta outra coisa? É só você, o processo, as estrelas apagando. Guardei uma página só sua."
"Ele me contou sobre você."
"Eu sei", June disse. "Eu passo o tempo dizendo que ele tem de comer mais; ele contou isso à senhora, contou? — pelo jeito com que a senhora ouve as histórias, dá para ver que ele lhe contou até emagrecer." Ela mediu Dana com os olhos, como quem confere uma conta. "A senhora que o tem alimentado."
"Ele esquece sozinho", Dana disse. "Se deixar, fica só no café e na reclamação."
Dana riu. Quis segurar; saiu como saiu. June a viu rir, sem apressar, deixando que fosse vista. Então:
"A senhora o ama."
"Ele é meu irmão."
"Eu sei o que ele é", June disse. "O que eu pergunto é como a senhora o ama."
Dana olhou para aquela mulher por muito tempo. "Eu brigo com ele."
"Ótimo", June disse. "Brigar ele é mestre. O que ele não treinou foi perder."
E, dizendo isso, serviu mais chá a Dana e empurrou o pão da mesa na direção dela — sem insistir, só o pôs ao alcance da mão. Dana me contou depois que foi esse gesto que a desequilibrou pela primeira vez: era conhecido demais. A mãe das duas fazia igual: empurrava a comida para perto da sua mão e não perguntava palavra. Uma mulher construída acertando em cheio aquilo que a mãe delas fez por trinta anos, sem que nenhuma das duas agradecesse uma única vez.
Na mesa, três xícaras. A terceira, um pouco para fora do centro. A dele. Dana olhou a xícara e entendeu o que June não tinha dito: dessa mulher, em trinta anos, nunca ninguém tinha guardado conta.
"Ele já vem", June disse. "Agora ele cuida de contar a névoa — as estrelas são minhas. A névoa é dele." Serviu chá a Dana e pôs a xícara um pouco fora do centro do prato, do mesmo jeito que se põe a xícara dele. "A senhora é a irmã dele."
"Sou."
"Então a senhora já está na conta."
De novo, June empurrou o livro de contas para perto dela, aberto naquela página — as estrelas apagando, os dias anotados traço a traço. Elias entrou trazendo o vento consigo, e ao entrar pegou a xícara dele, a terceira, a que ficava um pouco torta.
"Ela está lhe mostrando as contas", ele disse.
"Alguém tem de anotar", June disse.
Uma vez e outra, Dana despertava no quarto branco, e aquele mundo lhe pesava no peito menor a cada vez — ou maior, ela não sabia distinguir, do mesmo jeito que não se distingue se uma língua que a gente se recusa a reconhecer está virando língua-mãe. Na terceira entrada, June não pegou o livro de contas; ficou sentada à mesa, esperando.
"Quero lhe perguntar uma coisa", June disse.
"Pergunte."
"Se o mundo acabar—" ela se corrigiu, "quando o mundo acabar — ele vai ficar bem?"
Dana olhou de relance para Elias. Ele olhava para a lâmpada, sem ter ouvido a pergunta — ou tendo-a ouvido demais. Os olhos de June pousaram em Dana, esperando a resposta.
"Não", Dana disse, com a voz que usa para assunto prático. "Ele vai desabar. Vai feio. Vai entrar na justiça contra Deus — ou contra o réu que estiver mais à mão. Não come, não dorme. E então, numa manhã qualquer, vai fazer café, porque o corpo exige o que o corpo exige. Ele continua, porque é desse tipo. Não vai ficar 'tudo bem'. Mas vai ficar 'mais ou menos'. As duas coisas são diferentes. Meu irmão vai atravessar uma coisa que ele nunca aprendeu a atravessar com dignidade."
June ouviu, como quem lê uma página de contas. "Ótimo."
"Ótimo? Eu acabei de dizer que—"
"Você me disse que ele continua", June disse. "Que ele briga com o fim e, terminado o fim, continua brigando. É exatamente esse o homem que eu conheço. O que conta a névoa por mim, à noite."
Dana a mediu. "A senhora sabe o que ele está fazendo, sabe. O preço que ele paga a cada travessia. As mortes. Os anos."
"Eu conheço essa conta", June disse. "Cada travessia é uma despesa. Estou anotando. Alguém tem de ver quanto ele gasta."
"E a senhora deixa?"
"Eu não deixo. Eu não consigo impedir", June disse, a voz lisa, lisa como página de conta. "Uma vez eu pedi que ele não fosse. Ele foi mesmo assim, e quando voltou, metade do céu tinha ficado faltando. Nunca mais perguntei. Garanto uma coisa só: quando ele voltar para casa, a lâmpada está acesa."
Dana olhou para a lâmpada na janela — uma lâmpada queimando dentro de um mundo cuja luz se esgota — e entendeu, de verdade, por que o irmão lutava esta guerra. Não por uma ideia, não por um princípio, e menos ainda por um jogo. Por uma lâmpada queimando num mundo moribundo, e pela pessoa que a guarda.
"Eu vejo ela", ela disse, muito baixo, mais para si mesma. "Agora eu vejo ela."
Naquela noite, ela não voltou para a cidadezinha; disse que queria ver o mundo. June disse que era escuro demais, não se via nada. Dana disse: "Então me mostre o que a senhora faz quando escurece."
