Nos Vemos Amanhãpor Élodie Marchand

Capítulo 2 · O pão e o livro de contas

Capítulo 3 · 12,8 mil palavras

O livro de contas começou a encher-se de "nós". Foi a primeira coisa que notei depois que Adjei entrou na névoa: o livro que eu supusera reservado aos que partem também tinha lugar para os que ficam. A cada hóspede novo, June desenhava um — pequeno, econômico, cada um do tamanho exato da sua partida. Mas ela me desenhava mais de uma vez. Essa parte eu não entendia no começo, e não perguntava, porque perguntar equivalia a admitir que eu andava contando a minha própria página.

Ela desenhou-me de pé na chuva, no promontório. Desenhou-me com as mangas arregaçadas junto à lâmpada — arregaçadas do jeito errado, o meu jeito errado de sempre: um homem que passou meia vida em tribunais arregaça as mangas assim até onde não há tribunal, o corpo guarda o fardamento velho. Desenhou-me também lendo. Foi este que me parou — numa tarde virei o canto do balcão e ali estava: sentado numa cadeira que eu nunca vira ela mudar de lugar, com um livro que eu nunca vira ela notar, e o desenho tinha capturado o meu jeito de segurar o livro, inclinado para a janela, como se a luz e eu fôssemos velhos conhecidos.

"Quando você desenhou este?" eu perguntei.

"Numa terça", ela disse, sem levantar os olhos. Costurava uma barra de calça à luz da lâmpada, pontos iguais. Entendi que a barra não era costurada por minha causa, nem o desenho feito por minha causa — pelo menos não só. O desenho era por causa da conta. E eu estava na conta; enquanto um hóspede mora, a página dele não fecha, só fecha a página de quem parte. Ou seja — deixei a ideia sentar um pouco antes de terminar de pensar a outra metade — pela contabilidade de June, eu já era um dos que ficam.

Eu não sabia o que fazer com isso. Ainda estava aprendendo a gramática de um lugar onde ninguém pergunta do que você está morrendo.

O pote das coisas impossíveis morava na prateleira alta da cozinha, acima do pão, onde a luz da janela chegava. Andei por baixo dele dias antes de entender o que era, porque dentro do pote não havia nada que parecesse coleção — e essa é a prova mais confiável de que uma coisa é de fato uma coleção.

Era um pote de vidro comum, dos que já tiveram geleia, a tampa mal assentada, um anel de ferrugem no lacre. O que havia dentro — inventariei depois, porque inventariar é a minha religião, e a freguesia é pequena — incluía uma concha. Não uma concha inteira. Da mesma dobradiça nasciam duas cabeças, dobrada, estranha e perfeita, uma coisa que o mar fez uma vez e não fará segunda. Havia também o que eu tomei primeiro por um seixo branco e que, olhado de perto, não era seixo: era um pedaço de neve congelada, pequeno e denso demais, fora de lugar. Levantei o pote contra a luz e entendi: este mundo estava no verão. Fazia verão todas as semanas desde que eu chegara. E dentro do pote havia neve, e a neve não derretia.

"Essa neve é de verdade?" eu perguntei.

June veio, ficou ao meu lado e olhou o pote do jeito que olhava tudo: entregando-lhe a atenção inteira, como a uma página que ela pretendia guardar.

"De verdade o bastante", ela disse. "Caiu no primeiro dia do verão, três anos atrás. Caiu sobre a grama e não derreteu. Eu apanhei um pouco. Nunca derreteu. Não sei por que não derrete. Por isso está no pote."

Girei o pote nas mãos. A neve jazia no fundo, paciente, para sempre. Lembrei das cláusulas da minha própria religiãozinha: tudo derrete, o verão é emprestado, a grama sob os meus pés deve conta a alguém e cedo ou tarde a cobrarão. A neve do pote não devia nada a ninguém. Estava dispensada da dívida.

"O que tem mais?" eu perguntei.

