Nos Vemos Amanhãpor Élodie Marchand

Prólogo · Dois anos, doze

Capítulo 1 · 10,3 mil palavras

Aquele dia escondia uma cláusula. Encontrei-a cedo, antes de a luz se ajeitar, e fiquei sentado com ela durante muito tempo — do mesmo jeito com que eu sentava com os contratos que não queria assinar: virando-a de todos os lados, atrás da frase que de fato causava o dano.

A neurologista disse o nome da doença uma vez, inteiro, e depois apenas a sigla — como quem dobra uma coisa para que ela ocupe menos lugar numa sala pequena. Em seguida pôs as duas mãos espalmadas sobre a mesa, como se a mesa também estivesse doente e precisasse de apoio.

"Elias." Ela usara o meu primeiro nome a consulta inteira. Eu não tinha autorizado isso. "Encontramos o padrão."

Eu disse: "Mediana."

Ela ergueu os olhos.

"A senhora vai me dar um número", eu disse, "e vai me dizer que é a mediana. Palavra que significa: metade das pessoas como eu vai pior do que esse número, e isso é aceitável, porque eu não preciso conhecer nenhuma delas."

Ela ficou quieta um momento, decidindo se eu estava sendo cruel. Não estava. Essa era a única língua em que eu confiava. Meu ganha-pão, durante vinte anos, foram as letras miúdas dos piores dias dos outros. As más notícias e eu conhecíamos de cor a gramática um do outro.

Passei vinte anos à beira das cláusulas de morte. Redigir, revisar, negociar — o ofício em que se negocia sem deixar de ser respeitável. Uma pessoa assina esse tipo de documento uma vez na vida; eu assinava dezenas por ano, e já tinha ficado dos dois lados da mesa. Eu sabia quanto uma palavra na página quatro podia economizar, sabia que vírgula valia uma hora numa reunião das dez. Os colegas me respeitavam, os clientes me agradeciam, com a cortesia exata que se reserva ao que é indispensável e que ninguém precisa olhar duas vezes. Achei que o trabalho me ensinara cláusulas. Só depois soube que me ensinara companhia — gastar a hora mais cara ao lado do pior dia dos outros, e chamar isso de profissionalismo.

"Dois anos", ela disse. "A mediana. No ritmo de progressão que estamos observando, a maioria dos pacientes da sua faixa fica entre dezoito meses e três anos. Vamos deixar o senhor confortável. Há ensaios clínicos. Há—" Ela parou, e recomeçou, o que na língua dos médicos já é uma cláusula à parte. "Há programas residenciais."

"Confortável." Eu mastiguei a palavra.

"Sei que não parece grande coisa."

"Parece muita coisa", eu disse. "Parece uma indústria inteira."

"Confortável", no setor dela, vinha com um pacote completo de acessórios: cama ajustável, remédio no horário, uma sessão de apoio, uma ligação para a família. No meu setor, tinha outro nome — limitação de responsabilidade: nenhuma promessa de cura, só a promessa de um processo digno. As duas indústrias se apertavam a mão em algum ponto do meio, e o aperto de mãos tinha endereço: aquele consultório.

O vidro da janela pedia uma lavagem. Havia nele uma marca de chuva, seca havia muito, e preguei os olhos nela, porque olhar para ela era mais fácil do que olhar para a segunda coisa da sala. A luz atravessava a marca e se partia em duas; uma delas estava errada. Fiz o inventário da sala para não chegar a minha vez de me inventariar: a escrivaninha. A caixa de lenços, perto demais de mim. A aliança dela. O diploma na parede. A marca. Lá fora, a rua fazia o seu comércio de terça-feira, e não havia uma alma que soubesse que a sentença já fora lida. Achei aquilo injusto — justo o bastante para não dar fatura.

"Não dói ainda", eu disse. Não era pergunta.

"Vai doer."

Eu queria que ela mentisse. Arquivei a informação: no fim das contas, eu ainda queria a versão branda da cláusula. Vinte anos de ofício, e eu ainda acreditava que, se ficasse bem quieto, o outro lado seria misericordioso.

"Primeiro a parte motora", ela disse, com uma voz mais leve do que a frase merecia. "Movimentos finos. Depois o equilíbrio. Mais adiante, a fala. A cognição costuma ser a última — o que, para quem vive do próprio pensamento, é uma crueldade de outro tipo—" Ela parou de novo.

"Para quem vive do próprio pensamento", completei a frase no lugar dela. "Eu entendo. O software estraga por último, para que eu veja o hardware estragar inteiro."