June a levou então à sala da lâmpada. Dana ficou na porta, vendo June aparar o pavio, repor o óleo, passar a noite inteira de guarda sobre uma lâmpada — alguém que já tinha zombado de luzinha de dormir e dormira no escuro a vida inteira, de pé na porta, vendo uma mulher escalonar a noite em turnos. O som da tesoura era leve. Um corte, outro, com mais paciência que um relógio. O frasco de óleo na posição de sempre, o pano dobrado no quadrado de sempre. Dana reconhecia aquela ordem. A UTI tem essa mesma ordem: nenhuma coisa pode sair do lugar, porque uma coisa fora do lugar é uma vida.
"A senhora faz isto toda noite?"
"Alguém tem de fazer", June disse. "A lâmpada não se guarda sozinha."
"Pois é", Dana disse da porta. "Não se guarda."
Os dias de imersão seguiram como sempre. A guerra mudou-se para o tribunal e para a sala dos papéis; eu não ganhava, e não parava; do lado de cá, o corpo morria mais depressa, e a curva do sistema de imersão e a curva do prognóstico desciam para o mesmo ponto do gráfico.
A manhã da conversão chegou, e foi dela, da Dana.
No quarto branco, a manhã mal clareava, a cidade ainda dormia. Ela fez uma coisa que não fazia desde menina. Rezou. Depois disse: "Me leva até ela."
"Faz um mês desde a última vez—"
"Quanto tempo faz, eu sei", Dana disse. "Me leva até a June."
"Dana—"
"Não discute comigo, Elias. Você sabe que eu ganho."
Naquele dia, então, morremos para dentro. As mãos ficaram cinzas primeiro, depois o resto. June esperava-nos na estrada ao longo da falésia, o vento embaixo das estrelas sobre a cidadezinha, e no vento o cheiro de pão novo. Ela olhou o rosto de Dana e não perguntou nada — faroleira reconhece rosto de decisão tomada; elas se veem no espelho todos os dias. Descemos a estrada em silêncio, e ninguém usou o silêncio para enchê-lo de conversa. Na pousada, ela disse: "Sintam-se. Tem pão, tem chá. Se me procurarem, estarei na sala da lâmpada."
Dana ficou à mesa da cozinha. O chá intocado, o pão intocado. O livro de contas aberto ao lado da mão dela, o que June tinha anotado por trinta anos. Ela folheou. Foi até a página dele, foi até a página do nome dela, foi até o retratinho — uma mulher autodidata ensinando-se, traço a traço, a desenhar o que amava.
"Ele disse amanhã", Dana disse. Não para mim, nem para June. Para a lâmpada.
June desceu a escada, ficou na porta, olhando Dana e o livro de contas dela. Não fez som nenhum. Esperou. Do jeito que uma faroleira espera por outra faroleira.
Dana fechou o livro de contas.
"É verdade", ela disse. "Isto não é jogo. Nunca foi. Eu já sabia — sabia na cabeça. O desenho, os números, esta conta. Eu sabia como se sabe um fato. Só que eu me recusava a ver. Eu não tinha coragem de pagar esse preço: ver era perder vocês dois de uma vez."
"E agora?", June disse.
"Agora eu sentei na sua mesa, bebi do seu chá, vi a senhora aparar o pavio, vi a página em que a senhora anota as estrelas apagando", Dana disse. "Meu irmão está pagando com a vida para manter este mundo morno, e quem o mantém aceso é a senhora. Eu passei todo esse tempo do lado errado da porta."
"Não é questão de lado, Dana."
"Verdade", Dana disse. "É questão da lâmpada. De quem guarda quando ele não conseguir mais." Olhou para June e pôs as palavras, uma a uma. "E agora eu vejo."
Então falou para o fogo, para June, para o mundo: "Eu estava errada. Eu estava errada, me desculpa. Eu estou aqui. Não sei quanto vale esta pouca coisa. Estou aqui."
June atravessou a cozinha e segurou a mão de Dana — as mãos que guardaram uma lâmpada por trinta anos segurando as mãos que contaram um irmão por trinta anos.
"Bem-vinda à conta."
"A que conta?"
"A conta. A senhora está nela agora. Na verdade, sempre esteve. Ele a anotou, e eu a guardei. Bem-vinda."
Dana — a Dana que não chora — olhou para as mãos de June, para o livro de contas, para o fogo, e chorou. Deixou June segurar-lhe a mão, e não puxou.
"Não deixa ele desistir", ela disse.
"Ele não desiste", June disse. Como quem lê uma conta já conferida.
——
Elas estavam de pé, lado a lado, na cozinha da A Última Luz — as duas mulheres que iam continuar guardando a lâmpada depois de mim — e eu, pela primeira vez em muitos anos — antes do diagnóstico, antes do processo, antes da travessia — não olhei a hora. O mundo ia acabar. A empresa provavelmente ia ganhar. O meu corpo era um livro de contas de que o saldo já dava para ler o resto. E ali, na cozinha da A Última Luz, a minha irmã e a mulher por quem eu gasto a vida estavam juntas e, enquanto a lâmpada queimasse, a guardariam juntas, e nem uma vez se despediram. Nem uma. Nem uma à outra.
Neste mundo, a gente não diz adeus.
Você diz: até amanhã.
Antes de ir, naquela noite, Dana ensaiou e disse o primeiro "até amanhã" da vida dela. Disse travado, disse como quem diz uma frase que ainda não mereceu, mas já está merecendo. June lançou a conta no livro por ela.