"A concha", ela disse. "Um botão que não veio de lugar nenhum — achado dentro do pão, inteiro, sem um só buraco no miolo, como se o botão tivesse brotado do próprio pão. Uma chave que não serve em porta nenhuma. Uma moeda com um rei de que eu nunca tinha ouvido falar — e não é de rei que eu não ouça falar." Ela foi enumerando, no mesmo tom com que enumera qualquer lista, sem espanto — aos poucos entendi que isso não era falta de apreço. "São as coisas que não deviam existir, Sr. Ross. É isso que a coleção guarda. As coisas em que o mundo errou e depois decidiu ficar."

Devolvi o pote à prateleira. Não disse o que pensava: passei a vida inteira num ofício de decidir o que conta como erro e o que não conta, e nunca guardei um único erro. Devolvia-os, revisava-os, ou faturava as horas gastas em fazê-los desaparecer. Em todos esses anos nunca me ocorrera que um erro pode ficar. Pode ir para uma prateleira onde a luz chega, pode ganhar o nome de impossível, e pode-se ficar olhando ele não derreter.

O interlúdio na realidade daquelas semanas foi assim — registro conforme o livro, porque a contabilidade é a única coisa que não embaralhei:

Do outro lado daquele mundo, meu apartamento esperava por mim. Eu voltava num horário que não se consulta com ninguém, porque voltar é o preço de ficar, e preço se paga na moeda do mundo que se deixa. O apartamento era limpo, silencioso, não tinha cheiro de coisa nenhuma — cheiro que eu já comprara a dinheiro e no qual agora aguentava sentado algumas horas. O nome de Dana acendia a tela uma vez atrás da outra. Naquelas semanas, com frequência. Ela ligava, eu deixava tocar, e depois escolhia um intervalo que julgava longo o bastante para não faltar com a educação, curto o bastante para não faltar com o calor, e devolvia a chamada com a verdade em forma de resumo: eu estava em recuperação. Levava o programa residencial a sério. A comida era boa. Os cuidados eram bons. O lugar onde eu estava não era mau.

Eu estava de fato num lugar, e de fato era bom em descrevê-lo mal, e Dana, que me conhecia de uma vida inteira, ouviu a fresta — como se ouve uma nota errada numa música aprendida na infância.

"Elias", ela disse uma vez, perto do fim de uma dessas ligações. "Você parece diferente. Não é cansaço. É diferente."

"Estou cansado", eu disse. "Estou descansando."

"Você descansa sempre como quem está sendo auditado."

Essa era a Dana. Direta do jeito que uma porta é direta — não se contorna, só se atravessa, e eu nunca atravessei uma vez sequer sem deixar marca em nós dois. Não contei a ela nada da pousada. Nada da mulher que me desenhava, do pote das coisas impossíveis, da névoa que respirava por um horário feito coisa mantida. Nem uma palavra, porque eu não saberia dizer o que era aquilo, e eu passei a vida recusando dizer o que não consigo dizer com precisão.

No lugar, contei a ela uma mentira pequena sobre de onde eu vinha, a primeira da série, e me surpreendeu o quanto ela saiu fácil, lisa, morna, bem dobrada. Surpreendeu-me mais que eu gostasse do gesto de dobrar. Quem perdeu a confiança no próprio corpo aprende a acumular a única coisa que ainda executa exatamente as ordens — e a minha voz, descobri, ainda sabia pôr de pé um "em outro lugar" crível.

"Você devia voltar para casa", Dana disse. "A gente podia — tem coisas de que a gente precisa falar. Papéis. A casa. Eu vivo pensando que a gente precisa falar da casa."

"Sei", eu disse. "Logo."

"Toda semana você diz logo."

"Então isso vira um turno", eu disse, "e eu estou cumprindo o meu."

Eu ouvia que ela não ria. Eu ouvia que ela decidia, do jeito que ela decidia a vida inteira: apertar-me custava uma conta que ela não podia pagar. "Tudo bem", ela disse. "Fica onde você está. Mas quando você voltar, você vem primeiro me ver. Não vai primeiro para o apartamento. Vem me ver."

Eu disse que viria. Não foi a última mentira que contei a ela, nem a pior, e eu ainda não sabia — quero registrar isso com justiça — eu ainda não sabia, naquelas semanas, quanto daquilo que eu estava fazendo já era uma partida vestida de permanência.