Ela não negou.

Havia um relógio pendurado atrás da porta do consultório; vi-o ao entrar, reflexo de ofício. Marcava as horas com precisão. Metade da minha atenção, durante toda aquela conversa, esteve nele — não por medo do tempo, por familiaridade: a submissão de quem cobra por hora ao relógio. Aos quarenta minutos ela olhou o próprio pulso, e eu quase ditei para ela o formato do registro. Gente como nós transforma até as piores palavras em horas faturáveis.

Na saída, ela me entregou panfletos que eu não iria ler, o telefone de um grupo de apoio que eu não iria discar e o nome de um programa residencial que eu já conhecia — porque anos antes, noutra vida, eu redigira documentos para um deles, e os honorários que cobrei sei reportar em dólares até hoje. Aurora Eterna. Companhia Halcyon. Eu lembrava das reuniões de produto, lembrava da expressão da época: um lugar de pouso. Todos sabíamos o que isso queria dizer. A portas fechadas, usávamos outra expressão, a honesta: um lugar feito para morrer, só que com outra cara.

Há um fato que vai importar mais adiante; portanto, enquanto as mãos ainda obedecem, escrevo-o agora:

Num banco de dados que vai viver mais do que eu, o meu nome está pendurado numa frase. A frase foi redigida por mim, ou aprovada por mim, no meu último ano no escritório. Cláusula nona do contrato de serviço da Halcyon. A que ninguém lê. Sei de cor, palavra por palavra, porque é para isso que me pagavam:

A empresa poderá, a qualquer momento, modificar, suspender ou encerrar este serviço, no todo ou em parte, com ou sem justificativa, com ou sem aviso prévio.

Padrão. Modelo de prateleira. Estava em todo contrato que passava pelas minhas mãos; naqueles anos, não fazer negócio com software era impossível, e numa gaveta tinha sempre de haver uma faca. Quando a escrevi, não pensei em gente morrendo; pensei na conta dos servidores. Da reunião, eu me lembro tanto quanto de qualquer outra reunião — ou seja, não me lembro. Da fatura, me lembro, porque na época eu cobrava por item e me orgulhava do item. Zero vírgula quatro de hora, cláusula nona. Quarenta e poucos dólares, trocados pela frase que autoriza uma empresa a desligar o mundo inteiro de alguém com um estalo.

Eu pensava naquela fatura mais ou menos como outros homens pensam no primeiro amor. Ela não era nada. Ela não era nada — um parágrafo, uma hora faturável. E agora eu ia passar os meus dois anos restantes dentro do produto que aquela frase fora escrita para proteger; nas letras miúdas das paredes ao meu redor dormia uma cláusula dizendo que eles podiam desligar tudo aquilo, a cláusula era minha, e eu ainda a assinara duas vezes.

Isso revela uma coisa sobre mim que eu só soube hoje: eu não leio os meus próprios contratos. Leio os de todo mundo, menos os meus.

Se soubessem, os do escritório cairiam na risada. Conheciam-me como o único homem do prédio que lia documentos de verdade, palavra por palavra; os novatos assustavam os novatos comigo — cuidado com o Ross, ele lê até o rodapé. Não sabiam que o hábito era um sintoma. Eu lia palavras dos outros porque palavras dos outros são seguras. Neles não há eu. Um contrato pode apodrecer até a última linha sem apodrecer em mim; eu sentava fora da podridão dele, cobrando por hora. Vinte anos morando nesse fora. Agora um médico me dava um número, e pela primeira vez eu morava dentro do papel.

Voltei para casa e não atendi o telefone da minha irmã. O nome de Dana acendeu a tela duas vezes. Ela ia querer saber do resultado dos exames. Eu a tinha avisado que era só rotina. Foi desse mesmo jeito que eu a avisara de muitas coisas irreais — pequenas, mornas, dobradas e empilhadas com capricho — e eu era bom nisso. Justamente por ser bom, sabia que ela acabaria me perdoando e que, dali em diante, jamais confiaria em mim por inteiro. Eu lamentava isso. Naquela noite não devolvi a ligação, porque ainda não sabia como começar a frase — e tinha dois anos para ensaiar.

O telefone ficara virado para baixo sobre a mesa, a tela acendendo e apagando, apagando e acendendo. A terceira ligação não veio. Dana não é das que fazem uma terceira ligação; ela espera, e espera com mais paciência do que a minha doença.

Naquela mesma noite dirigi até o centro de admissão da Halcyon, do outro lado da cidade, porque sou do tipo que, assim que uma coisa se torna possível, a faz no mesmo dia — antes que o medo consiga lavrar o registro.

A cidade de noite guardou o meu segredo. Um semáforo vermelho me esperava na rua vazia; uma farmácia de plantão ficava acesa, prateleiras brancas enfileiradas com precisão militar, como uma cláusula comprida que ninguém leria até o fim. Estacionei na vaga de visitantes e fiquei sentado um pouco, passando em revista o protocolo que me esperava: registro, autorização, deitar, contar — e depois a palavra que o setor de vendas embalara tão bem: a transição. O prédio era limpo, silencioso, não tinha cheiro de coisa nenhuma — o perfume mais caro que um prédio pode ter. Uma guia de olhar gentil me acompanhou até as telas de autorização. Li cláusula por cláusula. Eu leio tudo; essa é a única religião de que nunca me desliguei. Quando cheguei à nona, as palavras ainda eram minhas, palavra por palavra, intocadas depois de todos esses anos — com ou sem justificativa, com ou sem aviso prévio — e eu ri. Ri sozinho, em voz alta, na sala de admissão, até que a guia me perguntou com educação se estava tudo bem.

"Estou bem", eu disse. "Conferindo as letras miúdas. Doença profissional. Essas coisas eram escritas por mim, antigamente."

Ela riu, porque achou que era piada — e acertou pela metade.

As telas de autorização foram passando, uma a uma. Os dados serão utilizados para aprimorar o serviço. Sinais vitais arquivados durante a imersão. Cláusula de despertar de emergência. Fui lendo uma a uma e, no meio do caminho, percebi de repente o que estava fazendo: fazia a due diligence da minha própria última admissão, auditando um contrato alheio, atrás da cláusula que me deixasse dar meia-volta e sair pela porta. Essa cláusula não existia. Ou melhor: existia, era minha, e não segurava ninguém — muito menos a mim.

"A imersão é de todos os sentidos", ela disse. "O senhor fica sob sedação durante o processo, com monitoramento integral. Muitos hóspedes passam semanas imersos. O senhor pode retornar à realidade a qualquer momento. Se houver—" Ela fez uma pausa. "Se houver alguma intercorrência médica, o sistema desperta o senhor."

O sistema desperta você quando está morrendo, era esse o sentido dela — para que você morra num lugar com alvará. Lá dentro, no mundo, você não está morrendo. No mundo o tempo está bom, a comida vem quente, nada dói. Esse é o produto. Isso era o que a gente vendia naquele tempo. Eu sempre soube disso na abstração, do jeito que um empreiteiro conhece uma casa. A partir daquela noite, eu ia conhecê-la como morador.

Me puseram numa cadeira que era, ao mesmo tempo, uma cama. Um técnico de maneiras suaves, com o nome e apenas o nome no crachá, perguntou se eu estava pronto, e eu disse que sim, porque chegado certo ponto, a única resposta honesta para essa pergunta é "sim". Fechei os olhos e fiz o que faço sempre que o medo fica maior do que o quarto: uma lista.

Vai haver clima que não significa nada, eu me disse. Vai haver uma vila que não sabe que é vila. O mundo vai ter borda, porque todo mundo tem borda, e em alguma borda alguém certamente construiu algo — uma cerca, um muro, um farol — para provar que o construtor sabia onde tinha parado. Vai haver pão. Em lugar desse tipo há sempre pão; é a coisa mais barata e é a primeira que os moribundos pedem.

Nada disso, com o tempo, viria a importar de verdade.

Listas são muleta de quem tem medo. Eu ainda não sabia que o lugar para onde eu ia as arrancaria uma a uma — primeiro o clima, depois as horas, por último a própria palavra "importar". A lista, com o tempo, ganhou outras coisas. Coisas que não estavam em nenhuma das listas daquela noite.

A sedação foi me deixando descer por degraus mornos, um de cada vez, e eu a deixei fazer, porque sou uma pessoa que passou a vida inteira dizendo sim, e desta vez a cláusula era simples: eu perdia um pouco, em algum outro lugar ganhava-se um pouco. Não resisti. A partir daquele dia, fui deixando de resistir na ordem em que as coisas chegavam.

Quando acordei, havia sal no ar, e no fim do mundo uma lâmpada acesa.

E o céu sobre a minha cabeça — mais velho do que o meu prognóstico.

Continuar para o próximo capítulo

Capítulo 1 · A névoa no fim do mundo

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