June contava quando ficava nervosa. Não foi ela quem me contou; foi coisa que eu vi, do jeito que se vê um clima que se está aprendendo a ler. Ela contava os vidros da janela. Contava as xícaras — põe, põe, guarda, como na noite em que Adjei foi embora. Contava os degraus, e eu soube disso porque a peguei uma noite no patamar, os lábios se mexendo sem som, e quando perguntei o que ela contava, ela olhou para mim com o rosto inteiro e disse: "Degraus. Eu conto os degraus sempre. Caso precise saber."

"Caso precise saber o quê?"

"Caso precise saber", ela disse, "quanto falta até a porta."

Arquivei isso na pasta cada vez mais grossa das coisas que eu não perguntava. Eu notei que ela contava quando um hóspede estava ficando pronto — quando a espera endurecia para alguém e a partida se aproximava, as mãos dela encontravam alguma coisa que se conte. Contava os botões de um casaco que ela remendava. Contava duas vezes os cinco vidros. E como eu era um homem que faturava por item, comecei, sem querer, a manter uma espécie de livro de contas da contagem dela, e descobri que ela não era aleatória: apertava com a proximidade de uma partida. Era o jeito dela de ficar parada num mundo que, pelas bordas, estava sempre soltando gente.

Não contei que eu tinha notado. Apontar o mecanismo de relógio de uma pessoa de quem a gente já depende parece falta de educação, do mesmo jeito que um dia parecera falta de educação apontar a rachadura de fio de cabelo no cantarolar dela. Ela era das que guardam registros, e eu tinha começado a guardar um registro dela guardando registros, e eu sentia vergonha disso, e era também, como é regra nessas coisas, incapaz de parar.

A vergonha e o doce — dessas duas coisas preciso escrever agora, porque são as mais verdadeiras daquelas semanas, e as mais difíceis de erguer contra a luz sem se desfazerem.

Ela cuidava de mim. A frase é essa, e eu preciso manejá-la com cuidado, porque sou um homem que desconfia desse verbo do jeito que um ex-advogado desconfia de palavra que já foi usada para vender coisa a ele. Mas não há outra palavra, e ela pede a forma mais simples: ela cuidava de mim, e não esperava nada de volta.

Essa era a parte para a qual a minha vida inteira não me preparara. Ser cuidado dentro de uma transação, isso eu conhecia. A gramática da troca me era familiar — vinte anos dentro das letras miúdas dos tratos dos outros, e eu sabia que o pão, a barra costurada, o desenho no livro de contas, tudo isso estava lançado em alguma conta maior, e um dia venceria. Eu esperava a fatura. Eu procurava a cláusula que transformasse aquilo num contrato. A fatura nunca veio.

A vergonha era que eu não conseguia simplesmente receber. Eu me pegava tentando pagar na única moeda que tinha, que era a utilidade — cortava o pavio com demasiado empenho, carregava lenha que não precisava ser carregada, perguntava duas vezes se o ombro doía quando não doía, e cada vez que ela aceitava a minha ajuda era como aceitava o clima, sem marcar ponto, e cada vez eu entendia que o meu reembolso caía numa conta que não existia. Nisso ela não era livro de contas. Era a única pessoa do lugar que não administrava o ficar como negócio.

O doce ficava por baixo da vergonha, e levei semanas para deixá-lo subir. Era o doce de ser recebido — de estar sentado ao balcão enquanto ela punha a terceira xícara sem que eu pedisse; de ela saber que eu gostava da beirada dura do pão e me guardar a beirada de lado; de ela me desenhar lendo, porque tinha visto o meu jeito de ler. Ninguém jamais ficara tão perto de mim guardando-me sem querer nada em troca. Acho que foi a primeira vez na vida que entendi o que a gente quer dizer quando diz que ser cuidado pode parecer um lugar.

Naquela época eu não teria sabido dizer. Eu ainda estava preso à gramática da troca, e só sabia que estava ficando em Aurora Eterna por trechos cada vez mais longos, que aquele mundo tinha virado o meu endereço sem pedir licença, e que o apartamento do outro lado começara a parecer imóvel alugado, e este aqui, coisa própria. A cama em que eu dormia era na A Última Luz. A luz com que eu acordava era a lâmpada de June. Quando eu dizia "casa" para mim mesmo, já não era mentira em sentido jurídico — era só a palavra errada para o lugar certo, como quem se perde e chama o mapa pelo nome do país em que está pisando.

Eu fiquei. Não decidi ficar; o ficar é que decidiu por mim, como o porto não é escolhido pelo barco, mas aceito por ele. E June seguia lançando os registros, e me desenhando neles uma vez atrás da outra, e eu a deixava, porque estar no registro dela era a coisa mais perto de ser guardado que eu já conheci. Eu tinha medo disso, e queria isso, e estava aprendendo que uma pessoa pode querer uma coisa e ter medo dela ao mesmo tempo, e que isso não é contradição — é condição.

O gancho daquelas semanas — a coisa que eu acumulei — era a menor coisa do mundo, e eu andava guardando-a para registrar com todo o cuidado.

June nunca dizia adeus.

Levei muito tempo para notar, porque adeus é palavra que a gente deixa de ouvir quando deixa de sair dos lugares, e eu já não saía da A Última Luz. Mas fui notando aos pedaços. Quando ela saía da sala no meio de uma conversa — para atender um hóspede, para ver o pão, para subir os degraus que contava sempre — ela não dizia adeus. Dizia: "Até amanhã." Quando a noite se recolhia, a lâmpada estava aparada e eu subia para o quarto, ela não desejava boa noite, não do jeito que os outros desejam boa noite. Dizia: "Até amanhã."

A primeira vez, eu não notei. Na décima, notei. Na vigésima — desta eu exijo de mim o registro exato — na vigésima, senti a frase pousar dentro de mim do jeito que uma moeda pousa num pote: um peso pequeno e específico, uma coisa que eu não sabia que estava colecionando até ouvir o som do fundo.

Eu acumulava. Esse é o verbo honesto. Eu, que passei a vida faturando por item e desconfiando de tudo que não se reduza a cláusula, comecei a acumular uma frase do jeito que o avarento acumula luz. Porque não era adeus. O adeus fecha uma coisa — é a última sentença da cláusula, a linha final do registro, e a gramática dos fechos eu conhecia de sobra para não confundir. "Até amanhã" não fecha. Ele garante que o amanhã existe: que a lâmpada vai acender de novo, que o mundo continua de pé, que ela continua dentro dele, lançando os registros.

Eu nunca perguntei a ela. Eu tinha medo, acho, de que, perguntando, ela explicasse, e a explicação encolhesse a coisa — virasse hábito, regra da casa, frase que ela usava com todo mundo porque todo mundo parte, e aquela era a forma mais branda que ela tinha achado de não dizer a coisa verdadeira. Então eu não perguntei. Deixei que fosse a coisa que eu não examinava, do mesmo jeito que deixava a névoa respirar, a neve não derreter, a música ficar um quarto de tom fora. Acumulei a frase no meu próprio pote das coisas impossíveis, não contei a ela, não contei a ninguém.

No fim, restaram duas palavras que eu nunca disse em voz alta: até amanhã. Ela as disse para mim cem vezes, e eu deixei cada uma pousar, e não disse uma única de volta — não por falta de vontade, mas porque eu ainda era um homem que pesa o peso de uma promessa, e ainda não tinha certeza de que seria capaz de cumprir aquela.

Eu guardei a minha versão, menor, mais segura, a que custa menos: ficar. Fui atravessando trechos contínuos cada vez mais longos, atravessando semanas que deixaram de precisar de contagem, até que o mundo de sete quartos, uma lâmpada e uma mulher que desenha os moribundos virou, sem a minha licença e sem o meu protesto, o lugar de onde só me tirariam carregando.

Eu não sabia, naquelas semanas, como aquilo acabaria. Não sabia que o ficar tinha um preço escondido em letras miúdas que eu não lera, nem que o mundo guardava uma conta própria, separada da de June e separada da minha. Eu achava que a lâmpada ficaria acesa, que o pão ficaria quente, que ela seguiria lançando os registros e que, a cada noite, ao sair da sala, diria as duas palavras que eu colecionava.

E eu pensava — porque sou um tolo que nunca aprendeu a ler a cláusula da própria vida: até amanhã.

Continuar para o próximo capítulo

Capítulo 3 · A primeira morte

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